Os três oficiais assírios param ao pé do aqueduto da piscina superior, no caminho do campo do lavandeiro 2Rs 18.17. É o mesmo lugar onde, anos antes, Isaías tinha ido ao encontro de Acaz. Em cima do muro, sentados, há gente de Jerusalém olhando. O maior dos três ergue a voz, e não fala na língua dos diplomatas. Fala em "judaico".
É a cena mais famosa do cerco de 701 a.C. Este capítulo ouve o discurso do Rabsaqué, acompanha Ezequias até o templo, conta a noite em que o exército assírio deixou de ser uma ameaça e confronta, ao final, o que a Bíblia, o rei Senaqueribe, o historiador Heródoto e a arqueologia dizem do mesmo fim.
27 — O RABSAQUÉO discurso mais famoso da diplomacia assíria
Senaqueribe estava em Laquis, e de lá mandou a Jerusalém "a Tartã, e a Rabe-Saris, e a Rabsaqué", com um grande exército 2Rs 18.17. Do lado de Judá, saíram três altos funcionários do rei: Eliaquim, o mordomo, Sebna, o escrivão, e Joá, o cronista 2Rs 18.18. E o Rabsaqué começa o discurso com a fórmula que conhecemos do Capítulo 2:
A fala é uma obra de retórica, e os estudiosos a leem como uma pequena aula de guerra psicológica. Cada argumento corta uma esperança de Jerusalém, uma por uma:
Primeiro, o Egito. "Eis que agora tu confias naquele bordão de cana quebrada, no Egito, no qual, se alguém se encostar, entrar-lhe-á pela mão e a furará" 2Rs 18.21. A imagem é a de uma cana do Nilo, que parece firme e se parte sob o peso, ferindo a mão. É o aliado de que o Capítulo 6 já falou.
Depois, o Senhor. O oficial assírio faz um ataque ao ponto mais sensível: "porventura não é esse aquele cujos altos e cujos altares Ezequias tirou?" 2Rs 18.22. Para um estrangeiro, quem tira os altares de um deus o ofende, e o Rabsaqué usa a reforma de Ezequias (Capítulo 7) como argumento contra ele. Depois faz uma provocação: dá dois mil cavalos, "se tu puderes dar cavaleiros para eles" 2Rs 18.23. E então a frase mais ousada: "O Senhor me disse: Sobe contra esta terra, e destrói-a" 2Rs 18.25. O texto não diz se o oficial inventou isso ou se conhecia as palavras de Isaías sobre a Assíria como vara de Deus (Is 10.5). Seja como for, é retórica: ele fala do Senhor como quem o usa.
Aí os três de Jerusalém tentam mudar de assunto. Pedem que ele fale "em siríaco" (aramaico), língua de diplomacia, e não em "judaico", que o povo do muro entende 2Rs 18.26. A resposta é a jogada principal: ele não veio só falar com o rei, veio falar com o povo, "para que juntamente convosco comam o seu excremento e bebam a sua urina" 2Rs 18.27. A ameaça é de sítio e de fome. E então ele fala mais alto, e a mensagem é para todos:
É a política de deportação do Capítulo 2 vendida como uma oferta: renda-se, e será levado, mas para uma terra boa. E o argumento final é o dos deuses: "Que é feito dos deuses de Hamate e de Arpade? [...] Porventura livraram a Samaria da minha mão?" 2Rs 18.34. Eram cidades que os assírios tinham mesmo tomado: Arpade e Hamate, no norte da Síria, e Samaria, que Judá conhecia de perto. Nenhum dos deuses delas, diz o Rabsaqué, as livrou. Por que o do povo de Ezequias livraria?
A reação é de uma sobriedade que impressiona: "Porém calou-se o povo, e não lhe respondeu uma só palavra; porque mandado do rei havia, dizendo: Não lhe respondereis" 2Rs 18.36. Os três enviados voltam a Ezequias "com as vestes rasgadas" 2Rs 18.37.
Os três nomes de oficiais, que a ACF mantém como estão, são títulos assírios, e não nomes de gente. Tartān vem do acádio turtānu, o comandante-em-chefe do exército. Rab-sārîs é rab ša rēši, um alto oficial da corte (a tradução "chefe dos eunucos" é discutida). E Rab-šāqēh (רַב־שָׁקֵה) é rab šāqê, literalmente "chefe dos copeiros". Era uma posição que começou na cozinha do palácio e acabou numa das mais altas do reino, com autoridade em territórios. Quem Senaqueribe mandou a Jerusalém foi a cúpula da administração dele.
A língua é outro detalhe. Em 2 Reis 18.26 e 28, a palavra para "judaico" é yᵉhûdît (יְהוּדִית), a língua de Judá, ou seja, o hebraico falado em Jerusalém. E "siríaco" é ʼărāmît (אֲרָמִית), o aramaico. O Rabsaqué falava hebraico. Isso sugere que a Assíria tinha, na sua administração, gente que fazia propaganda na língua do inimigo.
Pense em estar sentado nesse muro. Você ouve a voz de um estrangeiro, em hebraico, dizendo que o seu rei está enganando vocês, que o seu Deus não pode nada e que, se vocês se renderem, comerão vinha e figueira em paz. Muitos ali devem ter perdido parentes nas cidades de Judá que já tinham sido tomadas 2Rs 18.13. A ordem de silêncio do rei, "Não lhe respondereis", não deu nenhuma palavra que o oficial pudesse virar contra eles.
28 — A CARTA E A NOITEEzequias no templo e o anjo do Senhor
Ezequias faz o que o Rabsaqué diz que seria inútil. "Rasgou as suas vestes, e se cobriu de saco, e entrou na casa do Senhor" 2Rs 19.1. Manda recado ao profeta Isaías, com uma frase que é uma das mais dramáticas do livro: "os filhos chegaram ao parto, e não há força para dá-los à luz" 2Rs 19.3. A resposta de Isaías é curta: "Não temas as palavras que ouviste" 2Rs 19.6. O rei da Assíria ouvirá um rumor, voltará e cairá à espada na própria terra.
O Rabsaqué volta e encontra Senaqueribe já em Libna, porque o rei saíra de Laquis 2Rs 19.8. Aí chega uma notícia: "Tiraca, rei da Etiópia" (isto é, de Cuxe, a Núbia) saiu para lhe fazer guerra 2Rs 19.9. O rei assírio manda uma segunda mensagem, desta vez por carta. E Ezequias faz um gesto simples e inesquecível:
Ele leva a carta ao templo e a abre diante de Deus. Na oração, reconhece o que é verdade: os reis da Assíria "assolaram as nações" e queimaram os deuses delas 2Rs 19.17-18. E pede: "livra-nos da sua mão; e assim saberão todos os reinos da terra que só tu és o Senhor Deus" 2Rs 19.19. O pedido não é só de sobrevivência. É que o nome de Deus fique à vista.
A resposta de Isaías chega em verso, com um poema contra o rei da Assíria. Começa assim: "A virgem, a filha de Sião, te despreza, de ti zomba" 2Rs 19.21. Cita a fanfarronice do assírio "Com a multidão de meus carros subi ao alto dos montes" 2Rs 19.23, e termina com uma imagem forte:
E o veredicto sobre a cidade: "Não entrará nesta cidade, nem lançará nela flecha alguma; tampouco virá perante ela com escudo, nem levantará contra ela trincheira alguma" 2Rs 19.32. O que acontece em seguida o texto conta em duas frases:
E, anos depois, como Isaías tinha dito, o fim do rei: "estando ele prostrado na casa de Nisroque, seu deus, Adrameleque e Sarezer, seus filhos, o feriram à espada" 2Rs 19.37. Crônicas conta o mesmo episódio em termos próximos e acrescenta que, depois disso, Ezequias "foi exaltado perante os olhos de todas as nações" 2Cr 32.21-23.
Senaqueribe deixou o próprio relato em prismas de argila, de seis faces, o mais conhecido o Prisma de Taylor (Museu Britânico, c. 691 a.C.), achado em Nínive em 1830. Existem outros dois, quase idênticos: o do Instituto Oriental de Chicago (c. 689 a.C.) e o do Museu de Israel. Em resumo, o texto diz: "Quanto a Ezequias, o judeu, que não se submeteu ao meu jugo, cerquei 46 de suas cidades fortificadas e tomei-as. [...] A ele mesmo fechei em Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro na gaiola." (Resumo e tradução minhas.) Mais adiante, diz que o medo do esplendor do seu domínio venceu Ezequias, que lhe enviou a Nínive trinta talentos de ouro, oitocentos de prata, pedras preciosas, móveis de marfim, as próprias filhas e músicos.
Repare no que o texto assírio não diz. Ele não diz que tomou Jerusalém, nem que matou ou prendeu Ezequias, que continuou rei. Também não menciona nenhuma perda do exército.
⚠️ Os dois relatos concordam em muita coisa: a invasão de Judá, o tributo pago por Ezequias (a Bíblia o conta em 2Rs 18.14-16), o bloqueio de Jerusalém e a retirada de Senaqueribe sem tomar a cidade. O que cada um cala é o que o desfavorece: o assírio não conta a retirada sem vitória, e Reis conta tanto a humilhação de Ezequias quanto o desastre assírio. Um rei não escreve o que o humilha, e é por isso que a história exige as duas fontes.
Imagine quem se levantou cedo, em Jerusalém, e olhou para fora do muro: o texto diz que "eis que todos eram cadáveres". A Bíblia não descreve a reação de ninguém, só o fato. Mas guardou a imagem que vinha antes: uma cidade sentada no muro, ouvindo calada, e um rei no templo com uma carta aberta.
29 — O QUE OS OUTROS TEXTOS DIZEMHeródoto, a peste e uma ou duas campanhas
A queda do exército assírio ficou na memória fora de Israel também. O historiador grego Heródoto (c. 450 a.C.), nas Histórias II, 141, conta, a partir do que lhe diziam os sacerdotes egípcios, que Senaqueribe, "rei dos árabes e dos assírios", marchou contra o Egito. Uma noite, ratos do campo roeram as aljavas, os arcos e as correias dos escudos, e na manhã seguinte o exército fugiu sem armas, e muitos caíram. (Resumo e tradução minhas.) O historiador judeu Josefo (séc. I d.C.), em Antiguidades Judaicas X, 1.4-5, cita Heródoto e também o historiador babilônio Beroso, e, segundo Josefo, Beroso falava de uma peste no exército assírio.
Daí nasceu uma hipótese: uma epidemia, talvez de peste. Ela tem defensores e é bem conhecida, mas continua sendo hipótese. Heródoto escreve mais de dois séculos depois e fala do Egito, não de Jerusalém. A Bíblia fala de um anjo do Senhor, e o texto não explica o meio. Quem lê com a fé do texto vê aí um ato de Deus, e quem lê só como história vê um desastre militar de causa desconhecida. Os dois concordam com o essencial: algo deteve o exército assírio.
Outro debate é o de quantas campanhas houve. O texto de 2 Reis 19.9 cita "Tiraca, rei da Etiópia". Só que Tiraca (Taharqa) se tornou faraó por volta de 690 a.C., onze anos depois de 701. Isso levou alguns estudiosos, como John Bright, a propor duas campanhas: a de 701 (o tributo) e uma segunda, c. 688–686, em que Senaqueribe teria sofrido o desastre. Nenhum texto assírio registra uma segunda campanha. Outros pensam em uma só, na qual o texto bíblico chama Tiraca de "rei" por antecipação, porque ele já era príncipe e comandante em 701, e é essa a posição da maioria dos especialistas hoje, embora se discuta a idade e o papel de Taharqa em 701. Há também quem junte Heródoto e Reis num segundo episódio ligado ao Egito.
O que nenhum desses debates apaga é o desfecho: Judá foi devastada, Jerusalém ficou de pé, e não há notícia de que Senaqueribe tenha voltado a atacá-la.
O fim de Senaqueribe também deixou rastro. A Crônica Babilônica registra que no dia 20 do mês de Tebete (inverno de 681 a.C.) o rei foi morto por um filho, numa revolta. A Bíblia fala em dois filhos, Adrameleque e Sarezer. O estudioso Simo Parpola propôs, em 1980, que o assassino foi o filho mais velho, Arda-Mullissi, nome que lembra o "Adrameleque" bíblico; é uma identificação plausível, mas não certa. E o sucessor foi mesmo Esar-Hadom, como a Bíblia diz 2Rs 19.37.
Outra peça de arte assíria ajuda a ler a imagem do "anzol no nariz". Em Zincirli, na atual Turquia, foi achada uma estela de Esar-Hadom (c. 671 a.C., hoje em Berlim) que mostra o rei de pé, segurando cordas presas a argolas nos lábios de cativos ajoelhados (segundo as descrições mais comuns). É uma imagem de poder bem conhecida na arte assíria, e vem à mente com 2 Reis 19.28. A ligação é uma sugestão de leitura, e não prova de que o profeta pensasse nessa cena.
No poema de Isaías, a "virgem, a filha de Sião" (2Rs 19.21) não é a palavra de Isaías 7.14. Aqui é bᵉṯûlat bat-ṣiyyôn (בְּתוּלַת בַּת־צִיּוֹן), uma expressão poética para a própria cidade de Jerusalém, personificada como uma jovem intacta e orgulhosa que não se rende. Em hebraico, uma cidade é feminina, e esta é uma moça de cabeça erguida zombando do conquistador. Já o anzol é ḥāḥ (חַח) e o freio, meteg (מֶתֶג): são as peças com que se conduz um animal, de modo que a imagem do poema é a de uma fera conduzida de volta pelo caminho por onde veio.
Ezequias recebeu uma carta de ameaça e não respondeu a ela. Levou-a ao templo e a estendeu diante do Senhor. Todo mundo tem cartas assim: um laudo, uma notificação, uma notícia que não cabe no peito. A diferença está em para onde você a leva. A carta que você não consegue responder cabe diante de Deus.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Um discurso em hebraico
O Rabsaqué cortou, um a um, o Egito, o Senhor e a esperança do povo 2Rs 18.19-35.
A carta aberta
Ezequias a estendeu no templo e pediu que o nome de Deus ficasse à vista 2Rs 19.14-19.
Uma noite
"Naquela mesma noite" o exército deixou de ser ameaça 2Rs 19.35. A causa, a Bíblia chama de anjo; Heródoto, de ratos.
O que o prisma cala
Senaqueribe diz ter fechado Ezequias "como um pássaro na gaiola", mas não diz que tomou Jerusalém.
Uma ou duas campanhas
A maioria hoje vê uma só, em 701; Bright via duas. O desfecho é o mesmo: Jerusalém ficou de pé.
Próximo capítulo: depois de Ezequias, o filho dele, Manassés, reina 55 anos como vassalo da Assíria. Nínive vive o seu auge com Esar-Hadom e Assurbanípal, e a Bíblia e as tabuinhas citam os mesmos nomes.
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