Os AssíriosCapítulo 6 de 11 ⤓ PDF
Aquarela de David Roberts mostrando a colina da antiga Samaria (Sebasté) ao longe, com viajantes em primeiro plano
CAPÍTULO 6 DE 11

A queda de Samaria

Oséias, o cerco e o debate sobre quem a tomou

O último rei de Israel manda uma mensagem ao Egito e para de pagar à Assíria. O que acontece depois é um cerco de três anos, uma cidade que cai e uma dúvida histórica ainda aberta.

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Mensageiros saem de Samaria rumo ao sul. Levam uma mensagem para o Egito. E naquele ano o tributo que deveria seguir para a Assíria não sai 2Rs 17.4.

Quem manda a carta é Oséias, o último rei de Israel. Quem a recebe é um rei do Egito que a Bíblia chama de Sô. Este capítulo conta o que acontece depois: um cerco de três anos, uma cidade que cai, um povo posto em marcha para o outro lado do rio Eufrates e uma dúvida que os historiadores ainda discutem: foi Salmaneser V ou foi Sargão II quem tomou Samaria?

20 — A APOSTA NO EGITOO último rei de Israel

Oséias, filho de Elá, tomou o trono matando Pecá (Capítulo 5), colocado no trono, segundo o texto assírio, por Tiglate-Pileser III. No começo, fez o que se esperava de um vassalo. A Bíblia resume sem pressa:

"Contra ele subiu Salmaneser, rei da Assíria; e Oséias ficou sendo servo dele, e pagava-lhe tributos. Porém o rei da Assíria achou em Oséias conspiração; porque enviara mensageiros a Sô, rei do Egito, e não pagava tributos ao rei da Assíria cada ano, como dantes; então o rei da Assíria o encerrou e aprisionou na casa do cárcere." 2 Reis 17.3-4

A conta de Oséias era simples e arriscada. Tiglate-Pileser tinha morrido em 727 a.C., e todo mundo sabia que, na troca de rei, os vassalos costumam tentar a sorte. O Egito prometia ajuda. Essa promessa reaparece nos Capítulos 7 e 8, quando Judá faz a mesma aposta.

Quem era o "Sô, rei do Egito"? Ninguém sabe ao certo. O nome não bate com nenhum faraó conhecido. As propostas incluem Osorkon IV, que reinava em Tânis, e Tefnakht, de Sais, no Delta, e há quem relacione o nome à cidade de Sais. É um dos pequenos mistérios do livro de Reis. O que o texto diz é suficiente: o aliado que Oséias escolheu não apareceu quando era preciso.

🔎 A palavra original

O hebraico chama a conspiração de Oséias de qešer (קֶשֶׁר), "conspiração" ou "amarração", e o verbo correspondente, qāšar, aparece também nos golpes contra Zacarias, Salum e Pecaías (Capítulo 5): o reino do norte tinha o hábito de trocar de rei por assassinato. E a ACF traduz que Oséias "ficou sendo servo" de Salmaneser: o hebraico usa ʻeḇeḏ (עֶבֶד), "servo". Em acádio, o vassalo também era chamado de "servo" (ardu).

🏺 O que a pá encontrou

Uma crônica babilônica (conhecida como Crônica 1, escrita em tabuinha, hoje no Museu Britânico) registra o começo do reinado de Salmaneser V: ele subiu ao trono, no dia 25 do mês de Tebete, e a Samaria aparece como o evento do reinado, com a frase de que ele destruiu a cidade, que o texto escreve Šamarain. Essa é a forma mais próxima do nome que depois aparece em aramaico na Bíblia (Samarain, Ed 4.10,17). Isso combina com a Bíblia: houve uma queda de Samaria no tempo de Salmaneser, e ela foi lembrada fora de Israel.

21 — TRÊS ANOS DE CERCOSalmaneser V ou Sargão II?

Samaria era uma cidade de colina, fundada por Onri (Omri) no alto de um monte isolado 1Rs 16.24, fácil de defender, o que ajuda a entender por que o cerco durou tanto. A Bíblia conta e repete a contagem do tempo, dos dois lados do reino:

"E sucedeu, no quarto ano do rei Ezequias (que era o sétimo ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel), que Salmaneser, rei da Assíria, subiu contra Samaria, e a cercou. E a tomaram ao fim de três anos, no ano sexto de Ezequias, que era o ano nono de Oséias, rei de Israel, quando tomaram Samaria." 2 Reis 18.9-10

Aqui aparece o problema. Os textos bíblicos dizem que Salmaneser subiu e cercou, e depois só dizem "o rei da Assíria tomou a Samaria" 2Rs 17.6, sem dar o nome. Nas fontes assírias, o rei que se vangloria de ter tomado a cidade é Sargão II, que subiu ao trono por volta do fim de 722 a.C., depois da morte de Salmaneser. E a crônica babilônica atribui a destruição ao reinado de Salmaneser. Quem tomou, de fato?

Os estudiosos propõem quatro leituras: (1) Salmaneser V tomou a cidade pouco antes de morrer, e Sargão, que segundo muitos tomou o trono por usurpação, se apropriou do feito na propaganda; (2) Salmaneser sitiou e morreu, e Sargão completou o cerco, de modo que a Bíblia e a crônica ligam a queda ao primeiro, e Sargão tem razão em dizer que tomou a cidade; (3) houve duas ocasiões: Salmaneser tomou e destruiu a cidade, e Sargão voltou em 720 a.C., depois de uma revolta mais ampla na Síria em que Samaria teria entrado de novo, e é a esse segundo episódio que seus textos se referem; (4) é impossível ter certeza com o que temos. As datas propostas para a queda vão de 722 a 720 a.C.

Para quem lê a Bíblia, o essencial é que as quatro leituras concordam no resultado: o reino do norte acabou na década de 720 a.C., e o povo foi deportado.

🏺 O que a pá encontrou

Sargão II deixou várias versões do que fez em Samaria. Nelas, ele diz que cercou e conquistou a cidade, levou embora pouco mais de 27 mil pessoas (as cópias variam entre 27.280 e 27.290) e reuniu carros de guerra deles para o seu exército. Diz também que repovoou a cidade com gente de terras que conquistou. Em outro texto, afirma que, alguns anos depois, por volta de 716–715 a.C., fixou em "Casa de Omri" tribos árabes do deserto. Isso combina com a Bíblia, que diz que o rei da Assíria "trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria" 2Rs 17.24. A Bíblia fala de gente da Babilônia e da Síria; o texto assírio fala de tribos árabes. Não é contradição: os dois podem ser lotes diferentes.

⚠️ O número de 27 mil é o que o rei assírio gravou, e reis exageravam. A Bíblia não dá número. O número de carros que Sargão diz ter reunido (as versões divergem entre 50 e 200) também não aparece em Reis.

Gravura de relevo assírio com uma coluna de prisioneiros de mãos erguidas, escoltados por soldados e cavaleiros
Uma nação conquistada, conduzida ao cativeiro — gravura de Austen Henry Layard, A Second Series of the Monuments of Nineveh (1853), prancha 19, a partir de um relevo de Kuyunjik (Nínive). O relevo mostra um povo não identificado; ilustra o modo como os assírios representavam a deportação. Domínio público.

22 — PARA HALA E HABORQuem foi levado e para onde

O texto bíblico dá três nomes de lugar para o exílio: "em Hala e em Habor junto ao rio de Gozã, e nas cidades dos medos" 2Rs 17.6. O Habor é o rio Khabur, no nordeste da Síria de hoje, e Gozã é o território chamado em assírio Guzana, na mesma região. As cidades dos medos ficavam bem mais a leste, no atual Irã. São regiões que o império queria povoar e fortalecer. Para um camponês de Samaria, era outro mundo.

E o que aconteceu depois? Aqui há uma ideia popular que a Bíblia não sustenta: a das "dez tribos perdidas". O texto não diz que sumiram. Diz que foram levados, e deixa claro que nem todos: Ezequias, no começo do seu reinado, mandou convidar gente de Efraim e de Manassés para a Páscoa em Jerusalém, e alguns vieram 2Cr 30.10-11. Mais tarde, no templo reconstruído, os judeus ofereceram doze cabritos "segundo o número das tribos de Israel" Ed 6.17. No Novo Testamento, a profetisa Ana, que vê o menino Jesus no templo, é "da tribo de Aser" Lc 2.36. As tribos do norte não desapareceram da memória do povo de Deus. O que aconteceu, segundo os historiadores, é que parte foi assimilada nos lugares onde foi posta, parte ficou na terra e parte fugiu para o sul.

🔎 A palavra original

Dois verbos contam a história. Em 2 Reis 17.6, o povo "levou cativo": o hebraico usa gālāh (גָּלָה), "ir para o exílio" ou "descobrir", e daí vem gôlāh, "exílio, deportação". A raiz carrega a imagem de alguém "descoberto", exposto, tirado do abrigo. E o verbo que a ACF traduz por "habitar" ("fê-los habitar em Hala") vem de yāšab, "sentar-se, morar", aqui na forma causativa: o rei os "fez morar" ali, ou seja, os instalou.

👁️ Como era viver ali

Escavações em Samaria encontraram ostracos, cacos de cerâmica escritos com tinta, que registram remessas de vinho e azeite para o palácio, com os nomes de clãs e de aldeias de Manassés. São contas de despensa e não literatura, o que as torna reveladoras: mostram um reino organizado, com escribas, impostos em produtos e famílias conhecidas pelo nome (a datação deles, no século VIII, é discutida). Quando o assírio chegou, foi essa vida que se apagou de uma geração para outra. O profeta Oseias tinha previsto o que ia lhes parecer o pior: "Na terra do Senhor não permanecerão; mas Efraim tornará ao Egito, e na Assíria comerão comida imunda" Os 9.3. A "comida imunda" é a imagem da vida longe da terra do Senhor.

23 — POR QUE SAMARIA CAIUO que a Bíblia diz e o que os assírios diziam

O livro de Reis não se contenta em contar a queda. Dedica boa parte do capítulo 17 a explicá-la. A explicação é teológica, e não política:

"Porque sucedeu que os filhos de Israel pecaram contra o Senhor seu Deus, que os fizera subir da terra do Egito, de debaixo da mão de Faraó, rei do Egito; e temeram a outros deuses. E andaram nos estatutos das nações que o Senhor lançara fora de diante dos filhos de Israel, e nos dos reis de Israel, que eles fizeram." 2 Reis 17.7-8

Para o autor de Reis, a causa de fundo não é a potência assíria nem o erro de cálculo de Oséias (que o texto registra), e sim a infidelidade de séculos, desde Jeroboão 2Rs 17.21-23. E ele diz que isso foi anunciado pelos profetas, "como falara pelo ministério de todos os seus servos, os profetas" 2Rs 17.23. Os livros dos profetas dessa época confirmam o aviso. Amós: "Portanto agora irão em cativeiro entre os primeiros dos que forem levados cativos, e cessarão os festins dos banqueteadores" Am 6.7. Oseias: "a Assíria será seu rei; porque recusam converter-se" Os 11.5. Miqueias, que era de Judá, sobre a capital de Israel:

"Por isso farei de Samaria um montão de pedras do campo, uma terra de plantar vinhas, e farei rolar as suas pedras no vale, e descobrirei os seus fundamentos." Miqueias 1.6

Os assírios, claro, tinham outra explicação. O raciocínio deles era o do vassalo rebelde: o rei, em nome de Assur, vinha punir quem quebrou o juramento. Cada lado leu o mesmo fato com o seu deus. E mesmo assim, no meio da condenação, os profetas deixaram escrito que Deus não desistia. É no livro de Oseias, escrito para esse mesmo reino, que está uma das frases mais ternas do Antigo Testamento:

"Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Te poria como Zeboim? Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem." Oseias 11.8
📜 Segundo a tradição

Quem eram, então, os "samaritanos"? Há três respostas, e cada uma tem as suas fontes. A tradição judaica antiga (Josefo, no século I d.C., chama-os de "cuteus", pela cidade de Cuta de 2 Reis 17.24) os vê como descendentes dos povos que a Assíria trouxe. A tradição samaritana diz que descendem das tribos do norte que ficaram na terra e guardaram a Torá, com o monte Gerizim como lugar de culto. Muitos historiadores pensam numa mistura: israelitas que ficaram, mais os recém-chegados, com o tempo unidos em uma só comunidade. O texto de 2 Reis 17.24-41 fala de um povo que "temiam ao Senhor, mas também serviam a seus deuses" 2Rs 17.33, leitura que os samaritanos rejeitam como descrição de si mesmos.

⚠️ Isto é história de tradições, não afirmação da Escritura. Em 2 Reis 17.29 a palavra "samaritanos" ainda é só o nome dos moradores de Samaria; o sentido religioso e étnico que ela tem mais tarde se firmou depois. O assunto reaparece no Capítulo 9.

🌱 Semente de sermão

O livro de Reis conta a queda de Samaria em um versículo e explica o porquê em mais de trinta. A pergunta mais importante da história nem sempre é "o que aconteceu?", e sim "o que isso quer dizer?". E o profeta, que prevê a queda, é o mesmo que chora no meio dela: "Como te deixaria, ó Efraim?" Um pregador que só consegue falar do juízo, e não da compaixão de Deus que sofre junto, ainda não leu Oseias inteiro.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

✉️

A carta para o Egito

Oséias parou de pagar à Assíria e mandou mensageiros a "Sô" 2Rs 17.4. O aliado não apareceu.

⏳

Três anos de cerco

Samaria foi tomada entre 722 e 720 a.C. Quem a tomou, Salmaneser V ou Sargão II, é debate honesto.

🧳

Hala, Habor e Gozã

O povo foi posto no norte da Mesopotâmia e entre os medos. Não ficou "perdido": parte voltou à memória do sul.

❓

Por quê?

Para Reis, a razão é a infidelidade 2Rs 17.7-8. Para os assírios, era um vassalo rebelde. Ambos leem o mesmo fato.

Próximo capítulo: Judá fica sozinho diante da Assíria. Em 701 a.C., Senaqueribe sobe com o exército, e o rei Ezequias, com o povo atrás das muralhas, prepara uma resposta que ainda existe: um túnel debaixo de Jerusalém.

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