Os AssíriosCapítulo 1 de 11 ⤓ PDF
Reconstituição, desenhada no século XIX, de um palácio assírio com escadarias, leões e pórticos decorados
CAPÍTULO 1 DE 11

Quem eram

O Tigre, quatro capitais e mil anos de história

Antes de ver a Assíria cruzando a Bíblia, é preciso saber que povo era esse: onde viveu, como se organizou e como contou a história de si mesmo.

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Dez dias de festa. Para inaugurar o palácio novo em Calá, o rei Assurnasirpal II mandou gravar numa pedra o tamanho da mesa: 69.574 convidados, mil bois, milhares de ovelhas, dez mil jarros de cerveja. A estela conta que ele os fez comer e beber, mandou banhá-los e ungi-los, e os despediu em paz.

Era assim que a Assíria gostava de aparecer quando não estava em guerra: farta, generosa, sem medida. Foi essa mesma Assíria que, quase dois séculos depois, parou diante dos muros de Jerusalém. Este capítulo mostra de onde ela veio, onde viveu e como contou a história de si mesma. No fim, uma linha do tempo marca onde a Bíblia cruza cada época.

01 — O CORAÇÃO NO TIGREOnde ficava a Assíria

Abra um mapa do Iraque de hoje e procure Mosul, no norte. Foi ali, à beira do rio Tigre, que a Assíria nasceu e passou a maior parte da sua história. O coração do país era um triângulo apertado entre o Tigre e os rios Zabe: Assur ao sul, Nínive ao norte e Arbela (a Erbil de hoje) a leste. Ao redor, planície aberta; mais longe, as montanhas do Zagros.

Há uma diferença que explica muita coisa. No sul da Mesopotâmia, a terra de Babilônia, quase não chove, e tudo depende de canais. No norte assírio, chove o bastante para plantar cevada e trigo sem irrigar. O camponês assírio vivia do céu; o babilônio, do canal. Por outro lado, a Assíria não tinha fronteiras naturais: era uma planície aberta, fácil de invadir, cercada de povos de montanha e de rivais. Alguns historiadores ligam esse desenho ao hábito assírio de atacar primeiro, para não ser atacada.

A Bíblia sabe onde ficava essa terra. Na descrição do Éden, o Tigre é o rio que "vai para o lado oriental da Assíria" Gn 2.14. E quando Gênesis arruma as nações como uma grande família, a Assíria aparece duas vezes: Assur é um dos filhos de Sem Gn 10.22, e as cidades assírias são lembradas junto de um homem de fama, Ninrode:

"E o princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar. Desta mesma terra saiu à Assíria e edificou a Nínive, Reobote-Ir, Calá, E Resen, entre Nínive e Calá (esta é a grande cidade)." Gênesis 10.10-12

O profeta Miqueias, no século VIII a.C., chama a Assíria de "a terra de Ninrode" Mq 5.6. O texto de Gênesis diz só o que está escrito: um construtor de cidades, nascido da linhagem de Cuxe, e uma lista de cidades que existiram de verdade. Os estudiosos tentaram achar um rei histórico por trás do nome (Tukulti-Ninurta I, Sargão de Acade e outros foram sugeridos), mas nenhuma identificação é certa.

🔎 A palavra original

O hebraico escreve a Assíria e o seu povo com uma só palavra, ʼAššûr (אַשּׁוּר). Em acádio, a língua deles, Aššur servia para três coisas ao mesmo tempo: a cidade, o país e o deus principal. Quando um rei dizia "Assur, meu senhor", falava do deus, da terra e da capital de uma vez.

Já em Gênesis 10.11 há uma dúvida de gramática. O hebraico diz mîn-hāʼāreṣ hahîʼ yāṣāʼ ʼAššûr, e as Bíblias se dividem: "dessa terra saiu Assur" (Assur como o homem que saiu) ou "ele saiu para a Assíria" (Ninrode como quem saiu). A ACF segue a segunda. As duas leituras são possíveis, e a diferença não muda o que o texto diz sobre as cidades. O Tigre, por sua vez, é Ḥiddeqel (חִדֶּקֶל) em hebraico, forma que vem do acádio Idiqlat.

🌱 Semente de sermão

A Bíblia não começa o assunto da Assíria pelo medo. Começa por um rio do Éden e por uma lista de cidades numa genealogia. Antes de ser a vara de Deus Is 10.5, a Assíria foi um povo com nome, pai e endereço. Quem pastoreia precisa lembrar que o inimigo também tem rosto de gente.

02 — QUATRO CIDADESAssur, Calá, Dur-Sharrukin e Nínive

A Assíria trocou de capital várias vezes, e a Bíblia só chama pelo nome duas dessas cidades (Nínive e Calá). Mas quatro precisam entrar na sua cabeça.

Assur é a mais antiga: uma cidade sobre um penhasco, na margem do Tigre, que deu o nome ao país e ao deus. Mesmo depois que os reis mudaram a corte para outras cidades, Assur continuou sendo o centro religioso, o lugar dos templos e das tumbas reais. Hoje o sítio, perto da aldeia de Qala'at Sherqat, no Iraque, é Patrimônio Mundial da UNESCO.

Calá (o Nimrud de hoje, a Kalhu dos assírios) é a Calá de Gênesis 10.11. Ela já existia, mas estava em ruínas quando Assurnasirpal II a refez e a tornou capital, a partir de c. 879 a.C. É a cidade da grande festa do começo deste capítulo. Seus palácios tinham paredes de pedra cobertas de relevos, com deuses alados, reis, caçadas e cercos.

Dur-Sharrukin ("Fortaleza de Sargão", a Khorsabad de hoje) é a mais curta de todas. Sargão II começou a construí-la por volta de 717 a.C., fez dela a sua residência oficial em 706 e morreu em batalha em 705. O filho, Senaqueribe, mudou a corte para Nínive. A cidade de Sargão foi capital por menos de dois anos.

Nínive é a mais famosa. Senaqueribe a transformou em capital em 705 a.C. e a reformou em escala enorme: muralhas de uns 12 quilômetros de circunferência, quinze portões e um palácio que ele mesmo chamou "palácio sem rival". Ela ficou de pé como capital por quase um século, até ser destruída em 612 a.C. (Capítulo 10). Fica onde hoje está Mosul, na margem leste do Tigre, e os dois montes onde estava o centro da antiga cidade se chamam Kuyunjik e Nebi Yunus ("o profeta Jonas", pelo túmulo que se mostra ali; voltaremos a isso no Capítulo 4).

Touro alado com cabeça humana e figura alada, desenhos de relevos de um portão da muralha de Nínive
Touro alado de cabeça humana e figura alada, de um portão da muralha de Nínive (Kuyunjik) — gravura de Austen Henry Layard, A Second Series of the Monuments of Nineveh (1853), prancha 3. Criaturas assim guardavam as entradas dos palácios e das cidades. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

O que sabemos das capitais vem do chão. A Khorsabad de Sargão foi a primeira a ser escavada: Paul-Émile Botta, cônsul francês em Mossul, começou ali em 1843, e a França levou para o Louvre relevos de Khorsabad. Em Calá e em Nínive, Austen Henry Layard desenterrou palácios inteiros entre 1845 e 1851 e mandou para o Museu Britânico os relevos e os touros alados. Os dois homens abriram um mundo que, até então, só existia nas páginas da Bíblia e nos poucos relatos de gregos.

⚠️ As descobertas mostram que essas cidades existiram e foram grandes. Elas não "provam" a Bíblia no sentido de confirmar cada cena, mas mostram que a Bíblia fala de lugares e reis reais, e muitas vezes com o nome certo.

03 — TRÊS FASESDa cidade de mercadores ao maior império do mundo

A história da Assíria dura mais de mil anos, e a Bíblia só encontra a parte final. Para não se perder, os estudiosos dividem a história assíria em três etapas. As datas abaixo são aproximadas e seguem a cronologia convencional da assiriologia, que é uma das mais firmes do Oriente Antigo, por um motivo que o item 04 explica.

Assíria Antiga (c. 2000–1400 a.C.). Assur é uma cidade-estado de mercadores. Seus comerciantes levavam estanho e tecidos até a Anatólia, onde fundaram bairros de colônia, e deixaram milhares de cartas e contratos em tabuinhas de argila, achados em Kültepe, na atual Turquia. Nada disso aparece na Bíblia.

Assíria Média (c. 1363–912 a.C.). A cidade vira reino e passa a conquistar vizinhos. É o tempo de reis como Tiglate-Pileser I (1114–1076 a.C.). Depois vêm décadas de aperto, com os povos arameus pressionando. Em Israel, é o tempo que vai dos juízes a Davi e Salomão. A Assíria quase não aparece na Bíblia nessa época, salvo numa menção rápida e debatida, nas palavras de Balaão Nm 24.22,24.

Neoassíria (911–609 a.C.). É o império. A partir de 911 a.C., uma sequência de reis fortes toma a Síria, Canaã, parte do Egito, a Babilônia e o Elam. No ponto mais alto, os assírios mandam da costa do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico e chegam até o Egito. É nesse período, e só nele, que a Bíblia encontra a Assíria: de Jeú (c. 841 a.C.) a Josias (609 a.C.).

Os reis que você vai encontrar nos próximos capítulos, com a forma que a Bíblia usa (ACF) e as datas aproximadas de reinado:

⚔️

Salmaneser III · 859–824

Luta com Acabe em Qarqar (853) e recebe o tributo de Jeú. É o rei do Obelisco Negro.

🏹

Tiglate-Pileser III · 745–727

Na Bíblia, também "Pul". Cobra de Menaém, derruba Pecá, atende o pedido de Acaz.

🏛️

Salmaneser V e Sargão II · 727–705

O primeiro sitia Samaria; o segundo reivindica a vitória. Sargão constrói Dur-Sharrukin.

🦁

Senaqueribe · 705–681

Invade Judá em 701, sitia Jerusalém e é morto pelos filhos.

📜

Esar-Hadom · 681–669

Filho e herdeiro de Senaqueribe. É no tempo dele que o rei Manassés de Judá aparece nas listas assírias.

📚

Assurbanípal · 669–631

O rei da grande biblioteca de Nínive. Depois dele, o império desaba em poucos anos.

🔎 A palavra original

Os nomes dos reis assírios chegaram ao português pelo hebraico, que os adaptou do acádio. Voltando ao acádio, cada um tinha um sentido. Šarru-kīn (Sargão) é "o rei é legítimo". Aššur-aḫa-iddina (Esar-Hadom) é "Assur deu um irmão". Sîn-aḫḫē-erība (Senaqueribe) é "Sin substituiu os irmãos", e Sin é o deus-lua. Aššur-bāni-apli (Assurbanípal) é "Assur é o criador do herdeiro". Quase todo nome assírio é uma frase curta que fala de um deus. Os assiriólogos concordam com essas traduções, mas elas são a leitura convencional, não a única possível.

04 — COMO A ASSÍRIA CONTAVA A SI MESMATabuinhas, anais e um ano com nome

Os assírios escreviam em argila fresca, com uma cunha de junco, e por isso a escrita deles se chama cuneiforme (do latim cuneus, "cunha"). O acádio, a língua de quase todos os textos, é um idioma semita, parente distante do hebraico: palavras como šalāmu e šalôm têm a mesma raiz de "paz". Com o tempo, o aramaico, escrito em letras de alfabeto sobre papiro e couro, foi ganhando terreno como língua do dia a dia, e a Bíblia registra isso numa cena famosa, em que os oficiais de Jerusalém pedem ao comandante assírio:

"Rogamos-te que fales aos teus servos em siríaco; porque bem o entendemos; e não nos fales em judaico, aos ouvidos do povo que está em cima do muro." 2 Reis 18.26

"Siríaco" é como a ACF traduz ʼarāmît, o aramaico. O texto dá a entender que os altos funcionários de Judá entendiam essa língua de diplomacia, e que o povo comum, não. Voltaremos a essa cena no Capítulo 8.

Os assírios gravavam sobretudo três tipos de documento. Os anais reais contam, ano a ano, as campanhas do rei, sempre em primeira pessoa e sempre com vitória; eram escritos em prismas e cilindros de argila, enterrados nas fundações dos palácios, e também em obeliscos e lajes de pedra, para serem vistos. As cartas e relatórios do dia a dia mostram os bastidores: espiões, governadores, astrólogos. E as listas de epônimos dão nome a cada ano do calendário, por um oficial de alto escalão, o limmu: "no ano de fulano". Os assírios usavam essa lista como nós usamos o calendário.

As listas de epônimos têm um efeito que interessa à Bíblia. Numa delas, ao lado do nome de um ano, vem anotado "eclipse do sol" no mês de Siwan. Os astrônomos identificaram esse eclipse com o de 15 de junho de 763 a.C. Com um ponto fixo no céu, é possível contar para a frente e para trás pelas listas de epônimos e fixar, ano por ano, mais de dois séculos de reinados (de c. 910 a c. 650 a.C.; as pontas variam um pouco conforme a edição). É por isso que a cronologia assíria é uma das mais firmes do mundo antigo, e é contra ela que os estudiosos ajustam as datas dos reis de Israel e de Judá.

👁️ Como era viver ali

Pouca gente vivia nos palácios. O assírio comum era camponês, artesão, soldado em tempo de campanha. Nas casas de Assur, escavadas por arqueólogos alemães no começo do século XX, os mortos eram enterrados debaixo do piso da própria casa, e os vivos seguiam morando em cima, uma prática bem documentada ali. O dia a dia assírio tinha cevada, lentilha, cebola, cerveja e azeite de gergelim, e muita burocracia: contratos de venda de terra e de escravos, com selos de argila. O pavor do povo não era só a guerra do rei. Era também o recrutamento, o imposto e a corveia, como em todo império antigo.

🏺 O que a pá encontrou

Os anais reais são a fonte principal, mas têm um limite que você precisa guardar. Eles foram escritos pelo rei, para o rei, para o deus. Contam as vitórias e calam as derrotas. Quando Senaqueribe conta a campanha de 701 a.C., você vai ver no Capítulo 8, ele diz o que lhe convinha, e a Bíblia diz outra parte da história. Ler as duas juntas, com cuidado, é o único jeito de enxergar tudo.

⚠️ Isso vale também para as imagens de terror nos relevos e nos textos assírios. Elas foram feitas para assustar, e os estudiosos debatem quanto delas descreve fatos e quanto é propaganda para intimidar. Veremos isso no Capítulo 2.

LINHA DO TEMPOA Assíria inteira, com a Bíblia marcada

Datas aproximadas, na cronologia convencional. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza com cada época.

c. 2000–1750 a.C. — Assíria Antiga
Assur é cidade-estado de mercadores, com colônias na Anatólia (cartas achadas em Kültepe).
c. 1363 a.C. — Começa a Assíria Média
Assur-uballit I e os sucessores fazem da cidade um reino territorial.
c. 879 a.C. — Calá vira capital
Assurnasirpal II refaz a cidade. 📖 Calá já é lembrada na tabela das nações (Gn 10.11).
853 a.C. — Batalha de Qarqar
Salmaneser III enfrenta uma coalizão síria, com Acabe, rei de Israel, segundo um texto assírio. A Bíblia não conta essa batalha.
c. 841 a.C. — Jeú paga tributo
📖 Jeú, rei de Israel, aparece no Obelisco Negro de Salmaneser III (2Rs 9–10).
745–727 a.C. — Tiglate-Pileser III
📖 Menaém paga tributo, Pecá é derrubado, Acaz pede socorro (2Rs 15–16; Is 7).
722–720 a.C. — Cai Samaria
📖 O reino de Israel é destruído e o povo, deportado (2Rs 17). Salmaneser V sitiou; Sargão II reivindica a vitória.
705 a.C. — Nínive vira capital
Senaqueribe sobe ao trono depois que Sargão II morre em batalha.
701 a.C. — Senaqueribe em Judá
📖 Cercos, Laquis, o Rabsaqué e Jerusalém salva (2Rs 18–19; Is 36–37).
681–669 a.C. — Esar-Hadom
📖 Senaqueribe é morto pelos filhos (2Rs 19.37). Manassés de Judá é vassal assírio.
c. 663 a.C. — Tebas cai
📖 Assurbanípal saqueia a cidade egípcia, que Naum lembra como "No-Amom" (Na 3.8).
614–609 a.C. — O império desaba
📖 Assur cai em 614, Nínive em 612 (Naum; Sofonias), Harã em 609. Em 609, Josias morre em Megido (2Rs 23.29).

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🌾

Terra de chuva, sem fronteiras

A Assíria vivia do céu, no norte do Iraque de hoje, e não tinha defesa natural. Atacar primeiro virou política de Estado.

🏙️

Quatro cidades

Assur (o deus e o lar), Calá, Dur-Sharrukin (dois anos de capital) e Nínive, a última.

⏳

A Bíblia só pega o fim

De mais de mil anos de história, ela encontra a Assíria entre Jeú (c. 841 a.C.) e Josias (609 a.C.).

📅

Um eclipse que guarda as datas

O eclipse de 763 a.C. fixa a lista de epônimos e dá à cronologia assíria uma firmeza rara.

Próximo capítulo: no que os assírios acreditavam, quem era o deus Assur, o que a Ishtar de Nínive tinha a ver com o rei, e como funcionava o terror que levou tantos povos a se render.

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