Uma estrada. Do Egito até a Assíria, e na estrada vão e vêm os dois povos, e os dois adoram juntos Is 19.23. É a cena mais inesperada da Assíria na Bíblia: numa visão do futuro, o império que esmagou Samaria e cercou Jerusalém recebe, da boca de Deus, um título de afeto.
Este último capítulo reúne o que ficou da Assíria: a história de como ela foi encontrada de novo, o que a arqueologia confirma e o que deixa em aberto, as datas que os estudiosos ainda discutem e as passagens da Bíblia que passam a soar diferente para quem leu o livro inteiro.
36 — ENTERRADA E ESQUECIDAComo a Assíria foi achada de novo
Depois de 612 a.C., as cidades assírias ficaram em ruínas, cobertas de terra, e a lembrança do império se apagou. Pouco mais de dois séculos depois, em 401–400 a.C., o grego Xenofonte passou por ali com um exército e descreveu duas cidades em ruínas, Larissa e Mespila, com muralhas enormes. Hoje se identificam as duas com Calá e Nínive. Xenofonte não sabia que eram assírias, e atribuiu os restos aos medos. Durante mais de dois mil anos, o que se sabia da Assíria vinha da Bíblia e de uns poucos autores antigos.
A virada veio no século XIX. Em 1843, o cônsul francês Paul-Émile Botta, depois de tentar em Kuyunjik, escavou em Khorsabad e achou o palácio de Sargão II, com relevos e inscrições. Em 1845, o inglês Austen Henry Layard começou em Nimrud e, nos anos seguintes, em Kuyunjik, onde achou o palácio de Senaqueribe, os relevos de Laquis e a biblioteca de Assurbanípal. Seu assistente, Hormuzd Rassam, continuou. E uma questão ainda faltava: ler o que estava escrito. A escrita cuneiforme foi decifrada por Henry Rawlinson, Edward Hincks, Jules Oppert e outros, e em 1857 a Sociedade Real Asiática propôs uma prova: deu a quatro estudiosos (Rawlinson, Hincks, Talbot e Oppert), em separado, a mesma inscrição, do rei Tiglate-Pileser I. As traduções coincidiram no essencial, e a língua acádia passou a ser considerada decifrada.
Um exemplo de como a pá confirma a Bíblia numa coisa pequena: Sargão II aparece nela uma só vez, em Isaías 20.1, "Sargom, rei da Assíria". Fora da Bíblia, esse rei era praticamente desconhecido antes das escavações do século XIX. Quando Botta achou Khorsabad, o palácio era dele, cheio de inscrições com o nome. Isso não prova o que Isaías disse, mas mostra que o profeta falava de um rei real, e os textos de Sargão registram a campanha contra Asdode, por volta de 711 a.C.
No século XX, os alemães escavaram Assur (1903–1914), a equipe de Max Mallowan trabalhou em Nimrud (de 1949 a 1963, com o tratado de Esar-Hadom e os marfins) e arqueólogos iraquianos acharam as tumbas das rainhas de Calá (1988–1989), com joias de ouro e o nome da rainha Iaba, mulher de Tiglate-Pileser III. Em Laquis, David Ussishkin dirigiu a escavação (1973–1994) que revelou a rampa do cerco de 701. E em 2009, em Tell Tayinat, apareceu mais uma cópia do tratado de Esar-Hadom.
⚠️ Nem tudo é boa notícia. Entre 2014 e 2017, o grupo Estado Islâmico destruiu a mesquita do monte de Nebi Yunus, o Museu de Mossul, partes de Nimrud e o Portão de Nergal, em Nínive, como documentaram o governo do Iraque e a UNESCO. Parte do que se sabe da Assíria foi perdida de novo, e parte foi achada nos túneis dos saqueadores. A história da descoberta continua em andamento.
37 — O DEBATE HONESTO DAS DATASO que é âncora e o que é conta
Datas são o ponto onde mais se discute, então vale esclarecer o método deste livro. A cronologia assíria é uma das mais firmes do Oriente Antigo, porque as listas de epônimos, com o eclipse de 763 a.C., permitem contar ano a ano (Capítulo 1). Quando um texto assírio cita um rei de Israel ou de Judá, ele "ancora" a história bíblica num ano certo. Entre essas âncoras, os estudiosos ajustam os reinados contados pela Bíblia, e daí vêm diferenças de poucos anos entre uma proposta e outra (as de Edwin Thiele, as de Gershon Galil e outras). Uso aqui as datas convencionais, com "c." quando há incerteza.
As âncoras principais, em ordem:
E os pontos que continuam abertos, para que o professor saiba o que dizer sem forçar:
A data do reinado de Ezequias. A conta de Reis dá duas datas incompatíveis (c. 729 e c. 715). A saída mais comum é uma co-regência com Acaz, mas há outras (Capítulo 7). Quem tomou Samaria. Quatro leituras possíveis, e todas concordam que o reino do norte terminou na década de 720 (Capítulo 6). Uma ou duas campanhas de Senaqueribe. A maioria dos especialistas hoje vê uma só, em 701; John Bright e outros viam duas (Capítulo 8). A data de Jonas e o gênero do livro. O livro não se data, e há três leituras sérias (Capítulo 4). A data do túnel de Siloé. Quase todos aceitam o fim do século VIII, com uma minoria que propõe datas posteriores (Capítulo 7). Os números dos reis. 185 mil mortos, 200.150 deportados, 27 mil de Samaria, 2.000 carros de Acabe: são números de uma só fonte cada, sem conferência independente.
⚠️ Esses debates não precisam abalar ninguém. Mostram que tanto o texto bíblico quanto os textos assírios foram escritos por pessoas que contavam a história do seu lado, e que a imagem completa pede os dois lados juntos, como este livro tentou fazer.
38 — COMO ISSO MUDA SUA LEITURACinco passagens que passam a soar diferente
1. Isaías 10.13-14. Quando o rei da Assíria diz "Com a força da minha mão o fiz", você reconhece o tom dos anais: o "eu fiz" de cada linha, o mundo recolhido como ovos de um ninho. Isaías não está inventando um vilão, está imitando a propaganda dele.
2. 2 Reis 18.19. O "grande rei, o rei da Assíria" do Rabsaqué não é um insulto: é o título oficial do rei, šarru rabû. E o oficial que fala judaico diante do muro é da cúpula da administração assíria.
3. 2 Reis 18.14. O "Pequei; retira-te de mim" de Ezequias não é só um gesto de fraqueza. É a linguagem de um vassalo diante do senhor.
4. Jonas 4.11. A pergunta de Deus sobre "a grande cidade de Nínive" deixa de ser uma frase bonita quando você sabe o que Nínive fazia. O livro pede que se tenha compaixão por exatamente aquele inimigo.
5. Isaías 19.25. O mesmo império que Isaías chamou de "vara da minha ira" é, numa visão do futuro, "obra de minhas mãos". A Assíria entra na Bíblia numa lista de cidades de uma genealogia (Gn 10) e, em Isaías 19, aparece numa bênção.
Em Isaías 19.25, os títulos que Deus dá ao Egito e à Assíria são do tipo que a Bíblia costuma reservar a Israel: "meu povo" (ʻammî, עַמִּי) para o Egito, e "obra de minhas mãos" (maʻăśēh yāday, מַעֲשֵׂה יָדַי) para a Assíria. A segunda expressão, em outros lugares, é dita do povo de Israel e da criação. Em outras palavras: nesta visão, dois grandes opressores do povo de Deus recebem títulos que costumavam ser dele. Isaías fala "naquele dia", no futuro, e os estudiosos discutem se se trata do futuro próximo, de um tempo ainda por vir ou de uma imagem do alcance da obra de Deus.
Por fim, a Assíria aparece na Bíblia de outros modos, menores. É o nome que Balaão cita numa profecia Nm 24.22,24; uma aliada dos inimigos de Israel num salmo Sl 83.8; aquele de quem Samaria "se enamorou", na linguagem forte de Ezequiel, ou seja, com quem fez alianças políticas Ez 23.5-9; um símbolo duradouro de potência estrangeira, mesmo muito depois da queda, quando os israelitas dizem "Aos egípcios e aos assírios estendemos as mãos, para nos fartarem de pão" Lm 5.6 e rezam em Neemias "desde os dias dos reis da Assíria até ao dia de hoje" Ne 9.32. No Novo Testamento, o país não aparece pelo nome, mas os ninivitas voltam, no juízo, como exemplo Mt 12.41.
Duas obras fora do cânon protestante também se passam na Assíria. Tobias, que está nas Bíblias católicas e ortodoxas, conta a vida de um israelita de Naftali levado cativo à Assíria e que vive em Nínive. Judite, também deuterocanônica, abre dizendo que Nabucodonosor reinava sobre os assírios, em Nínive, uma combinação que a história não confirma, pois Nabucodonosor foi rei da Babilônia. Muitos estudiosos, inclusive católicos, leem Judite como narrativa instrutiva, e não como crônica. E uma tradição viva: igrejas de língua siríaca e outras, entre elas a Igreja Assíria do Oriente, a Caldeia e a Siríaca Ortodoxa, guardam todo ano o jejum dos ninivitas, de três dias, inspirado em Jonas 3.
⚠️ Tobias e Judite são textos de tradição religiosa, cuja autoridade as igrejas veem de modos diferentes. Os fatos que este livro apresenta como Escritura vêm do cânon comum a todas elas.
O que sobrou do povo comum da Assíria? Quase sempre, só o que ficou em cerâmica, em contrato e em túmulo debaixo do chão da casa. Mas deixou uma herança que atravessou a história: os assírios ajudaram a espalhar o aramaico, a língua que, por causa das deportações e das estradas, passou a servir de língua franca em boa parte do Oriente Médio (os historiadores ligam isso à política assíria de reassentamento), e que, séculos depois, é a língua de partes de Esdras e Daniel, e a que Jesus falava no dia a dia. Os assírios de hoje, cristãos de língua neoaramaica que vivem no Iraque, na Síria, na Turquia, no Irã e pelo mundo, se identificam com a Assíria antiga; a continuidade histórica é discutida pelos estudiosos.
PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos-chave
PARA FIXARO que ficou do livro
A vara tem dono
A Assíria foi, para a Bíblia, o instrumento que se achou dono da mão, e foi julgada por isso. O mesmo Deus, no fim, a chama de "obra de minhas mãos".
A prova e o limite
Jeú, Acaz, Ezequias, Manassés e Senaqueribe aparecem em textos assírios. Mas nenhum texto assírio fala de Jonas, do anjo ou da carta no templo, e algumas datas seguem em debate.
Leitura nova, texto igual
O "grande rei", o "eu fiz", o "pássaro na gaiola", o "não lhe respondereis": detalhes que ganham sentido para quem conhece a Assíria.
Nem o inimigo está longe demais
Jonas termina com uma pergunta, Naum também, e Isaías 19 abre uma visão de bênção. A Bíblia deixa a última palavra com Deus.
A biblioteca que sobreviveu
O fogo que destruiu Nínive cozeu as tabuinhas. Gilgamesh e o dilúvio chegaram a nós por isso.
O aramaico
A língua das deportações e das estradas assírias é a que, séculos depois, Jesus falava em casa.
Da vara de Isaías 10.5 à bênção de Isaías 19.25, a Assíria da Bíblia cabe entre duas frases: "Ai da Assíria, a vara da minha ira" e "a Assíria, obra de minhas mãos". No próximo livro da série, o império que herdou a Assíria: a Babilônia, de Nabucodonosor e do exílio.
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