Os BabilôniosCapítulo 2 de 11 ⤓ PDF
Relevo do topo da estela de Hamurabi: o rei diante do deus Shamash, sentado
CAPÍTULO 2 DE 11

Abraão, Hamurabi e as leis

Ur dos caldeus, a estela de Susa e o "olho por olho"

A primeira cena de Abraão na Bíblia é uma saída da Mesopotâmia, e foi lá que um rei de Babilônia gravou, séculos antes de Moisés, as leis do seu reino. O que essas duas coisas têm a ver?

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Uma família sai de uma cidade de tijolo. O pai, Terá, vai na frente. Atrás dele vão o filho Abrão, a nora Sarai e o neto Ló. Gênesis diz só o nome do lugar de onde partem: "Ur dos caldeus" Gn 11.31. Se for a Ur do sul da Mesopotâmia, e é a leitura mais comum, a última coisa que eles viram ao olhar para trás foi uma torre em degraus, erguida em honra do deus-lua.

Este capítulo tem duas partes. Na primeira, de onde Abraão saiu, e quanto da Babilônia já estava ali. Na segunda, um rei de Babilônia que viveu séculos antes de Moisés, mandou gravar numa pedra a lei de seu reino, e deixou uma questão que ainda se discute: o que essa pedra tem a ver com a lei bíblica?

04 — O LUGAR DE ONDE ELE SAIUUr dos caldeus

A Bíblia volta a esse ponto de partida quatro vezes: Gênesis 11.28 e 11.31, quando Terá sai; Gênesis 15.7, quando Deus se apresenta a Abraão como "o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus" Gn 15.7; e Neemias 9.7, na grande oração do povo. No Novo Testamento, Estêvão conta a mesma história de outro jeito: Deus apareceu a Abraão "estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã" At 7.2. A saída de Ur é a primeira cena de Abraão na Bíblia, e por isso a Babilônia está presente no começo da história de Israel, antes mesmo de Canaã.

"E tomou Terá a Abrão seu filho, e a Ló, filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos caldeus, para ir à terra de Canaã; e vieram até Harã, e habitaram ali." Gênesis 11.31

Mas onde era essa Ur? A candidata mais forte é a cidade de Ur, no sul do atual Iraque, não longe do Eufrates. O arqueólogo inglês Leonard Woolley escavou ali de 1922 a 1934, com o Museu Britânico e o Museu da Universidade da Pensilvânia. Encontrou uma cidade grande, com templos, casas de pátio, túmulos reais riquíssimos e um zigurate (uma torre em degraus, com um templo no alto) construído por volta de 2100 a.C. pelo rei Ur-Nammu, em honra do deus-lua. Isso foi um ou dois séculos antes de Abraão, se ele viveu na data mais usada, c. 2000–1800 a.C. (há quem date os patriarcas de outro jeito).

Só que há um problema, e a Bíblia mesma não o esconde: o texto diz "Ur dos caldeus", e os caldeus só aparecem em textos assírios a partir do século IX a.C. Como é que um povo que não existia ainda dá nome à cidade de Abraão? Os estudiosos propõem três saídas. Uma, que o nome tenha sido atualizado por um copista ou editor, como acontece quando alguém troca o nome antigo de uma cidade pelo novo (o comentarista Gordon Wenham admite essa possibilidade, uma "glosa" posterior). Duas, que a Ur de Abraão seja outra, no norte, perto de Harã, na atual Turquia, ideia que o orientalista Cyrus Gordon defendeu no século XX. Três, que "caldeus" seja o nome posterior de um povo que já estava na região, só que com outro nome. Nenhuma das três é consenso, e nenhuma muda o que o texto quer dizer: um chamado.

🔎 A palavra original

"Ur dos caldeus" é, em hebraico, Ur Kasdim (אוּר כַּשְׂדִּים). Ur pode vir do sumério Urim, nome da cidade. Já Kasdim, como vimos no capítulo anterior, é a forma hebraica do acádio Kaldu. A mesma expressão volta em Gênesis 11.28, 11.31, 15.7 e Neemias 9.7. Atos 7.4 resume: "saiu da terra dos caldeus" At 7.4.

👁️ Como era viver ali

Ur era uma cidade de gente que contava: sacerdotes, escribas, comerciantes, barqueiros. Os arquivos de argila achados lá falam de cevada, lã, tâmaras, empréstimos, aluguéis. Quando a Bíblia diz que Abraão era "muito rico" depois, em Canaã, está falando de alguém que cresceu num mundo em que o dinheiro era pesado em pedra e registrado em tabuinha. Mas o próprio Josué diz que a família de Terá, "além do rio", "serviram a outros deuses" Js 24.2. Ur e Harã eram cidades com grandes templos do mesmo deus-lua, e é possível que seja esse o ambiente religioso que o texto tem em mente. O texto, porém, não dá o nome do deus.

📜 Segundo a tradição

A tradição judaica criou histórias sobre Abraão em Ur que a Bíblia não conta. O Livro dos Jubileus (séc. II a.C.) diz que o jovem Abrão incendiou a casa dos ídolos em Ur, e que Harã morreu nesse fogo. Um comentário rabínico antigo, o Gênesis Rabá (38), conta que Terá era fabricante de ídolos e que o filho os quebrou. O Alcorão (sura 21) também conta uma história em que Abraão destrói os ídolos de seu povo.

⚠️ Nenhuma dessas histórias está em Gênesis. São tradições posteriores, de judeus e de muçulmanos, que tentam explicar por que Deus chamou Abraão para fora de Ur. A Bíblia só diz que a família "serviu a outros deuses" (Js 24.2).

05 — O REI-PASTORHamurabi e a pedra de Susa

Se a Babilônia tem um rei famoso, é Hamurabi. Ele reinou de c. 1792 a c. 1750 a.C. (cronologia média) e foi o sexto rei da primeira dinastia da cidade. Depois de anos de guerras e alianças, derrubou os reinos rivais, como Larsa e Mari, e ficou senhor do sul e do centro da Mesopotâmia. A Babilônia, até então uma cidade-estado entre outras, virou capital.

Mas o que o torna conhecido é uma pedra. Em dezembro de 1901 e janeiro de 1902, os arqueólogos franceses que escavavam Susa, no atual Irã, sob a direção de Jacques de Morgan, acharam os pedaços de uma estela de basalto negro com uns 2,25 metros de altura, coberta de escrita cuneiforme. O assiriólogo Jean-Vincent Scheil a leu e a publicou em 1902. Hoje ela está no Museu do Louvre, em Paris. O texto tem um prólogo, cerca de 280 leis numeradas pelos estudiosos e um epílogo. O texto foi composto e gravado perto do fim do reinado de Hamurabi, c. 1754–1753 a.C. A pedra foi parar em Susa muito depois, levada como butim por um rei de Elão (Shutruk-Nahhunte, c. 1155 a.C.). Segundo Scheil, esse rei mandou apagar algumas colunas para escrever o próprio nome, mas boa parte do texto apagado pôde ser recuperada de cópias em tabuinhas.

O alto da pedra (a imagem que abre este capítulo) mostra o rei de pé diante de um deus sentado, que a leitura mais comum identifica como Shamash, o deus-sol e deus da justiça. No prólogo, Hamurabi se apresenta como o "pastor" chamado pelos deuses para fazer a justiça aparecer na terra, para que o forte não oprima o fraco. No epílogo, diz que escreveu aquelas palavras para que o órfão e a viúva tivessem justiça. A imagem do rei como pastor era comum na Mesopotâmia, e a Bíblia a conhece: é a palavra que Deus usa para Ciro ("É meu pastor" Is 44.28).

Hamurabi não foi o primeiro a escrever leis. Textos de c. 2100 a.C. já trazem as leis de Ur-Nammu, o mesmo rei que construiu o zigurate de Ur. Mais tarde vêm as de Lipit-Ishtar, de Isin, e as de Esnunna. O que a estela de Hamurabi tem de especial é o tamanho, o estado de conservação e a fama.

🏺 O que a pá encontrou

Muita gente já ouviu que Hamurabi é o "Anrafel, rei de Sinar" de Gênesis 14.1. A ideia nasceu no século XIX, porque os dois nomes soam um pouco parecidos, e durante décadas apareceu em livros de estudo. Hoje a maioria dos estudiosos a considera improvável: os especialistas em línguas acham o encaixe do nome fraco, e os outros três reis da história (Arioque, Quedorlaomer e Tidal) não foram identificados com segurança em nenhum texto antigo.

⚠️ A estela de Hamurabi nunca cita Abraão, e nenhum texto da Mesopotâmia cita Anrafel. Não há texto fora da Bíblia que ligue Hamurabi a Gênesis 14. A identificação ainda aparece em materiais populares, mas é hipótese antiga, não achado.

06 — UM OLHO, DOIS PREÇOSA lei de Hamurabi e a lei de Moisés

Entre 1902 e 1905, o assiriólogo alemão Friedrich Delitzsch fez três conferências em Berlim, chamadas Babel und Bibel ("Babel e Bíblia"), em que usou descobertas como a estela de Hamurabi para dizer que muita coisa da Bíblia vinha da Babilônia. A discussão pegou fogo na Alemanha, e é por isso que o assunto até hoje desperta emoção. Vale então olhar os textos, lado a lado.

A forma é parecida. As duas coleções escrevem a lei do mesmo jeito, com casos: "Se um homem fizer isto, acontecerá aquilo". A estela diz, na lei 196, em tradução minha: se um homem cegar o olho de outro homem, cegarão o seu olho. Êxodo diz:

"Mas se houver morte, então darás vida por vida, Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe." Êxodo 21.23-25

A regra do "olho por olho" aparece nas duas. E aparece também em outros pontos: o boi que escorneia (leis 250 a 252 da estela; Êx 21.28-32), o sequestro (lei 14; Êx 21.16), a escravidão por dívida (lei 117; Êx 21.2). Sobre essa última, a lei babilônica manda soltar o escravo por dívida no quarto ano, depois de três anos de trabalho. A lei de Israel o solta no sétimo, depois de seis Êx 21.2. O molde é igual. O número muda.

E agora as diferenças, que são tão importantes quanto as semelhanças.

Quem é o dono do olho. Na estela, a pena depende da classe. Se a vítima for um homem livre (awīlum), o agressor perde o seu olho (lei 196). Se for um "plebeu" (muškēnum), ele paga uma mina de prata (lei 198). Se for um escravo, paga metade do valor do escravo (lei 199). Em Levítico 24.19-22, a mesma regra vale para o natural e para o estrangeiro (a lei de Moisés também trata o escravo de modo próprio: em Êxodo 21.26-27, quem ferir o olho do servo o deixa ir livre por ele). A frase final de Levítico diz, de forma muito direta:

"Uma mesma lei tereis; assim será para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o Senhor vosso Deus." Levítico 24.22

Quem morre pelo erro. Se uma casa mal construída desabar e matar o filho do dono, a lei 230 manda matar o filho do construtor. Na Bíblia, o texto diz o oposto, com todas as letras: "Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais" Dt 24.16.

O escravo que foge. A lei 16 manda matar o dono da casa que esconder um escravo fugitivo e não o entregar quando o arauto fizer a proclamação pública. Deuteronômio manda o contrário: "Não entregarás a seu senhor o servo que, tendo fugido dele, se acolher a ti" Dt 23.15 (muitos estudiosos entendem que o texto fala do escravo vindo de fora de Israel).

O boi. Se o boi que o dono sabia que escorneava matar um homem livre, a lei 251 manda pagar meia mina de prata (que equivale a 30 siclos, já que uma mina tem 60). Em Êxodo 21.29, o dono do boi pode morrer, a não ser que lhe seja imposto um "resgate". Já a lei bíblica para o escravo morto pelo boi manda pagar trinta siclos ao dono Êx 21.32. A lei babilônica para o escravo é um terço de mina, ou 20 siclos (lei 252).

Quem é o rei. Na estela, é o rei quem fala, e o relevo o mostra diante do deus da justiça. Na Bíblia, a lei vem de Deus ao povo, e o futuro rei não está acima dela: ele precisa copiar o livro da lei, lê-lo "todos os dias da sua vida" Dt 17.19 e não deixar que o seu coração se levante sobre os irmãos Dt 17.20.

🔎 A palavra original

O epílogo da estela chama suas sentenças de "as decisões justas" que o rei estabeleceu. Em acádio, "justiça" é mīšarum, palavra muito usada pelos reis da Mesopotâmia, que se diziam "estabelecedores de justiça". Em hebraico, o par que mais aparece para a justiça é tsedeq (צֶדֶק), "o que é reto", e mishpat (מִשְׁפָּט), "decisão, juízo". Êxodo 21.1 usa esta última no plural para abrir o bloco de leis: "Estes são os estatutos que lhes proporás" Êx 21.1. A ACF traduz por "estatutos", mas a palavra é mishpatim, os "juízos". Cada cultura tinha seu vocabulário para a mesma pergunta: o que é decidir com justiça?

👁️ Como era viver ali

No tempo de Hamurabi, as provas eram testemunhas, contratos de argila e, em alguns casos extremos, o rio. A lei 2 manda o acusado de feitiçaria, quando não há prova, pular no rio. Se o rio o afogar, o acusador fica com a casa dele. Se o rio o poupar, quem acusou é que morre. Era a ordália, uma prova em que o deus decide. A Bíblia também tem uma ordália, a "água amarga" do ciúme em Números 5, com regras bem diferentes (sacerdote, oferta, sem risco de afogamento). Os dois mostram o mesmo mundo: onde não havia prova humana, a pessoa entregava o caso ao julgamento divino.

Então, qual é a relação? Há três respostas honestas.

Herança comum. É a posição mais frequente entre historiadores do Antigo Oriente. Estaríamos diante de uma tradição jurídica compartilhada por toda a região, com o mesmo molde ("se... então...") e muitos casos parecidos, que cada povo adaptou. O molde "se... então..." aparece também nas leis de Ur-Nammu, de Lipit-Ishtar, de Esnunna e nas leis dos hititas, escritas por povos diferentes.

Dependência literária. O estudioso David P. Wright, no livro Inventing God's Law (Oxford, 2009), defende que o "Código da Aliança" de Êxodo (20.22 a 23.19) usou diretamente um texto do tipo do código de Hamurabi e o reescreveu. A maioria dos estudiosos prefere falar de tradição comum, e a tese de Wright tem defensores e críticos.

Origem divina independente. Leitores que entendem que a lei foi dada por Deus a Moisés enxergam as semelhanças como o jeito normal de se escrever lei naquela época, sem que isso diminua a origem. Para eles, o que importa nas diferenças (a mesma lei para todos, a vida do pobre valendo o mesmo, o rei sob a Palavra) é justamente o que mostra que a lei de Israel diz algo próprio.

⚠️ É debate aberto. A estela de Hamurabi prova que a lei casuística e o "olho por olho" existiam na Mesopotâmia séculos antes de Moisés. Ela não prova que a lei de Moisés copiou a lei de Hamurabi, e a lei bíblica também não prova o contrário. Quem lê só as semelhanças ou só as diferenças acaba contando meia história.

🌱 Semente de sermão

Na Babilônia, o preço do olho dependia de quem era o dono do olho. Na lei de Israel, "uma mesma lei tereis" Lv 24.22. Jesus cita o antigo "olho por olho" e aponta um caminho além Mt 5.38-39, e os cristãos discutem como isso se encaixa na lei de Moisés. Mas a pergunta de fundo continua a mesma, em qualquer pedra: o valor de uma pessoa muda conforme a classe dela?

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🧭

Abraão começa na Mesopotâmia

A primeira cena do pai de Israel é uma saída de Ur Gn 11.31. A palavra "caldeus" ali é um problema de datas que os estudiosos explicam de três jeitos.

🪨

A pedra de Hamurabi

Basalto, 2,25 m, achada em Susa em 1901–02, hoje no Louvre. Cerca de 280 leis, escritas séculos antes de Moisés.

⚖️

Mesmo molde, outro coração

"Se... então...", "olho por olho", o boi que escorneia. Mas a pena dependia da classe, e filho podia morrer pelo pai. A lei bíblica proíbe a segunda e iguala natural e estrangeiro Lv 24.22 Dt 24.16.

🤔

Um debate honesto

Herança comum, dependência literária, origem divina independente. A estela mostra o ambiente; não decide a pergunta.

Próximo capítulo: no que os babilônios acreditavam, o deus Marduque, o poema da criação e a resposta de Isaías e Jeremias a todos esses deuses.

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