Os AssíriosCapítulo 7 de 11 ⤓ PDF
Litografia colorida de David Roberts da fonte de Siloé, com uma entrada em arco de pedra e um homem de pé diante dela
CAPÍTULO 7 DE 11

Ezequias e a invasão de 701

O túnel de Siloé, as jarras do rei e a queda de Laquis

Judá chega a 701 a.C. preparado, com muros, armas e um túnel debaixo de Jerusalém. A invasão de Senaqueribe mostra o que isso valeu, cidade por cidade.

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Muita gente, muita pedra, muita água. Em volta de Jerusalém, o povo se junta para tapar as fontes e o ribeiro que atravessa a terra, e a razão que dão é de uma lógica seca: "Por que viriam os reis da Assíria, e achariam tantas águas?" 2Cr 32.4. O inimigo está a caminho, e a cidade começa a se esconder da sede dele.

Este capítulo conta como o reino de Judá chega a 701 a.C. Mostra o rei Ezequias, a reforma e a rebelião, e as obras de engenharia que ainda se podem pisar: o túnel de Siloé, o muro largo, as jarras do rei. No fim, a invasão de Senaqueribe e a queda de Laquis, a cidade que a Bíblia, os profetas e os relevos assírios lembram juntos.

24 — O REI QUE SE REBELOUEzequias, a reforma e a conta dos anos

Ezequias, filho de Acaz, tinha vinte e cinco anos quando começou a reinar e reinou vinte e nove 2Rs 18.2. O livro de Reis o elogia como a pouquíssimos reis de Judá: "No Senhor Deus de Israel confiou, de maneira que depois dele não houve quem lhe fosse semelhante entre todos os reis de Judá" 2Rs 18.5. O primeiro ato foi abrir e reparar as portas do templo, que o pai tinha fechado 2Cr 29.3; 28.24. Depois, uma limpeza religiosa:

"Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã." 2 Reis 18.4

Crônicas acrescenta uma Páscoa que Ezequias convidou todo o Israel a celebrar em Jerusalém, inclusive o povo do norte que ficara depois de Samaria 2Cr 30.1. E a política exterior vinha junto: "se rebelou contra o rei da Assíria, e não o serviu" 2Rs 18.7, e "feriu os filisteus até Gaza" 2Rs 18.8. É o gesto que Oséias tinha tentado e que acabou mal. A Bíblia lembra um episódio que mostra o jogo: o rei da Babilônia, Merodaque-Baladã, mandou cartas e um presente a Ezequias, que, diz o texto, lhe "mostrou toda a casa de seu tesouro" 2Rs 20.12-13. A Babilônia, na época, também tentava se livrar do domínio assírio.

🔎 A palavra original

A "serpente de metal" que Moisés fez Nm 21.8-9 se chama, em hebraico, nᵉḥuštān (נְחֻשְׁתָּן), "Neustã" na ACF. A palavra soa como a combinação de nāḥāš, "serpente", e nᵉḥōšet, "bronze". A ACF traduz "lhe chamaram Neustã"; o hebraico permite também ler "ele lhe chamou", e então seria Ezequias, com desprezo, chamando o objeto de "um pedaço de bronze". Em qualquer das leituras, o ponto é o mesmo: quem queimava incenso diante dele tinha transformado um sinal de livramento em ídolo. Até um objeto nascido de uma ordem de Deus deixa de ser sagrado quando passa a ser adorado.

🏺 O que a pá encontrou

Em 2015, a arqueóloga Eilat Mazar publicou uma impressão de selo em argila, uma bula, achada na escavação do Ofel, ao sul do Monte do Templo, em Jerusalém, com o texto "Pertencente a Ezequias, [filho de] Acaz, rei de Judá". Segundo a equipe de Mazar, foi a primeira impressão de selo de um rei de Israel ou de Judá achada in situ numa escavação científica (outras, de procedência incerta, já circulavam no mercado de antiguidades). Em Arad e em Berseba, no sul de Judá, santuários e altares foram desativados no fim do século VIII a.C., e muitos estudiosos ligam isso à reforma de 2 Reis 18.4. Há quem date o fim dos santuários um pouco mais tarde, no tempo de Josias.

⚠️ Nenhuma dessas descobertas "prova" a reforma, mas todas combinam com a imagem que a Bíblia dá de um rei que mexeu no culto e preparou o reino para uma crise.

Uma advertência a quem confere as datas. Reis diz que Ezequias começou a reinar "no terceiro ano de Oséias" 2Rs 18.1, ou seja, por volta de 729–727 a.C. E diz que Senaqueribe invadiu Judá "no ano décimo quarto do rei Ezequias" 2Rs 18.13, que as fontes assírias fixam em 701 a.C., o que leva o começo do reinado a c. 715 a.C. As duas contas não fecham. Há três saídas comuns: Ezequias teria sido co-regente com Acaz a partir de c. 729 (proposta de E. R. Thiele); ou o texto sofreu uma alteração na transmissão; ou há uma contagem de anos diferente. Um detalhe ajuda a quem prefere 715: Deus promete a Ezequias, doente, "quinze anos" a mais de vida 2Rs 20.6, e quinze anos depois de 701 dá c. 686, que bate com o fim de um reinado de vinte e nove anos iniciado em c. 715.

25 — A ÁGUA E O MUROO túnel, a inscrição e as jarras do rei

Ezequias sabia o que vinha. Crônicas descreve os preparativos como uma lista de tarefas de engenheiro:

"E ele se animou, e edificou todo o muro quebrado até às torres, e levantou o outro muro por fora; e fortificou a Milo na cidade de Davi, e fez armas e escudos em abundância." 2 Crônicas 32.5

E a obra mais famosa:

"Também o mesmo Ezequias tapou o manancial superior das águas de Giom, e as fez correr por baixo para o ocidente da cidade de Davi; porque Ezequias prosperou em todas as suas obras." 2 Crônicas 32.30

O problema de Jerusalém era a água. A nascente, o Giom, ficava fora dos muros, no vale do Cedrom, e um invasor podia cortá-la. A solução foi esconder a nascente por dentro da montanha: um túnel cavado na rocha, de uns 533 metros, que leva a água do Giom a um reservatório dentro da cidade, o tanque de Siloé. Ele serpenteia pela rocha com uma inclinação mínima, de cerca de 30 centímetros em mais de 500 metros. É isso que Reis resume numa frase: "como fez a piscina e o aqueduto, e como fez vir a água à cidade" 2Rs 20.20.

Muitos comentaristas ligam a essa preparação um texto de Isaías, que descreve do lado de dentro como a cidade se movimentou: ela contou as casas e derrubou algumas para reforçar o muro, fez um reservatório entre os dois muros, olhou as armas da casa do bosque, "porém não olhastes acima, para aquele que isto tinha feito" Is 22.8-11. A crítica do profeta não é contra o túnel. É contra uma cidade que se prepara com mil cuidados e esquece de olhar para cima.

Litografia colorida de David Roberts do tanque inferior de Siloé, no vale de Josafá, com muros antigos e figuras de camponeses
Tanque inferior de Siloé, no vale de Josafá — David Roberts (desenho de 1839), litografia colorida, Cleveland Museum of Art (1927.100). A água do túnel de Ezequias vai dar na região dos tanques de Siloé, ao sul de Jerusalém. CC0.
🏺 O que a pá encontrou

Em 1880, um menino que explorava o túnel, aluno de um missionário alemão em Jerusalém, notou uma inscrição na parede, a uns seis metros da saída. A Inscrição de Siloé, em hebraico antigo, tem seis linhas e conta como o túnel foi aberto: dois grupos de cavadores, um de cada ponta, caminharam um ao encontro do outro. Quando faltavam poucos côvados, ouviu-se a voz de um homem chamando o outro, e eles golpearam a rocha ao encontro um do outro, até se encontrarem, e a água correu da nascente ao tanque, por 1.200 côvados. (Resumo e tradução minhas.) A inscrição foi arrancada da parede e está no Museu de Arqueologia de Istambul, com uma réplica em Jerusalém.

Dois detalhes ajudam. Os 1.200 côvados (uns 530 m) batem com a medição moderna do túnel. E o próprio texto não nomeia o rei nem o tempo. A ligação com Ezequias vem de 2 Crônicas 32.30 e 2 Reis 20.20, e da escrita: pelo estilo das letras, a inscrição é do fim do século VIII a.C. Há quem tenha defendido datas muito posteriores, mas as datações físicas (carbono 14 e urânio-tório) publicadas a partir de 2003 apontam para o fim do século VIII.

⚠️ Falta um carimbo: nenhum texto do túnel diz "Ezequias". O que sustenta a atribuição é a coincidência entre a data da escrita, a data das medições e o relato de Crônicas, e quase todos os estudiosos a aceitam.

🏺 O que a pá encontrou

Outros vestígios ligados à preparação de Judá. O Muro Largo, de uns 7 metros de espessura, foi achado por Nahman Avigad no Bairro Judeu de Jerusalém, nos anos 1970, com casas demolidas sob ele, o que lembra Isaías 22.10 ("derrubastes as casas, para fortalecer os muros"). Há quem o date de antes de Ezequias, mas muitos o associam à preparação para 701. E há as jarras com o selo "lmlk" ("pertencente ao rei"), alças de jarro de armazenamento carimbadas, com uma figura (um escaravelho alado ou um disco solar) e o nome de uma cidade, às centenas em sítios de Judá. Em Laquis, a camada destruída em 701 tem muitas delas. Os estudiosos discutem se eram para impostos ou para provisões militares; todos concordam que são da época.

👁️ Como era viver ali

Imagine a obra do túnel: rocha dura, dois grupos que avançam um em direção ao outro sem se ver (o traçado serpenteia, e os estudiosos explicam as curvas de vários modos). Enquanto isso, a cidade se preparava com o que tinha, e segundo Isaías até derrubando casas. A inscrição guarda um traço humano que as crônicas dos reis não guardam: a emoção de ouvir uma voz do outro lado.

26 — A INVASÃO E LAQUISQuarenta e seis cidades

Em 701 a.C., Senaqueribe, que subira ao trono em 705, saiu para o oeste. Segundo o texto assírio, limpou primeiro o litoral fenício e filisteu. Em Ecrom, os líderes tinham se rebelado e entregado a Ezequias o próprio rei, Padi, que era fiel à Assíria. Ezequias o manteve preso em Jerusalém. Um exército do Egito e da Núbia veio em socorro e, diz ele, foi derrotado em Elteque. A Bíblia resume de um modo só:

"Porém no ano décimo quarto do rei Ezequias subiu Senaqueribe, rei da Assíria, contra todas as cidades fortificadas de Judá, e as tomou." 2 Reis 18.13

O texto de Senaqueribe, que veremos no Capítulo 8, diz 46 cidades fortificadas e mais de 200 mil pessoas levadas. A Bíblia não dá números, mas os profetas descrevem o resultado. Isaías: "A vossa terra está assolada, as vossas cidades estão abrasadas pelo fogo", e Jerusalém ficou "como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como uma cidade sitiada" Is 1.7-8. E Miqueias, que era de uma das cidades do sopé, a Sefelá, chora o caminho do invasor, cidade por cidade: "Ata os animais ligeiros ao carro, ó moradora de Laquis" Mq 1.13. A "chaga", diz ele, "estendeu-se até à porta do meu povo, até Jerusalém" Mq 1.9.

Muitos comentaristas ligam esses textos a 701 a.C. Há quem pense em outra invasão, ou numa situação mais geral. O que o relato de Reis conta, em seguida, é uma cena de humilhação:

"Então Ezequias, rei de Judá, enviou ao rei da Assíria, a Laquis, dizendo: Pequei; retira-te de mim; tudo o que me impuseres suportarei. Então o rei da Assíria impôs a Ezequias, rei de Judá, trezentos talentos de prata e trinta talentos de ouro." 2 Reis 18.14

Ezequias esvaziou o tesouro do templo e arrancou o ouro das portas e das ombreiras que ele mesmo tinha mandado cobrir 2Rs 18.15-16. O rei que reformou o templo o despojou, para comprar tempo. (Mais adiante, o texto de Senaqueribe fala em 800 talentos de prata, e não em 300. Os estudiosos propõem padrões de peso diferentes, pagamentos diferentes ou exagero do rei assírio; ninguém tem certeza.) Mesmo assim, a trégua não veio: o exército seguiu. É a história do próximo capítulo.

O rei assírio estava em Laquis, a uns 40 quilômetros a sudoeste de Jerusalém, uma das cidades mais importantes de Judá. Nesta história a Bíblia só a menciona de passagem, para dizer que Senaqueribe estava ali, e de Laquis saiu a embaixada que chegou a Jerusalém 2Rs 18.17. Mas o rei assírio achou a cidade tão importante que mandou esculpir o cerco inteiro numa sala do palácio, em Nínive.

Gravura de relevo assírio do cerco de Laquis, com arqueiros subindo rampas e defensores nas torres
O cerco da cidade de Laquis, por Senaqueribe — gravura de Austen Henry Layard, A Second Series of the Monuments of Nineveh (1853), prancha 21, a partir do relevo do Palácio do Sudoeste de Nínive, hoje no Museu Britânico. Os arqueiros assírios sobem as rampas, e os defensores respondem das torres, com tochas e pedras. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

Os relevos de Laquis têm uns 18 metros de comprimento e 2,5 de altura. A legenda de um dos painéis diz, em cuneiforme, que Senaqueribe, rei do mundo, rei da Assíria, sentou-se num trono, e o despojo de Laquis passou diante dele (resumo meu). Eles mostram a muralha, os aríetes, as rampas, os arqueiros, os defensores nas torres, as famílias saindo com carros de boi e os prisioneiros empalados.

E a pá confirma muito do que o artista esculpiu. Escavações dirigidas por David Ussishkin, da Universidade de Tel Aviv (1973–1994), acharam em Laquis a rampa de cerco assíria, de pedra e terra, subindo até a muralha, e uma contra-rampa judaíta, atrás da muralha, que os defensores construíram; centenas de pontas de flecha e pedras de funda; e uma camada de destruição, o Nível III, que os arqueólogos ligam a 701 a.C. Numa caverna perto da cidade havia uma sepultura coletiva com os restos de uns 1.500 indivíduos, mas a data desse sepultamento é discutida.

⚠️ Laquis é um raro caso em que as três fontes (Bíblia, texto assírio e escavação) se encontram numa mesma cidade. Mas o relevo é propaganda assíria, e os estudiosos veem nele também uma compensação: Senaqueribe mostrou a vitória que teve em Laquis porque não tomou Jerusalém.

🌱 Semente de sermão

Ezequias fez tudo o que um rei podia fazer: limpou o culto, cobriu o muro, escondeu a água, juntou armas. E ainda assim, a primeira palavra dele ao rei assírio foi "Pequei" 2Rs 18.14. A preparação é um dever, mas não é uma garantia. Quem planejou tudo sabe, mais do que ninguém, que a última palavra não está nas mãos dele. E é exatamente aí, no momento em que o plano acabou, que começa o Capítulo 8.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🐍

Um reformador

Ezequias quebrou até a serpente de Moisés 2Rs 18.4. Uma bula com o nome dele foi publicada em 2015.

💧

O túnel de Siloé

Uns 533 m na rocha, do Giom ao tanque. A inscrição conta o encontro dos dois grupos de cavadores.

🧮

Datas que não fecham

"Terceiro ano de Oséias" e "ano décimo quarto" levam a datas diferentes; a saída mais comum é uma co-regência com Acaz.

🏹

Laquis, três vezes

Na Bíblia, nos relevos de Nínive e no chão: a rampa de cerco, a contra-rampa e as flechas.

Próximo capítulo: o rei assírio está em Laquis e manda a Jerusalém seus três maiores oficiais. Um deles fala na língua do povo, do alto da rua, e o que ele diz é a mais famosa oferta de rendição da Bíblia.

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