A música começa de uma vez: "o som da buzina, da flauta, da harpa, da sambuca, do saltério, da gaita de foles, e de toda a espécie de música" Dn 3.5. Numa planície aberta, uma estátua de ouro brilha ao sol, e uma multidão de povos, de nações e de línguas cai de joelhos ao mesmo tempo. Só três homens ficam de pé. Quem os vê, do meio da multidão, corre para avisar o rei.
Esse é o capítulo do livro de Daniel que todo mundo conhece. Mas ele faz parte de uma série de cenas na corte de Babilônia: um treino de três anos, um sonho esquecido, uma fornalha, uma árvore cortada e um rei que perdeu o juízo. Este capítulo percorre todas elas, com o que a história e a arqueologia dizem de cada uma, e com o debate honesto sobre a data do livro.
26 — A ESCOLA DO REIQuatro jovens, três anos e dez dias de legumes
Daniel 1 conta como começou. O rei mandou escolher entre os cativos "jovens em quem não houvesse defeito algum, de boa aparência, e instruídos em toda a sabedoria" Dn 1.4. Eram preparados por três anos, com a comida do palácio, para servir diante do rei. Entre eles, quatro de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias Dn 1.6, que ganharam nomes babilônicos (Capítulos 1 e 3).
E a primeira batalha do livro não é contra um leão nem contra um forno. É contra o cardápio. Daniel "propôs no seu coração não se contaminar com a porção das iguarias do rei" Dn 1.8. O texto não diz por que a comida contaminava: pode ser que a carne e o vinho tivessem sido oferecidos aos deuses da Babilônia, ou que fossem impuros pela lei. Daniel faz uma proposta modesta e mede o resultado:
O resultado é descrito com cuidado: os rapazes ficaram "mais gordos de carne do que todos os jovens" Dn 1.15. No fim dos três anos, o rei os examinou e os achou "dez vezes mais doutos do que todos os magos astrólogos que havia em todo o seu reino" Dn 1.20.
A palavra que a ACF traduz por "legumes" (Dn 1.12) é zero'im (זֵרֹעִים), que vem da raiz de "semente": é tudo o que se planta, de grãos a verduras. A "porção das iguarias do rei" (Dn 1.5, 8) é, no hebraico, patbag, palavra que muitos estudiosos acham que vem do persa. Isso entra no debate sobre a data do livro, que veremos adiante: quem defende uma data antiga lembra que Daniel viveu até o tempo persa (Dn 10.1), e quem defende uma data mais tardia o vê como sinal de composição posterior.
Para um jovem de Jerusalém, a Babilônia era uma cidade de vertigem: ruas largas, templos de tijolo colorido, línguas de toda parte. As tabuinhas de rações do palácio, de que já falamos, listam carpinteiros de Arvad, de Biblos e até artesãos gregos, e também o rei de Judá com os seus filhos. Num mundo assim, uma recusa pequena, como a de comer à mesa do rei, era uma frase em voz alta: eu sei quem eu sou. Os quatro não se recusaram a servir. Recusaram-se a se perder.
27 — A ESTÁTUA DO SONHOUm rei que esqueceu o sonho
Algum tempo depois, no segundo ano de seu reinado, o rei teve um sonho que o perturbou, e não lembrava o que sonhara. Chamou os sábios, e eles responderam, em aramaico, o que qualquer especialista responderia: conte o sonho e interpretaremos Dn 2.4. Mas o rei exigiu que adivinhassem também o sonho. Os caldeus protestaram: "ninguém há que o possa declarar diante do rei, senão os deuses, cuja morada não é com a carne" Dn 2.11. O rei mandou matar todos os sábios de Babilônia, inclusive Daniel e seus amigos. Daniel pediu tempo e orou com os três, e o mistério lhe foi revelado numa visão da noite Dn 2.19.
A data aqui causa um problema: o sonho é "no segundo ano do reinado de Nabucodonosor" Dn 2.1, e os três anos de preparo de Daniel 1 ainda não tinham acabado. A explicação comum é que os anos foram contados de modo inclusivo e que Daniel chegou no ano da subida de Nabucodonosor ao trono: o "terceiro ano" de preparo cairia no "segundo ano" do reinado. É uma solução, não a única.
Daniel contou o sonho ao rei:
A interpretação começa com um elogio e uma limitação. A Nabucodonosor, Daniel diz: "tu és a cabeça de ouro" Dn 2.38. E logo vem a pedra, "cortada, sem auxílio de mão" Dn 2.34, que esmiúça a estátua e vira uma montanha que enche toda a terra. Daniel explica que o Deus do céu levantará um reino que não será destruído Dn 2.44. O rei reage de modo que impressiona: "caiu sobre a sua face, e adorou a Daniel" Dn 2.46, e diz: "Certamente o vosso Deus é Deus dos deuses" Dn 2.47.
E os outros reinos? O texto só nomeia o primeiro. Para os demais, há leituras diferentes. A leitura tradicional, comum a judeus e a cristãos desde a Antiguidade, vê a sequência Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Muitos estudiosos críticos leem Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. E a pedra é entendida, pela leitura cristã tradicional, como o reino do Messias, e por outros leitores, como o reino de Deus no fim dos tempos. Os livros desta série sobre os persas e sobre Alexandre voltam ao assunto.
A Mesopotâmia levava os sonhos a sério. Entre as tabuinhas da biblioteca do rei assírio Assurbanípal, em Nínive, há um "livro de sonhos", com listas do que cada sonho anuncia, e os babilônios tinham especialistas para interpretá-los. A ideia de que um sonho do rei era recado de um deus é coisa de toda a região. O que o texto de Daniel faz de singular é dizer que só o Deus de Israel pode revelar o sonho em si, e não só interpretá-lo.
⚠️ Nenhum texto babilônico fala do sonho da estátua, nem de Daniel. Isso não é estranho: as inscrições reais da época não registram episódios dessa natureza, e a ausência de Daniel nos textos babilônios conhecidos não prova nada, nem a favor nem contra. O que a arqueologia mostra é o ambiente: reis que consultavam sonhos, sábios treinados para isso e um palácio onde um estrangeiro podia subir pelo mérito.
Antes de aparecer diante do rei, Daniel orou com os amigos, e a oração que o texto guarda começa assim: "ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis" Dn 2.21. O rei achava que decidia o futuro. Daniel sabia quem decide o futuro dos reis. Quem sabe quem manda de verdade tem coragem de entrar na sala do rei.
28 — A FORNALHATrês homens de pé, um forno aceso
Daniel 3 volta à planície da abertura. A estátua era enorme: sessenta côvados de altura por seis de largura Dn 3.1. Um côvado tinha uns 45 centímetros, o que dá uns 27 metros de altura e 2,7 de largura. O texto não diz o que ela representava: o rei, um deus, o império. O lugar era "o campo de Dura, na província de Babilônia" Dn 3.1, e a ordem era simples: ao som da música, todos se prostrariam; quem não se prostrasse seria "lançado dentro da fornalha de fogo ardente" Dn 3.6.
Alguns caldeus aproveitaram para acusar os três judeus que o rei pusera sobre os negócios da província Dn 3.8-12. Nabucodonosor, furioso, lhes deu uma última chance. A resposta deles é uma das frases mais famosas da Bíblia:
Note o "e, se não". Eles acreditam que Deus pode livrar. Mas não fazem da fé uma chantagem: se ele não livrar, também não adoram. O rei mandou aquecer o forno sete vezes mais, e os homens mais fortes do exército os jogaram dentro, atados. E aconteceu o impossível, que o rei viu do lado de fora:
O fim da história é uma confissão do rei: "Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abednego, que enviou o seu anjo, e livrou os seus servos" Dn 3.28. É curioso que, neste capítulo, Daniel não apareça. O texto não explica onde ele estava.
Em Daniel 3.25, a ACF diz que o quarto homem era "semelhante ao Filho de Deus". No aramaico, a expressão é bar-elahin (בַּר־אֱלָהִין), que literalmente é "filho de deuses" (plural), na boca de um rei pagão, e pode soar como "um ser divino". Três versos depois, o mesmo rei o chama de "seu anjo" Dn 3.28. Os leitores se dividem. Muitos cristãos veem aí uma aparição do Filho de Deus antes da encarnação; outros, cristãos e judeus, veem um anjo, como o próprio rei disse no verso 28. O texto fica com a imagem: Deus entrou no fogo com eles.
A palavra aramaica para "fornalha" é attun (אַתּוּן), que parece ter parentes no acádio atūnu, "forno". E nas versões gregas antigas, e por isso nas Bíblias de católicos e ortodoxos, há acréscimos a esse capítulo, depois do versículo 23: a "Oração de Azarias" e o "Cântico dos Três Jovens", que não fazem parte da ACF.
Fogo como castigo existia na Babilônia. Segundo o código de Hamurabi, quem fosse ajudar a apagar um incêndio e aproveitasse para roubar era jogado no mesmo fogo (lei 25), e quem se deitasse com a própria mãe depois da morte do pai era queimado junto com ela (lei 157). E o próprio livro de Jeremias conta, numa carta aos exilados, que o rei de Babilônia "assou no fogo" dois falsos profetas Jr 29.22. Alguns instrumentos da lista de Daniel 3.5 têm nomes que parecem gregos, e isso pesa no debate sobre a data do livro. Mas as tabuinhas de rações do palácio mostram artesãos gregos na Babilônia no tempo de Nabucodonosor, de modo que gente e palavras gregas na cidade já eram possíveis então. A estátua não foi achada, e nenhuma inscrição fala do campo de Dura.
⚠️ Não temos nenhum registro babilônico do episódio. A existência do castigo de fogo, de gregos na corte e de uma planície chamada "Dura" (a palavra dūru quer dizer "muralha" e dá nome a vários lugares da Mesopotâmia) mostra que o cenário é plausível. Não prova que o fato ocorreu como o livro conta.
Para os oficiais judeus da província, o dilema era prático. Num império de muitos povos, prostrar-se diante da imagem erguida pelo rei era um gesto de lealdade, e o texto diz que todos se prostraram Dn 3.7. Só mostra o que aconteceu com os que não fizeram isso. E deixa o leitor com a pergunta: o que eu faria?
29 — A ÁRVORE E O REI QUE COMEU CAPIMDaniel 4
Daniel 4 é um texto incomum: começa e termina como uma carta do próprio rei, na primeira pessoa, a "todos os povos, nações e línguas, que moram em toda a terra" Dn 4.1. Ele conta que teve outro sonho, com uma árvore enorme, que dava sombra a todos, e que um vigilante do céu mandava cortar Dn 4.10-12. Daniel interpretou: a árvore era o rei, e ele seria afastado dos homens, viveria com os animais e comeria capim, por "sete tempos", "até que conheças que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens" Dn 4.32. Doze meses depois, passeando pelo palácio real, o rei olhou para a cidade e disse:
Aqui, o texto tem dois movimentos: o orgulho de quem diz "eu edifiquei" e a queda de quem aprende que o céu domina. E o fim é outra confissão pública, a do rei curado: "pode humilhar aos que andam na soberba" Dn 4.37.
"A grande Babilônia que eu edifiquei." Essa frase combina com o que Koldewey achou. Os tijolos de grande parte dos prédios escavados (palácios, muralhas, a Via das Procissões, o Portão de Ishtar) levam o nome do rei, "Nabucodonosor, rei de Babilônia", com o nome do pai. As inscrições do rei se vangloriam das obras. A cidade que se vê nas ruínas é, em grande parte, dele.
O rei que enlouqueceu. Nenhum texto babilônico fala da doença de Nabucodonosor. Mas há outro rei de Babilônia com uma história parecida. Entre os manuscritos do Mar Morto, em Qumran, há um texto conhecido como Oração de Nabonido (4Q242). Nele, o rei Nabonido fala, em primeira pessoa, que foi atingido por uma doença por sete anos, em Teima, no deserto da Arábia, e que um exilado judeu, um adivinho, perdoou seus pecados e o mandou dar glória ao Deus Altíssimo. É um texto fragmentário, copiado no século I a.C., segundo a escrita, e composto antes.
⚠️ É debate aberto. Há duas leituras principais. Para alguns estudiosos, Daniel 4 guarda uma tradição antiga que originalmente falava de Nabonido, cuja ausência em Teima era conhecida (veremos no Capítulo 9), e que o livro aplicou a Nabucodonosor. Para outros, é o contrário: o texto de Qumran é uma recontagem tardia da história de Daniel 4. Há ainda quem entenda o capítulo como relato histórico de uma doença do próprio Nabucodonosor, que os textos oficiais babilônicos, que só registravam glórias, teriam omitido. As fontes não decidem.
Existe um relato tardio de um historiador grego chamado Abideno, preservado pelo bispo Eusébio de Cesareia (Preparação Evangélica IX, 41). Nele, Nabucodonosor sobe ao terraço do palácio, diz certas palavras e desaparece. Alguns leitores veem aí um eco de Daniel 4.
⚠️ O texto de Abideno é tardio, de origem incerta, e só chegou até nós em citações de segunda mão. Não é prova de Daniel 4. É só um sinal de que histórias estranhas sobre o fim de Nabucodonosor circulavam fora da Bíblia.
"Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?" Dn 4.30. A pergunta do rei é a pergunta de todo mundo que olha para o próprio trabalho e esquece de quem lhe deu as mãos, o tempo e o chão. A cura dele durou "sete tempos" e acabou com uma frase que o rei mesmo escreveu: "pode humilhar aos que andam na soberba" Dn 4.37. Não é pecado construir uma grande cidade; é pecado esquecer que a base não é sua.
30 — A DATA DO LIVRODuas leituras, uma mesma pergunta
Não dá para falar de Daniel sem falar do debate sobre quando o livro foi escrito. Há duas posições, e ambas têm estudiosos sérios.
A leitura tradicional. O livro foi escrito no século VI a.C. pelo próprio Daniel, que viveu em Babilônia e na corte persa, e as profecias dos capítulos 2, 7, 8 e 11 são previsões de fato. Quem defende isso aponta que os detalhes de Babilônia (o nome de Belsazar, a corte, os costumes) são bem informados, e que o aramaico do livro, segundo alguns estudiosos, não exige data tardia.
A leitura crítica. O livro tomou a forma atual por volta de 165 a.C., no tempo do rei Antíoco IV Epifânio, que perseguiu os judeus. Os capítulos de corte (1 a 6) seriam histórias mais antigas, e as visões (7 a 12), uma literatura de resistência, que "prediz" os fatos já ocorridos para consolar quem sofria. Quem defende isso aponta, por exemplo, a precisão cada vez maior das visões até o tempo de Antíoco (Dn 11), que esses estudiosos leem como sinal de que o autor escrevia depois dos fatos; apontam também supostos erros de datas e nomes em alguns detalhes (como "Dario, o medo") e a posição do livro, no cânon hebraico, entre os "Escritos", e não entre os Profetas.
⚠️ Esse debate muda a pergunta que se faz às histórias de corte: foi o que Daniel viu e viveu, ou são relatos de fé para um povo oprimido? O livro, em qualquer das duas leituras, diz a mesma coisa sobre Deus: ele dá e tira os reinos, e os seus servos podem ficar de pé diante de qualquer império.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
O cardápio e o coração
Daniel "propôs no seu coração" não se contaminar Dn 1.8. Dez dias de legumes e três anos de escola da Babilônia.
A estátua e a pedra
Cabeça de ouro, pés de barro, e uma pedra "sem auxílio de mão" Dn 2.34. A identificação dos outros reinos é debatida.
"E, se não"
Os três jovens respondem ao rei sem fazer da fé uma chantagem Dn 3.17-18. O castigo de fogo existia na Babilônia, mas não há registro do episódio.
A árvore e o rei
"A grande Babilônia que eu edifiquei" combina com os tijolos de Koldewey. A Oração de Nabonido, de Qumran, tem uma história parecida, e o debate continua.
Próximo capítulo: Belsazar, a escrita na parede, a noite em que Babilônia caiu e o debate sobre "Dario, o medo".
Leve este capítulo com você
Baixe o Capítulo 8 — Daniel na corte em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.
🔒 PDF do capítulo