O profeta fala diretamente à cidade, como a um vigia no alto da muralha: "O destruidor subiu contra ti. Guarda tu a fortaleza, vigia o caminho, fortalece os lombos, reforça muito o teu poder" Na 2.1. É uma ironia amarga: as ordens que se dão a um sentinela são as que Nínive já não vai conseguir cumprir.
Este capítulo conta o fim do império. A Bíblia o anunciou por três vozes, Isaías, Naum e Sofonias. Os textos babilônicos o contaram com datas. E a pá tirou da terra as marcas do incêndio. No meio disso tudo, o rei Josias de Judá viu a mudança de Jerusalém e morreu em Megido.
33 — A VOZ DE NAUMUm século depois de Jonas
Do profeta Naum, a Bíblia diz pouquíssimo. O livro abre com uma frase: "Peso de Nínive. Livro da visão de Naum, o elcosita" Na 1.1. Não há data nem nome do rei. O que dá pista do tempo está dentro do texto: Naum fala da queda de Tebas, no Egito, como de algo passado Na 3.8-10, e Tebas caiu em c. 663 a.C. E fala de Nínive como de uma cidade ainda de pé, que vai cair, e Nínive caiu em 612 a.C. O livro foi escrito, portanto, num intervalo de uns cinquenta anos. Quem foi Naum e onde ficava Elcos, a Bíblia não diz, e as tradições discordam sobre a localização, sem que nenhuma seja certa.
O livro tem duas partes. A primeira é um hino sobre o caráter de Deus, e começa com palavras duras: "O Senhor é Deus zeloso e vingador" Na 1.2. Mas, logo em seguida, o hino usa a mesma descrição de Deus que Jonas citou ao reclamar da misericórdia no Capítulo 4, com uma diferença:
É o mesmo trecho de Êxodo 34.6-7, mas usado do outro lado. Em Jonas, Deus foi "tardio em irar-se" e perdoou. Em Naum, ele continua "tardio em irar-se", mas "ao culpado não tem por inocente". Cerca de um século separa as duas cenas, e o livro de Naum não explica o que aconteceu no meio. Uns leitores veem no arrependimento de Nínive em Jonas um fato que durou pouco; outros acham que o texto não quer ligar os dois livros. O texto não resolve a questão.
A segunda parte descreve a queda. A cidade é chamada de "cidade ensangüentada" Na 3.1, e o ataque é visto como se o profeta estivesse na muralha:
E uma das imagens mais fortes do livro é a dos leões, o animal que os reis assírios mais gostavam de exibir: "Onde está agora o covil dos leões, e as pastagens dos leõezinhos, onde passeava o leão velho [...]?" Na 2.11. É uma pergunta feita por quem já sabe a resposta.
"Peso" é maśśāʼ (מַשָּׂא), palavra que quer dizer "carga" e também "oráculo": a mensagem que o profeta carrega como um fardo. Aparece em outros livros (por exemplo, Is 13.1 para Babilônia). E Naum 1.15 tem uma frase que a Bíblia repetiria depois: "Eis sobre os montes os pés do que traz as boas novas". O verbo hebraico é bāśar (בָּשַׂר), "trazer boa notícia", que a tradução grega antiga (a Septuaginta) costuma verter por euangelizomai, "anunciar boas novas". Aqui, a boa notícia é política: o opressor foi exterminado. O livro termina como Jonas, com uma pergunta, e a pergunta é a última linha: "Porque sobre quem não passou continuamente a tua malícia?" Na 3.19.
Naum diz a Nínive: "És tu melhor do que Nô-Amom [...]?" Na 3.8. Nô-Amom é Tebas, a grande cidade egípcia do deus Amom (Niwt-Imn, "cidade de Amom", em egípcio). Os anais de Assurbanípal contam que ele a tomou e saqueou, por volta de 663 a.C., depois de campanhas no Egito, e levou despojos enormes para Nínive. O texto de Naum o lembra: "foi levada cativa para o desterro; também os seus filhos foram despedaçados nas entradas de todas as ruas" Na 3.10. O argumento do profeta é de uma lógica dura: a Assíria derrubou Tebas, que também parecia segura entre o Nilo e os canais, e agora o mesmo acontece a ela.
"És tu melhor do que Nô-Amom?" O profeta não ameaça com o desconhecido. Ele aponta para um passado que Nínive mesma escreveu e se orgulhava de ter escrito. O Deus de Naum não inventa uma regra nova para os assírios: aplica a eles a regra que eles aplicaram aos outros. Quem se acostumou a derrubar cidades deveria saber que cidades caem.
34 — A CIDADE QUE DIZIA "EU SOU"Sofonias e o rei Josias
O profeta Sofonias é, entre os profetas menores, o que mais informação traz sobre si: filho de Cusi, filho de Gedalias, filho de Amarias, "filho de Ezequias" Sf 1.1. Esse Ezequias pode ser o rei, mas o texto não diz. E a época é clara: "nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá". Ele fala, portanto, no tempo em que o rei Josias (c. 640–609 a.C.) reformava o culto em Jerusalém.
Esse era um tempo de virada. Com a morte de Assurbanípal (c. 631 a.C.), a Assíria entrou numa crise de que não saiu. Judá, que era vassalo havia mais de um século, passou a respirar. O livro de Reis conta que Josias foi além de Jerusalém: "destruiu" até o altar de Betel, no antigo reino do norte 2Rs 23.15, uma terra que ainda era província assíria um pouco antes. Isso diz algo sobre a perda de poder da Assíria, mas os estudiosos discutem até onde Josias de fato controlou o norte.
Entre as profecias de Sofonias, uma é de interesse direto para este livro:
O que mais chama a atenção é a frase que o profeta põe no coração de Nínive: "Eu sou, e não há outra além de mim". É um modo de falar que, na Bíblia, também é dito por Babilônia Is 47.8,10, e que o próprio Deus usa de si, no sentido oposto: "Eu sou o Senhor, e não há outro" Is 45.5. A Assíria falava de si como Deus fala de si. E a cena final é de pelicanos e rebanhos entre as colunas, ruína em campo aberto.
Pense em quem nasceu em Judá nos anos 630. Cresceu ouvindo falar da Assíria como da potência que nunca acaba. E em poucos anos vê o império se desfazer como poeira. Reformas religiosas, guerras de sucessão em Nínive, um rei da Babilônia chamado Nabopolassar, que se rebela em 626 e funda uma dinastia nova. A velocidade da queda foi o que mais espantou os que a viveram, e ainda espanta os historiadores, que discutem por que o império caiu tão depressa.
35 — O ANO DE 612Como Nínive caiu
O que se sabe da queda vem sobretudo de uma tabuinha babilônica, a chamada Crônica da Queda de Nínive (Museu Britânico, BM 21901), que conta ano a ano a guerra de 616 a 609 a.C. Em resumo: em 614, os medos tomam Assur, a cidade santa, e a destroem. Em 612, os medos e o rei da Babilônia chegam diante de Nínive, a cercam por três meses, no verão, e a tomam. A crônica diz que levaram o saque da cidade e dos templos, e que a transformaram em "montes de ruína". Registra também a morte do rei Sin-shar-ishkun, sem dizer como. O novo rei assírio, Assur-uballit II, tenta resistir em Harã, a cidade do deus Sin, e em 609 a.C. a tentativa fracassa. O império acabou.
Nínive foi mesmo incendiada: o palácio queimou, e o fogo, como vimos, cozeu as tabuinhas e as preservou. A cidade ficou quase despovoada e nunca mais voltou a ser capital. Em Nimrud e em Assur, os arqueólogos também acharam camadas de destruição do mesmo tempo. E um estudo publicado em 2026 na revista Iraq (Timothy Harrison e equipe, em acesso aberto) relata, no Portão de Shamash, em Nínive, uma camada de destruição com pontas de flecha de bronze e de ferro, ossos humanos misturados e 196 fragmentos de uma grande estela de calcário com a figura de um rei, provavelmente Assurbanípal. Os autores veem nos fragmentos uma destruição intencional e violenta, com marcas de fogo, e atribuem a queda do portão, quase certamente, ao assalto de 612 a.C. É um achado recente, e a datação é a que os próprios escavadores propõem.
⚠️ Há uma tradição grega, que vem do historiador Ctesias e chega a nós pelo escritor Diodoro (séc. I a.C.), de que o Tigre inundou e derrubou um trecho da muralha, e o último rei, Sardanapalo, se imolou no palácio. A inundação lembra Naum 1.8 e 2.6 ("as portas dos rios se abrirão, e o palácio será dissolvido"), mas a Crônica Babilônica fala de um cerco de três meses e de um assalto, e não de uma enchente. A imagem do Tigre pode ser poesia de Naum, e a história de Sardanapalo, lenda grega que mistura reis diferentes.
Para Judá, a queda da Assíria foi uma notícia dupla. O profeta Naum a celebra como um fim de opressão Na 1.15. E Jeremias, que viu a Babilônia substituir a Assíria, a resume numa imagem de cordeiro e leões: "Cordeiro desgarrado é Israel; os leões o afugentaram; o primeiro a devorá-lo foi o rei da Assíria; e, por último Nabucodonosor, rei de babilônia, lhe quebrou os ossos" Jr 50.17. Já Ezequiel faz da Assíria uma árvore, um cedro do Líbano de grande altura, que caiu Ez 31.3, e põe o povo dela entre os mortos "abatidos à espada" Ez 32.22.
E há o fim de Josias. Em 609 a.C., o Egito resolve ajudar o que restava da Assíria. A Bíblia conta:
O texto diz que Neco subiu "contra" o rei da Assíria, o que parece estranho, porque a Crônica Babilônica mostra o contrário: em 609, um grande exército egípcio estava ao lado de Assur-uballit, na tentativa de retomar Harã. A preposição hebraica ʻal admite os dois sentidos, "contra" e "junto de". Por isso, muitos estudiosos entendem que Neco ia em socorro da Assíria, para impedir que a Babilônia crescesse. Josias, que provavelmente via na queda da Assíria a oportunidade de Judá, saiu para barrar a passagem do Egito, e morreu. Crônicas acrescenta que Neco lhe mandou dizer: "Não é contra ti que venho hoje, mas contra a casa que me faz guerra" 2Cr 35.21.
Em 2 Reis 23.29, a ACF traduz ʻal (עַל) por "contra", mas a preposição é uma das mais versáteis do hebraico, e pode ser "sobre", "contra", "junto de" ou "a favor de". É uma das razões pelas quais a mesma frase serve tanto a quem lê "Neco foi atacar a Assíria" quanto a quem lê "Neco foi ajudar a Assíria". A Crônica Babilônica favorece a segunda leitura, mas o texto bíblico, sozinho, não decide.
Nínive disse "Eu sou, e não há outra além de mim", e menos de vinte anos depois da morte do seu último grande rei era um monte de ruínas. O que parecia eterno durou uns três séculos como império, e o fim veio em pouco mais de vinte anos. Os impérios acham que o tempo é deles. O tempo é de quem faz os impérios. E um dado curioso: de tudo o que os assírios deixaram, o que mais fala até hoje é o que eles guardavam na biblioteca.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Naum
Entre c. 663 (Tebas) e 612 a.C. (Nínive). Deus "tardio em irar-se", mas que "não tem por inocente o culpado".
"Eu sou, e não há outra além de mim"
Sofonias põe a frase no coração de Nínive, a mesma que Isaías põe em Babilônia Is 47.8.
612 a.C.
Cerco de três meses, saque, fogo. A crônica babilônica conta, o chão confirma, e o fogo cozeu a biblioteca.
Megido, 609
Josias morre quando Neco vai ao norte, provavelmente em socorro da Assíria, e não contra ela.
Próximo capítulo: o que a pá encontrou ao longo de mais de 180 anos, de Botta a Layard e até hoje, o debate honesto das datas e como tudo isso muda a leitura dos profetas. E um último olhar sobre a Assíria na Bíblia, do primeiro ao último versículo.
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