SOBRE ESTE LIVROA Babilônia da Bíblia, em poucos minutos
Doze meses depois do sonho, o rei passeia pelo palácio real e olha a cidade lá embaixo: muralhas, templos, canais, tudo de tijolo. Ele fala em voz alta, com orgulho.
Antes de a frase terminar, uma voz do céu o interrompe. A Babilônia é assim na Bíblia: grande, bonita, poderosa e sempre diante de uma pergunta. Este livro conta quem foram os babilônios, no que acreditavam, cada vez que a cidade cruza o texto bíblico, de Babel ao Apocalipse, e o que a pá dos arqueólogos tirou do chão. Se você ler só esta página, já sai com o essencial.
Quem eram. A Babilônia ficava no sul da Mesopotâmia, entre o Tigre e o Eufrates, onde hoje é o Iraque. Sem pedra e sem madeira, construía com tijolo e betume, e escrevia em tabuinhas de argila, com um caniço, em letras em forma de cunha. O nome da cidade aparece em textos de c. 2200 a.C. Seu primeiro rei famoso foi Hamurabi (c. 1792–1750 a.C.), que mandou gravar numa pedra a mais conhecida coleção de leis da Mesopotâmia. Mas a Babilônia que a Bíblia mais conhece é a do último império, de 626 a 539 a.C., com Nabucodonosor II à frente.
No que acreditavam. Seu deus era Marduque, chamado Bel, "o Senhor". Um poema de criação, o Enuma Elish, contava como ele venceu o mar primordial e fez o mundo com o corpo do inimigo. Os babilônios liam o futuro no fígado dos animais e no céu. Foi diante desses deuses que os profetas falaram: "Bel está abatido, Nebo se encurvou" Is 46.1. A Bíblia não ignora essa religião. Ela responde a ela.
Cada vez que cruzam a Bíblia. A primeira vez é em Gênesis, quando Ninrode funda um reino em Babel e os homens erguem uma torre de tijolo Gn 10.10 Gn 11.1-9. Abraão sai de "Ur dos caldeus" Gn 11.31. Séculos depois, um rei chamado Merodaque-Baladã manda embaixadores a Ezequias, e Isaías avisa que tudo irá para a Babilônia Is 39.6. Então vem Nabucodonosor. Em 605 a.C., ele vence o Egito em Carquemis. Em 597, toma Jerusalém e leva o rei Joaquim. Em 586, queima o templo e leva o povo 2Rs 25.8-9. Os exilados recebem uma carta de Jeremias: "procurai a paz da cidade" Jr 29.7. Ezequiel vê visões junto ao rio Quebar. O Salmo 137 chora. E, na corte, Daniel e seus amigos enfrentam uma fornalha, um sonho esquecido, um rei que comeu capim e uma mão que escreveu na parede Dn 5.5. Em 539 a.C., a cidade cai para Ciro, quase sem luta.
Depois disso, a Babilônia continua na Bíblia como símbolo. Os profetas a chamam de "filha de Babilônia" e a condenam. No Novo Testamento ela aparece na genealogia de Jesus, na saudação de Pedro e, sobretudo, no Apocalipse, como a "grande Babilônia", que as pessoas leem de modos muito diferentes: Roma, Jerusalém, uma cidade futura, um símbolo de todo poder sem Deus. O livro mostra as leituras sem escolher uma.
O que a pá encontrou. A arqueologia confirma muita coisa e cala em outras. A Crônica de Nabucodonosor registra a tomada da "cidade de Judá" em 2 de adar de 597 a.C., e as tabuinhas de rações de Berlim citam "Ya'ukin, rei de Iahudu", o Joaquim da Bíblia. Uma tabuinha do Museu Britânico, lida em 2007, cita um oficial de Jeremias 39.3, Nabu-sharrussu-ukin. Os tijolos do rei levam o nome dele, como em Daniel 4.30. O Portão de Ishtar, azul e dourado, está em Berlim. Já Daniel não aparece em nenhum texto babilônico, e "Dario, o medo" é um enigma que ninguém resolveu. Há também debates honestos: a data de Daniel, o sentido de "Lúcifer", a explicação dos setenta anos, o que Gênesis 11 deve ao zigurate de Marduque. O livro mostra as posições e não fecha o que a Bíblia não fecha.
Como isso muda sua leitura. Você vai ler "o tijolo por pedra, e o betume por cal" sabendo que é o jeito de construir na planície. Vai ouvir "olho por olho" sabendo que a estela de Hamurabi já dizia isso, e perceber o que a lei de Israel faz de diferente: "Uma mesma lei tereis" Lv 24.22. Vai ler Isaías 46 vendo os deuses de Babilônia nas costas de bois cansados. Vai ler Jeremias 29 sabendo que existiram povoados de judeus na Babilônia, com contratos de argila. E vai ouvir o "Sai dela, povo meu" do Apocalipse Ap 18.4 como um eco de Jeremias e de Isaías.
ANTES DE COMEÇARO mapa para não se perder
Na Almeida Corrigida Fiel, mais de duzentos e sessenta versículos citam a Babilônia, e quase noventa trazem o nome de Nabucodonosor. É um dos povos que mais pesam na Bíblia. É a cidade para onde Judá foi levado, o lugar que, para muitos estudiosos, ajudou a dar forma a boa parte da Bíblia hebraica e o nome que o Apocalipse usa para a "grande Babilônia". Antes de entrar nas cenas, fixe estes seis cartões.
Onde
A planície entre o Tigre e o Eufrates, no sul do Iraque, a uns 85 km de Bagdá. Quase não chove: a vida depende dos canais, e a obra, do tijolo.
Quando
O nome aparece em c. 2200 a.C. A Bíblia a conhece melhor no último império, de 626 a 539 a.C., e quase tudo o que ela conta do exílio fica entre 605 e 539.
Por que importa na Bíblia
Babel, o exílio, Daniel e a "grande Babilônia" do Apocalipse. É a cidade que mudou a história de Israel e que virou símbolo.
O momento mais famoso
A queda de Jerusalém, em 586 a.C., e, na corte, a mão que escreve na parede 2Rs 25 Dn 5.
Nabucodonosor
Reinou de 605 a 562 a.C. e fez da Babilônia uma das maiores cidades do mundo. Os tijolos de suas obras levam o nome dele.
A prova fora da Bíblia
A Crônica de Nabucodonosor (BM 21946) registra a tomada da "cidade de Judá" em 2 de adar de 597 a.C.
O hebraico chama a cidade de Bavel (בָּבֶל), do acádio Bāb-ilim, "porta de Deus". Gênesis 11.9 faz um trocadilho com o verbo balal, "confundir". O povo é Kasdim, os "caldeus", do acádio Kaldu, e a terra é Shin'ar, "Sinar". A ACF escreve "Nabucodonosor", mas Jeremias e Ezequiel muitas vezes escrevem Nebukadretsar, mais perto do acádio Nabû-kudurri-uṣur, o nome com o deus Nabu dentro dele.
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