O fim do canal do tanque superior, no caminho do campo do lavandeiro. É ali, num trecho de água e de pedra fora dos muros de Jerusalém, que o rei Acaz está, talvez conferindo a água da cidade, quando dois homens vêm ao encontro dele: o profeta Isaías e um menino, o filho do profeta, de nome Sear-Jasube Is 7.3.
A cidade está com medo. "se moveu o seu coração, e o coração do seu povo, como se movem as árvores do bosque com o vento" Is 7.2. O motivo: dois reis vizinhos, o de Damasco e o de Israel, estão marchando contra Jerusalém. Neste capítulo, a Assíria entra de vez na vida de Israel e de Judá. Menaém compra a paz, Pecá cai e Acaz faz uma escolha que marca o reino.
17 — O PREÇO DE MENAÉMMil talentos de prata
Para entender o que aconteceu, é preciso voltar uns anos. Em Israel, depois da morte de Jeroboão II (c. 753 a.C.), os reis passaram a se suceder a golpes. Zacarias foi morto por Salum 2Rs 15.10, e Salum, depois de um mês, por Menaém 2Rs 15.14. Era um homem de Tirza, e brutal: quando uma cidade não lhe abriu as portas, "a todas as mulheres grávidas fendeu pelo meio" 2Rs 15.16. É esse rei que, em 745 a.C., vê subir ao trono da Assíria um homem decidido a mudar o jogo: Tiglate-Pileser III.
A Bíblia o chama de Pul, e o episódio é curto e frio:
Mil talentos de prata é muito dinheiro. Um talento valia 3.000 siclos, então eram 3 milhões de siclos. Se cada rico entrou com 50, o cálculo dá uns 60 mil contribuintes. É uma conta feita com os números do texto (e nada garante que fossem exatos), mas mostra o tamanho do aperto: o rei não pagou do próprio cofre, e sim cobrou de toda a classe alta do país. O pagamento comprou o que o texto diz: "para que este o ajudasse a firmar o reino na sua mão". Menaém usou a Assíria para se segurar no trono.
Os anais assírios confirmam o episódio, sem os detalhes. Entre os reis do oeste que entregaram tributo a Tiglate-Pileser, a lista traz "Rezim de Damasco" e "Menaém de Samaria". O texto é fragmentário, e não indica o ano exato; muitos estudiosos o datam em 738 a.C.
Por que a Bíblia chama de "Pul" o rei que os assírios chamavam de Tiglate-Pileser? O hebraico escreve Pûl (פּוּל) em 2 Reis 15.19 e em 1 Crônicas 5.26, e Tiglat Pilʼeser em 15.29. As duas formas são o mesmo homem: Pulu era o nome com que ele figurava na Babilônia, que ele também governou, e uma inscrição trilíngue achada em Incirli, na Turquia (só a parte fenícia foi publicada, em 2007), confirmou que os dois nomes eram dele. Em acádio, o nome assírio é Tukultī-apil-Ešarra, "minha confiança é o filho de Esharra", o templo de Assur. A Crônicas junta os dois: "o espírito de Pul, rei da Assíria, e o espírito de Tiglate-Pilneser" 1Cr 5.26.
Nem toda a história é de rei e general. Pense numa família rica de Samaria que, de repente, recebe a visita do cobrador: cinquenta siclos de prata, e não adianta reclamar, porque é para salvar o reino. O texto não diz como cada um juntou a quantia. O profeta Oseias, na mesma geração, dizia que Efraim "é como uma pomba ingênua, sem entendimento; invocam o Egito, vão para a Assíria" Os 7.11.
18 — PECÁ DERRUBADOA Galileia nas mãos de Tiglate-Pileser
Menaém reinou uns dez anos e foi sucedido pelo filho, Pecaías, que durou dois. Aí veio Pecá, um oficial, que o matou e tomou o trono 2Rs 15.25. Segundo a leitura mais comum, Pecá é um rei de oposição à Assíria. Ele se junta a Rezim, rei de Damasco, numa liga contra Tiglate-Pileser, e quer que Judá entre. Judá não quer. É nessa hora que os dois reis sobem a Jerusalém, e que Isaías encontra Acaz no canal.
A resposta do rei assírio foi dura, e o livro de Reis resume em uma frase de lista de cidades:
Essas cidades ficavam no norte de Israel e na Transjordânia: eram a parte mais próxima de Damasco, e foi por ali que o assírio entrou. Em Samaria, o golpe seguinte veio de dentro. "E Oséias, filho de Elá, conspirou contra Peca, [...] e o feriu, e o matou, e reinou em seu lugar" 2Rs 15.30.
Um texto de Tiglate-Pileser III achado em Calá (chamado Inscrição Sumária 4, copiado de uma laje hoje perdida) diz, resumindo, que ele levou os habitantes e os bens de "Israel" (a "casa de Omri") para a Assíria e que "depuseram o seu rei Pecá, e eu pus Oséias como rei sobre eles", com tributo de ouro e prata. A Bíblia descreve o mesmo caso de outro jeito: Oséias conspirou e matou Pecá. O texto assírio mostra o resultado político (Pecá fora, Oséias instalado por Tiglate-Pileser); a Bíblia mostra o meio, uma conspiração de Oséias. Os dois relatos se encaixam. As camadas de destruição da época, como a de Hazor, no norte de Israel, costumam ser ligadas à campanha de Tiglate-Pileser de 732 a.C. O reino de Israel ficou reduzido à região de Samaria, e o resto virou províncias assírias (os estudiosos reconhecem as de Megido, Dor e Gileade).
⚠️ A data da inscrição e a do tributo de Oséias são discutidas, e a lista dos reis nem sempre bate entre a Bíblia e os textos assírios. Os estudiosos ajustam as datas dos reinados de Israel e de Judá de formas diferentes, e as divergências são de poucos anos.
Há uma profecia de Isaías sobre esse mesmo território que um evangelista cita séculos depois. Era a terra de Zebulom e Naftali, a primeira atingida por Tiglate-Pileser:
É a mesma terra de Naftali que a Assíria despovoou em 2 Reis 15.29. E é para ali que Jesus se muda, depois que João Batista foi preso. Mateus resume: "Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías" Mt 4.14. O lugar que os assírios esvaziaram, a "Galileia das nações" (de gente de fora, misturada), é onde, segundo o evangelista, a luz aparece.
19 — ACAZ NO MEIOIsaías, o pedido e a navalha alugada
Acaz tinha vinte anos quando começou a reinar e reinou dezesseis 2Rs 16.2. A Bíblia o descreve como um rei que "andou no caminho dos reis de Israel, e até a seu filho fez passar pelo fogo" 2Rs 16.3. A guerra com Damasco e Israel foi dura. O livro de Crônicas, que dá detalhes que Reis não dá, conta muitas mortes e uma multidão levada cativa a Samaria 2Cr 28.5-8, e conta também uma cena de rara humanidade: um profeta de Samaria, Obede, enfrentou o próprio exército que voltava da vitória e disse a eles que os cativos eram irmãos. Homens de Efraim se levantaram, "vestiram do despojo a todos os que dentre eles estavam nus [...] e deram-lhes de comer e de beber, e os ungiram", e levaram os cativos de volta a Jericó 2Cr 28.9-15.
No canal de Jerusalém, Isaías mandou ao rei uma mensagem de calma: "Acautela-te, e aquieta-te; não temas", porque aqueles dois reis eram "dois pedaços de tições fumegantes" Is 7.4. Isaías mandou o rei pedir um sinal, "em baixo nas profundezas, ou em cima nas alturas" Is 7.11. Acaz respondeu com uma frase que parece piedosa: "Não pedirei, nem tentarei ao Senhor" Is 7.12. Isaías entende que é recusa, e responde com um sinal mesmo assim:
Pelo que Reis conta, Acaz já pensava em outra saída. Em vez de confiar, mandou pedir socorro ao rei assírio, num bilhete que resume tudo:
"Servo e filho": Acaz se faz vassalo e, em linguagem de vassalagem, se declara filho do rei da Assíria. O resultado foi o previsto: "o rei da Assíria lhe deu ouvidos; pois o rei da Assíria subiu contra Damasco, e tomou-a [...] e matou a Rezim" 2Rs 16.9. E o preço continuou: "veio a ele Tiglate-Pileser, rei da Assíria; porém o pôs em aperto, e não o fortaleceu" 2Cr 28.20.
Acaz foi a Damasco encontrar o assírio e, lá, viu um altar de que gostou. Mandou o desenho e as medidas ao sacerdote Urias, que fez uma cópia em Jerusalém 2Rs 16.10-11. Quando o rei voltou, "sacrificou nele" 2Rs 16.12 e empurrou para o lado o altar de cobre do templo 2Rs 16.14. O texto bíblico não diz que o rei assírio tenha exigido isso, mas liga as mudanças feitas no templo à presença do rei da Assíria 2Rs 16.18. Os estudiosos discutem se foi imposição assíria (muitos acham que os assírios não costumavam impor o próprio culto aos vassalos) ou iniciativa do próprio Acaz, por gosto ou para agradar.
Isaías dá aos filhos nomes que são mensagens. Šeʼār-yāšûb (שְׁאָר יָשׁוּב), o filho que está com ele no canal, é "um resto voltará". Mais adiante, outro filho recebe um dos nomes mais compridos da Bíblia, Maher-šālāl ḥāš-baz, "rápido o despojo, veloz a presa" (Is 8.1-4), anunciando que "as riquezas de Damasco, e os despojos de Samaria" iriam diante do rei da Assíria. E há o ʻImmānûʼēl (עִמָּנוּ אֵל), "Deus conosco". Sobre Is 7.14, o hebraico traz hāʻalmāh (הָעַלְמָה), "a jovem", enquanto a tradução grega antiga (Septuaginta) usa parthenos, "virgem", palavra que Mateus cita ao ligar o texto a Jesus Mt 1.23.
As tradições leem isso de modos diferentes, e vale conhecê-los. Muitos judeus e muitos protestantes entendem que o texto de Isaías tinha em vista um menino nascido no tempo de Acaz, como sinal de que os dois reis cairiam antes de ele crescer (Is 7.16), e que Mateus aplica o texto a Jesus numa leitura mais ampla. Católicos, ortodoxos e muitos evangélicos leem a profecia como apontando diretamente para o nascimento de Jesus, ou numa dupla realização, e dão peso à palavra grega "virgem". As duas leituras concordam que o sinal é "Deus conosco".
Entre os reis que pagaram tributo a Tiglate-Pileser, uma inscrição de Calá traz o nome Iauhazi de Judá, "Jeoacaz" na forma completa, que é Acaz. Está entre os primeiros reis de Judá citados num texto assírio. O texto lista ouro, prata, estanho, ferro e tecidos coloridos, e não diz em que ano o tributo foi pago: pode ser anterior ao pedido de ajuda de 2 Reis 16.
⚠️ Isto confirma que Judá pagou tributo à Assíria, o que a Bíblia diz com palavras próprias (2Rs 16.8; 2Cr 28.21). A lista é diferente do texto bíblico, que só registra o ouro e a prata do templo. As duas fontes descrevem o mesmo gesto por dois ângulos.
Isaías, por sua vez, viu o desfecho antes que acontecesse. A decisão de Acaz equivalia a trocar um perigo por outro, e ele disse que o "rei da Assíria" seria a "navalha alugada" do Senhor, que raparia a cabeça e a barba Is 7.20. E que as "águas do rio, fortes e impetuosas", isto é, o rei da Assíria, "passará a Judá, inundando-o, [...] e chegará até ao pescoço" Is 8.7-8. Chegar "até ao pescoço" é subir quase até afogar, e parar. Muitos comentaristas ligam isso à invasão de 701 a.C., no tempo de Ezequias (Capítulos 7 e 8).
Acaz tinha na frente dele um profeta, um canal e a oferta de um sinal "no fundo do mar ou no alto do céu". E preferiu mandar pedir ajuda a um império. Quando o socorro vem de quem cobra juros, a ajuda é um empréstimo. Acaz tomou o ouro do templo para pagar a quem tinha vindo "livrar" Judá, e o resultado foi que o templo ficou mais pobre e o rei, mais dependente.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Pul é Tiglate-Pileser
Dois nomes, um rei (745–727 a.C.). Menaém lhe pagou 1.000 talentos de prata 2Rs 15.19.
Pecá e Oséias
Tiglate-Pileser levou o norte (Galileia, Naftali, Gileade) e pôs Oséias no lugar de Pecá, como diz o texto assírio e a Bíblia.
"Eu sou teu servo e teu filho"
O pedido de Acaz (c. 734–732 a.C.) lhe custou o ouro do templo e a independência de Judá.
Isaías 9 e Mateus 4
A terra que a Assíria esvaziou é a Galileia, para onde Jesus foi e onde, diz Mateus, a luz raiou.
Próximo capítulo: Oséias, o último rei de Israel, tenta primeiro pagar e depois se aliar ao Egito, e as duas saídas dão errado. A Assíria volta, cerca Samaria por três anos e termina o que Tiglate-Pileser começou.
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