Os AssíriosCapítulo 3 de 11 ⤓ PDF
Gravura de Gustave Doré: Jezabel lançada de uma janela diante do carro de Jeú
CAPÍTULO 3 DE 11

Jeú no Obelisco Negro

Salmaneser III, Qarqar e o rei de Israel que se curvou

O que a Bíblia conta do golpe de Jeú e o que um texto assírio conta do mesmo rei: duas histórias sobre o mesmo homem, que só se encontram numa pedra negra.

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Um frasco de azeite, uma sala nos fundos e uma ordem curta: "Então abre a porta, foge, e não te detenhas" 2Rs 9.3. Em Ramote de Gileade, um jovem profeta acaba de derramar o óleo na cabeça de um oficial do exército de Israel e de chamá-lo rei. Ele sai correndo. O oficial se chama Jeú.

É o que a Bíblia conta do começo da história de Jeú. O que ela não conta é que, pouco depois, esse mesmo homem aparece esculpido numa pedra negra, em Calá, curvado diante do rei da Assíria. Este capítulo junta as duas pontas: o golpe de Jeú, o que um texto assírio diz do mesmo rei e a pedra que guardou a cena.

10 — O CARRO FURIOSOO golpe de Jeú

Para entender Jeú é preciso lembrar da casa que ele derrubou. Acabe, filho de Onri (Omri), tinha reinado sobre Israel de Samaria, casado com a fenícia Jezabel e levado o culto de Baal para dentro do reino. Numa guerra contra a Síria (Aram), o filho de Acabe, Jorão, foi ferido e se recolheu a Jizreel para se tratar. Foi então que Eliseu mandou um dos "filhos dos profetas" ungir Jeú, e a ordem era de acabar com toda a casa de Acabe 2Rs 9.6-10.

Jeú fez tudo muito depressa. O atalaia de Jizreel viu a poeira de um carro e reconheceu o jeito de guiar: "o andar parece como o andar de Jeú, filho de Ninsi, porque anda furiosamente" 2Rs 9.20. Jorão saiu ao encontro e morreu com uma flecha entre os braços:

"Mas Jeú entesou o seu arco com toda a força, e feriu a Jorão entre os braços, e a flecha lhe saiu pelo coração; e ele caiu no seu carro." 2 Reis 9.24

Com ele morreu Acazias, rei de Judá, que estava de visita. Depois veio Jezabel, que se pintou e foi para a janela 2Rs 9.30-33. Depois, os setenta filhos de Acabe em Samaria 2Rs 10.5-7. E por fim, os sacerdotes de Baal, reunidos num templo sob o pretexto de um grande sacrifício 2Rs 10.18-19. A conclusão do texto é seca:

"E assim Jeú destruiu a Baal de Israel. Porém não se apartou Jeú de seguir os pecados de Jeroboão, filho de Nebate, com que fez pecar a Israel, a saber: dos bezerros de ouro, que estavam em Betel e em Dã." 2 Reis 10.28-29

A Bíblia faz questão de dar as duas notas: Jeú cumpriu o que o Senhor mandou contra a casa de Acabe e foi elogiado por isso 2Rs 10.30, mas "não teve cuidado de andar com todo o seu coração na lei do Senhor" 2Rs 10.31. O profeta Oseias, cerca de um século depois, ainda lembrará do "sangue de Jizreel" sobre a casa de Jeú Os 1.4. O texto não apresenta Jeú como um homem simples de julgar.

Sobre o assunto que interessa a este livro, a Assíria, a Bíblia não diz uma palavra nessa história toda.

🔎 A palavra original

O nome Yēhûʼ (יֵהוּא), Jeú, é um nome de fé: carrega o início do nome de Deus, Yah, e costuma ser entendido como "Yah é ele". Na escrita cuneiforme assíria, o escriba o grafou Ia-ú-a. E o rei de Israel é chamado de mār Ḫumrî, literalmente "filho de Omri" (em hebraico, ʻOmrî, Onri na ACF). Os assírios chamavam o reino do norte de Bīt Ḫumrî, "casa de Omri", e continuaram chamando por mais de um século, mesmo depois que Jeú exterminou a família de Onri. O nome daquele rei ficou gravado no endereço do reino. A Bíblia guardou o eco, quando Miqueias fala dos "estatutos de Onri" Mq 6.16.

11 — O QUE UM TEXTO ASSÍRIO CONTASalmaneser III, Qarqar e o tributo

No século IX a.C., o rei da Assíria era Salmaneser III (859–824 a.C.). Ele passou a vida inteira em campanha, e quase todo ano levava o exército para oeste, em direção à Síria e ao Mediterrâneo. Os reinos da região, que viviam brigando, tiveram de se juntar. Em 853 a.C., uma coalizão de doze reis enfrentou o assírio em Qarqar, junto ao rio Orontes. Um texto de Salmaneser, a chamada estela de Kurkh, lista os principais: o rei de Hamate, o rei de Damasco, e "Acabe, o israelita", com 2.000 carros e 10.000 soldados.

É o texto mais antigo que se conhece que cita um rei de Israel pelo nome. O livro de Reis, por sua vez, nunca fala de Qarqar. Alguns estudiosos ligam esse silêncio ao único comentário do texto bíblico sobre aqueles anos: "E estiveram quietos três anos, não havendo guerra entre a Síria e Israel" 1Rs 22.1. Se Israel e Damasco combateram juntos contra a Assíria, essa paz fica compreensível. É uma hipótese, não um dado.

Muitos estudiosos desconfiam da cifra de 2.000 carros, que parece alta demais para o pequeno reino de Israel. Vale lembrar que o texto é de propaganda: um rei assírio tinha interesse em dizer que venceu um inimigo grande.

Alguns anos depois, as coisas mudaram em Damasco. Na Bíblia, o profeta Eliseu tinha dito a um oficial chamado Hazael que ele seria rei da Síria 2Rs 8.12-13, e foi. Um texto de Salmaneser diz que o rei de Damasco "desapareceu" e que Hazael, "filho de ninguém" (expressão que os assírios usavam para o usurpador sem sangue real), tomou o trono. Em 841 a.C., o 18º ano de Salmaneser, o assírio foi contra ele. Hazael se entrincheirou no monte Senir (o Hermom) e, depois, em Damasco. Salmaneser derrotou o exército, cortou os jardins fora da cidade e foi embora, sem tomar Damasco.

É nessa mesma campanha, segundo uma inscrição achada em Calá, que o rei assírio recebe o tributo de Tiro, de Sídon e de "Jeú, filho de Omri".

Desenho das quatro faces do Obelisco Negro de Salmaneser III com as cenas de tributo
O Obelisco Negro de Salmaneser III, as quatro faces — desenho publicado por Friedrich Delitzsch em Babel and Bible (tradução inglesa de Joseph McCormack, 1906), a partir do original de Nimrud, hoje no Museu Britânico. Cada face tem cinco faixas com delegações que trazem tributo. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

O Obelisco Negro é uma coluna de calcário negro, com pouco menos de 2 metros de altura, achada em 1846 por Austen Henry Layard em Nimrud (a antiga Calá). Hoje está no Museu Britânico (ME 118885). Foi erguido por volta de 827–825 a.C. e tem vinte painéis esculpidos, cinco em cada face, com delegações de cinco povos que trazem tributo ao rei. Na segunda faixa de cima, um homem se prostra diante de Salmaneser, e a legenda diz, em cuneiforme: "Tributo de Jeú, filho de Omri". A lista que segue traz prata, ouro, taças e vasos de ouro, estanho, um cetro para o rei e um item chamado puruhtu, que as traduções vertem de modos diferentes (objeto de madeira, frutos, lanças) e que ninguém sabe traduzir com certeza. (Tradução e resumo meus.)

O assunto parece simples, mas houve discussão. O texto foi lido primeiro por Henry Rawlinson, em 1850, que não ligou o nome à Bíblia. Edward Hincks propôs a ligação com Jeú no ano seguinte, e hoje quase todos a aceitam. Houve dúvidas, porque Jeú não era descendente de Omri e até exterminou a família (G. Smith, em 1875; mais tarde E. Thiele e P. K. McCarter também levantaram objeções). A explicação mais comum é que "filho de Omri" era o jeito assírio de dizer "o rei de Israel", e não uma genealogia.

⚠️ O Obelisco é o único retrato que temos, na arte do Oriente Antigo, de um rei de Israel ou de Judá. Mas há quem pense que o homem prostrado seja um enviado de Jeú, e não ele mesmo. Além disso, o obelisco foi esculpido cerca de quinze anos depois do episódio de 841 a.C., e os estudiosos discutem se registra o mesmo pagamento ou também outros. A Bíblia não conta que Jeú pagou tributo, e nenhum texto assírio conta o golpe que o pôs no trono. Cada lado conta o que lhe interessa.

👁️ Como era viver ali

Samaria, no tempo da casa de Onri, era uma capital de luxo. Acabe construiu uma "casa de marfim" 1Rs 22.39, e Amós, mais tarde, ainda fala das "casas de marfim" do país Am 3.15. Escavações em Samaria acharam centenas de fragmentos de marfim entalhado, em estilo fenício, que enfeitavam móveis (os arqueólogos discutem se são do tempo de Acabe ou de um pouco depois). Era o Israel de Acabe e Jezabel: rico, aliado de Tiro, aberto ao comércio e ao culto estrangeiro. Alguns estudiosos acham que, ao romper com isso e com Judá, Jeú ficou isolado diante da pressão de Damasco, e que pagar tributo à Assíria foi um modo de buscar um aliado distante. É uma explicação possível, não registrada em nenhum texto.

12 — O PREÇO E O SALVADORHazael, Jeoacaz e Joás

A Assíria não ficou em Israel, e quem sofreu o aperto de perto foi Damasco. O livro de Reis fala de Hazael com dureza: "Naqueles dias começou o Senhor a diminuir os termos de Israel; porque Hazael os feriu em todas as fronteiras de Israel" 2Rs 10.32. A Transjordânia caiu nas mãos dos sírios. Sob o filho de Jeú, Jeoacaz, a opressão continuou 2Rs 13.3, e então o texto diz uma frase enigmática:

"Porém Jeoacaz suplicou diante da face do Senhor; e o Senhor ouviu; porque viu a opressão de Israel, pois o rei da Síria os oprimia. E o Senhor deu um salvador a Israel, e saíram de sob as mãos dos sírios; e os filhos de Israel habitaram nas suas tendas, como no passado" 2 Reis 13.4-5

A Bíblia não diz quem foi esse "salvador". Os comentaristas já propuseram vários nomes: um rei de Israel (Joás ou Jeroboão II) e também o assírio Adad-nirari III (c. 810–783 a.C.), que atacou Damasco por volta de 796 a.C. e a enfraqueceu. Uma estela dele, achada em 1967 em Tell al-Rimah, no Iraque, diz que ele recebeu tributo de "Joás, o samarita", ao lado de Tiro e de Sídon. Joás é o neto de Jeú, rei de Israel (c. 798–782 a.C.).

🏺 O que a pá encontrou

A estela de Tell al-Rimah (hoje no Museu do Iraque) mostra que Samaria pagava, ou voltou a pagar, tributo à Assíria no tempo de Joás. Já o "salvador" é outra conversa. Associar Adad-nirari III a 2 Reis 13.5 é uma hipótese razoável do ponto de vista cronológico, mas o texto bíblico não dá nome, e o que se segue (a pressão assíria sobre Damasco aliviando Israel) é dedução dos estudiosos.

⚠️ Os dois são fatos que se encaixam, mas o encaixe é inferência. Quem lê a Bíblia como história de salvação pode ver aqui a mão de Deus agindo por meio de um império distante; quem a lê só como documento histórico pode ver política regional. O texto de Reis diz apenas que o Senhor deu "um salvador".

🏺 O que a pá encontrou

Outro achado desse mesmo tempo não é assírio, mas aparece junto. Em 1993–94, em Tel Dã, no norte de Israel, foi encontrada uma estela de basalto em aramaico, do século IX a.C. O autor, um rei que fala em primeira pessoa, diz ter matado um rei de Israel e um rei da "casa de Davi". A leitura bytdwd, "casa de Davi", é a mais aceita e é tida como a primeira menção a Davi fora da Bíblia. A estela está no Museu de Israel, em Jerusalém.

⚠️ A maioria dos estudiosos atribui a estela a Hazael de Damasco. Se for isso, há uma diferença com a Bíblia: o livro de Reis diz que foi Jeú quem matou Jorão e Acazias 2Rs 9.24,27, e a estela parece atribuir a morte dos dois reis ao seu autor. As propostas vão de exagero do rei sírio a tentativas de harmonizar as versões. Nenhuma é certa.

🌱 Semente de sermão

Jeú derrubou Baal e ganhou o elogio de Deus, e mesmo assim o texto pesa o final da vida dele: "Mas Jeú não teve cuidado de andar com todo o seu coração na lei do Senhor Deus de Israel" 2Rs 10.31. Zelo contra o erro dos outros não é o mesmo que fidelidade. É possível limpar o templo dos outros e deixar intacto o bezerro de casa.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

⚖️

Um golpe com duas notas

Jeú cumpriu a ordem contra a casa de Acabe, mas "não teve cuidado de andar com todo o seu coração" 2Rs 10.31.

⚫

A pedra negra

O Obelisco Negro (c. 827–825 a.C.) traz "Tributo de Jeú, filho de Omri", e o único retrato conhecido de um rei de Israel, ou de um enviado dele.

🤐

Silêncios dos dois lados

A Bíblia não fala do tributo; o texto assírio não fala do golpe. Qarqar (853) também só aparece num texto assírio.

🏰

Casa de Omri

Por mais de um século, os assírios chamaram Israel de "casa de Omri", mesmo depois de Jeú acabar com a família.

Próximo capítulo: a Bíblia manda um profeta israelita a Nínive, e a cidade escuta. O livro de Jonas leva um profeta de Israel até dentro da capital assíria.

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