Os AssíriosCapítulo 2 de 11 ⤓ PDF
Relevo assírio em alabastro com a cabeça de um gênio alado barbudo, de perfil
CAPÍTULO 2 DE 11

No que acreditavam

Assur, o rei, o terror e a vara nas mãos de Deus

Cada terra tem o seu deus, e quem muda de terra precisa aprender o culto do lugar. Este capítulo mostra como os assírios pensavam e o que a Bíblia responde.

⏱ 14 min de leitura · 3 imagens em domínio público ou CC0 · 4 camadas de estudo

Leões. Em Samaria, no tempo em que a cidade acabou de ficar vazia, os recém-chegados estão sendo atacados por leões. Eles vieram de Babilônia, de Cuta e de outras terras, trazidos à força pelo rei da Assíria 2Rs 17.24. E o diagnóstico, na boca deles, é religioso: "A gente que transportaste [...] não sabe o costume do Deus da terra" 2Rs 17.26.

A resposta do rei da Assíria mostra uma forma inteira de pensar. Cada terra tem o seu deus, e quem muda de terra precisa aprender o culto do lugar. Este capítulo percorre o que os assírios acreditavam: os deuses, o rei que falava em nome deles, a guerra vista como obra divina e o terror que a acompanhava. No fim, o que a Bíblia diz em resposta.

05 — O DEUS QUE ERA UMA CIDADEAssur e os outros deuses

O principal deus da Assíria se chamava Assur, como a cidade e como o país. Era "rei dos deuses", o senhor das terras, e o rei humano era apenas o seu delegado. Havia um grande templo dele na cidade de Assur, e no ritual de coroação do período médio um sacerdote proclamava: "Assur é rei!". Esse deus tem pouca biografia e quase nenhum mito próprio: a força dele vinha de ser o deus deles, o dono do lugar.

Mais tarde, os escribas assírios fizeram uma coisa ousada. Pegaram o grande poema babilônico da criação, o Enuma Elish, em que o deus Marduk vence o mar primitivo, e fizeram uma versão em que o herói é Assur. Isso se ligou às reformas de Senaqueribe, depois que ele destruiu Babilônia, em 689 a.C. (alguns estudiosos veem os primeiros passos já no tempo de Sargão II). Em outras palavras, eles pegaram a história da criação do rival e puseram o próprio deus nela.

Ao lado de Assur havia dezenas de deuses. Ishtar (a Ishtar de Nínive e a de Arbela, duas "versões" locais da deusa), deusa do amor e da guerra, de quem os reis se diziam favoritos. Sin, deus-lua, cujo grande centro ficava em Harã, a cidade onde o último rei assírio tentaria resistir. Shamash, o sol e a justiça. Adad, a tempestade. Nabu, deus da escrita e dos escribas. Ninurta, deus da guerra, e Nergal, senhor do mundo dos mortos. Muitos deles eram compartilhados com os babilônios, vizinhos do sul.

A Bíblia conhece alguns desses nomes, quase por acidente. Quando o rei da Assíria espalhou povos pelo reino de Israel, cada grupo levou o seu deus:

"E os de babilônia fizeram Sucote-Benote; e os de Cuta fizeram Nergal; e os de Hamate fizeram Asima. E os aveus fizeram Nibaz e Tartaque; e os sefarvitas queimavam seus filhos no fogo a Adrameleque, e a Anameleque, deuses de Sefarvaim." 2 Reis 17.30-31

Nergal, o deus de Cuta, é um dos grandes nomes do mundo mesopotâmico. Os outros são menos conhecidos, e a identidade de alguns (Nibaz, Tartaque, Anameleque) é obscura para os estudiosos. O mais importante é a lição do próprio texto: "Assim temiam ao Senhor, mas também serviam a seus deuses" 2Rs 17.33. Para quem convivia com muitos deuses, um deus a mais não tinha nada de estranho.

🔎 A palavra original

Na boca do Rabsaqué, o rei assírio é "o grande rei" Is 36.4. No hebraico, hammelek haggādôl (הַמֶּלֶךְ הַגָּדוֹל). É a tradução quase literal do título oficial dos reis assírios em acádio, šarru rabû, "grande rei", que aparece em suas inscrições junto de outros como "rei do mundo" (šar kiššati). O Rabsaqué não estava inventando uma frase para a ocasião: estava recitando o título completo do seu senhor, o título que o rei de Judá, para eles, não tinha.

👁️ Como era viver ali

A religião assíria era sobretudo uma questão de sinais. Os deuses falavam pelo fígado de um carneiro, pelo voo dos pássaros, pelos astros, pelos sonhos. Os reis mantinham equipes de adivinhos e astrólogos, e escreviam-lhes cartas perguntando se uma campanha era boa ou se um presságio era grave. Nada de importante se fazia sem antes "perguntar ao deus". O medo mais fundo era o do presságio mal lido: um eclipse, uma lua escurecida, um animal nascido deformado.

06 — O REISacerdote de Assur, senhor do mundo

O rei assírio não era um deus, ao contrário do Faraó do Egito. Era o escolhido de Assur, o seu vice-regente na terra e o seu sacerdote-chefe. Por isso os anais abrem com uma fieira de títulos (algo como "o grande rei, o rei do mundo, o escolhido de Assur"). Por isso as campanhas são feitas "por ordem de Assur". E por isso cada vitória pertence menos ao rei do que ao deus.

Isso explica uma frase que a Bíblia registra numa fala arrogante do rei da Assíria. Ele fala como alguém que acredita ter o direito do mundo:

"Porquanto disse: Com a força da minha mão o fiz, e com a minha sabedoria, porque sou prudente; e removi os limites dos povos, e roubei os seus tesouros, e como valente abati aos habitantes. E achou a minha mão as riquezas dos povos como a um ninho, e como se ajuntam os ovos abandonados, assim eu ajuntei a toda a terra, e não houve quem movesse a asa, ou abrisse a boca, ou murmurasse." Isaías 10.13-14

O tom lembra o dos anais assírios, com o "eu fiz" repetido a cada linha e a fanfarronice de quem recolhe o mundo como quem recolhe ovos de um ninho. Isaías põe na boca do rei uma voz que os leitores de então reconheceriam: a de uma propaganda em primeira pessoa.

Assur também falava com o rei, ou assim se acreditava. Nas tabuinhas do tempo de Esar-Hadom (681–669 a.C.), a deusa Ishtar de Arbela fala por intermédio de profetas e profetisas, gente comum, e garante ao rei que ele é o herdeiro legítimo. Esar-Hadom tinha motivos para guardar essas tabuinhas: chegou ao trono depois de uma sucessão violenta, em que o pai, Senaqueribe, foi assassinado (a Bíblia diz que pelos próprios filhos, 2Rs 19.37).

Gravura de uma estela assíria com o rei de perfil e, à frente, um altar de pedra; símbolos de deuses acima da cabeça
O rei e o altar de sacrifício (Nimrud) — gravura de Austen Henry Layard, A Second Series of the Monuments of Nineveh (1853), prancha 4. O rei aparece de perfil, com a mão erguida e os símbolos dos deuses acima da cabeça. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

As tabuinhas de oráculo de Esar-Hadom foram achadas em Nínive, na biblioteca real, e hoje estão no Museu Britânico. Elas têm interesse especial para quem lê a Bíblia, porque mostram que o Oriente Antigo conhecia gente que falava "em nome de um deus" diante de reis. O que os estudiosos fazem com essa semelhança é outra conversa: uns veem um pano de fundo comum, em que os profetas de Israel se movem; outros insistem em diferenças profundas, como o fato de que os profetas bíblicos costumavam contradizer o rei, e os de Ishtar, nessas tabuinhas, o apoiam.

⚠️ Isto é comparação histórica, não uma conclusão. A Bíblia apresenta os seus profetas como enviados do Deus de Israel, e a existência de profetas em outros povos não explica nem diminui isso.

🌱 Semente de sermão

"Com a força da minha mão o fiz." O rei da Assíria contava a sua história sem Deus no meio. O Senhor responde com uma pergunta de carpinteiro: "Porventura gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele?" Is 10.15. A ferramenta que se acha dona da mão está mal informada.

07 — A GUERRA COMO CULTOExército, cerco e terror calculado

Para os assírios, a guerra era um dever religioso. O rei saía todo ano a campo "por ordem de Assur", e os anais dizem que ele ia ampliar a terra do deus. A máquina por trás disso era enorme. A partir de Tiglate-Pileser III (745–727 a.C.), o rei passou a ter um exército permanente, com soldados de verdade o ano inteiro, e não só camponeses convocados no verão. Havia carros de guerra, cavalaria, arqueiros, infantaria pesada e engenheiros: máquinas de cerco, rampas, aríetes sobre rodas, minadores que cavavam sob as muralhas. As cidades cercadas eram tomadas de um jeito sistemático, e os relevos de Nínive mostram isso com muito detalhe.

Mas a arma mais famosa da Assíria era o medo. Os textos falam do melammu, o "brilho terrível" do rei e de Assur, que bastava para fazer um inimigo desistir. E falam, sem rodeios, de crueldade. Assurnasirpal II, no século IX a.C., conta em suas inscrições o que fez com os rebeldes de uma cidade: empalou, queimou, mutilou, esfolou muitos e cobriu os muros com a pele deles. Quase dois séculos depois, os relevos que Senaqueribe mandou esculpir em Nínive para celebrar a tomada de Laquis, cidade de Judá, mostram homens empalados e outros esfolados vivos, ao lado de famílias que descem da cidade carregando o que podem.

🏺 O que a pá encontrou

Os relevos de Laquis foram achados por Layard no Palácio do Sudoeste, em Nínive, e hoje estão no Museu Britânico. Mais tarde, a escavação da própria Laquis, em Israel, encontrou a rampa de cerco assíria de pedra e terra (que costuma ser apontada como a mais antiga rampa de cerco conhecida e a única assíria já achada), com centenas de pontas de flecha. Isso mostra que os relevos descrevem um cerco real.

⚠️ Os estudiosos discutem quanto da violência nos textos e nos relevos é descrição e quanto é propaganda, feita para amedrontar quem ainda não tinha se rendido. Os reis eram os autores das próprias inscrições. Alguns historiadores lembram que outros impérios antigos também usaram o terror, e que a Assíria dominava ainda por tratados, presentes, casamentos e alianças. A Bíblia fala de violência e rapina (Na 3.1; Jn 3.8), e os próprios assírios gravaram em pedra cenas de violência.

Gravura de relevo assírio com prisioneiros de Laquis, carros de boi, famílias e soldados
Cativos e despojos da cidade de Laquis — gravura de Austen Henry Layard, A Second Series of the Monuments of Nineveh (1853), prancha 22, a partir do relevo do Palácio do Sudoeste de Nínive. No registro de baixo, à direita, dois homens estendidos no chão, nas mãos de soldados, são, segundo os estudiosos, esfolados. Domínio público.

08 — A DEPORTAÇÃOUma política de Estado

O que fazer com um povo conquistado? Os assírios responderam com a deportação em massa, uma prática antiga que Tiglate-Pileser III transformou em política de Estado. Ele não foi o primeiro a deportar, mas foi quem a tornou sistemática. A ideia era enfraquecer os centros de resistência, cortar o laço das pessoas com a terra de origem e povoar as regiões vazias do império com gente útil: agricultores, artesãos, soldados. Estudiosos como Bustenay Oded, autor de um livro clássico sobre o tema (1979), e Karen Radner descrevem uma operação planejada, e não um êxodo caótico.

A Bíblia mostra os dois lados do mecanismo. Primeiro, o povo que sai: Tiglate-Pileser levou os moradores da Galileia e de Naftali 2Rs 15.29, e a queda de Samaria trouxe o resto:

"No ano nono de Oséias, o rei da Assíria tomou a Samaria, e levou Israel cativo para a Assíria; e fê-los habitar em Hala e em Habor junto ao rio de Gozã, e nas cidades dos medos," 2 Reis 17.6

Depois, o povo que entra: a gente de Babilônia, de Cuta e de outras terras, que o texto do começo deste capítulo mostra chegando a Samaria. A política era de mão dupla, e os relevos mostram as famílias andando juntas, mulheres, crianças e animais, com carros de boi. Isso não torna a experiência suave: quem é arrancado da própria terra perde o templo, o túmulo dos antepassados e o nome do lugar. Mas mostra que o Estado assírio via os deportados como mão de obra a ser preservada, e não só como vítimas.

Foi esse sistema que o Rabsaqué tentou vender aos habitantes de Jerusalém, quando disse, em nome do rei:

"Não deis ouvidos a Ezequias; porque assim diz o rei da Assíria: Aliai-vos comigo, e saí a mim, e coma cada um da sua vide, e da sua figueira, e beba cada um da água da sua cisterna; Até que eu venha, e vos leve para uma terra como a vossa; terra de trigo e de mosto, terra de pão e de vinhas." Isaías 36.16-17

Era a política assíria apresentada como uma oferta: renda-se e vai ser levado, mas para uma terra boa. O texto bíblico não aceita a oferta como promessa, e o Capítulo 8 conta como a cidade respondeu.

👁️ Como era viver ali

Imagine ser avisado de que a sua aldeia será esvaziada. Você pode levar o que couber no carro de boi. Vai andar semanas por estradas que não conhece, com os filhos, até uma terra onde fala-se outra língua. É esse o cenário do relevo de Laquis, e é o cenário de Hala, de Habor e do rio Gozã: lugares que a Bíblia cita pelo nome, no norte da Mesopotâmia (o Habor é o atual rio Khabur, na Síria), onde o povo de Israel foi posto. A Bíblia diz o que aconteceu com eles em uma linha. A linha esconde gerações.

09 — O QUE A BÍBLIA RESPONDEA vara na mão de Outro

Diante desse mundo, a Bíblia faz uma coisa que destoa do ambiente em volta. Ela não nega que a Assíria tenha poder, e não faz do Estado assírio um monstro fora do alcance de Deus. Ela diz que o poder da Assíria pertence a Deus, e que a Assíria o usa mal:

"Ai da Assíria, a vara da minha ira, porque a minha indignação é como bordão nas suas mãos. Enviá-la-ei contra uma nação hipócrita, e contra o povo do meu furor lhe darei ordem, para que lhe roube a presa, e lhe tome o despojo, e o ponha para ser pisado aos pés, como a lama das ruas. Ainda que ele não cuide assim, nem o seu coração assim o imagine; antes no seu coração intenta destruir e desarraigar não poucas nações." Isaías 10.5-7

O profeta vira o jogo. Para o rei assírio, o deus Assur o mandava à guerra. Para Isaías, quem manda é o Senhor, para disciplinar o seu próprio povo, e o rei assírio nem percebe: "Ainda que ele não cuide assim". Pior para ele, porque depois serão cobradas dele as contas da sua soberba Is 10.12.

E quando a Assíria diz, pela voz de Senaqueribe, que nenhum deus livrou nenhuma terra das suas mãos, a oração de Ezequias responde com a mesma moeda: os reis da Assíria "lançaram no fogo os seus deuses; porque deuses não eram, senão obra de mãos de homens, madeira e pedra" Is 37.19. A oração admite o que os reis da Assíria fizeram (assolaram as nações e queimaram os deuses delas) e responde que aqueles deuses eram obra de mãos, e que o Deus de Israel não era uma delas.

🔎 A palavra original

As duas palavras que Isaías escolhe em 10.5 são de ferramentas de mão. Šēḇeṭ (שֵׁבֶט), a "vara" que castiga, também é o cetro e o cajado do pastor. Maṭṭeh (מַטֶּה), o "bordão", é o bastão que se carrega. Dez versículos adiante, o profeta troca de ferramenta: o "machado" (garzen) e a "serra" (massôr) que se orgulham diante de quem os maneja Is 10.15. A imagem é a mesma de ponta a ponta: a Assíria é um instrumento, e o instrumento tem dono.

📜 Segundo a tradição

Cristãos de tradições diferentes leem Isaías 10 com ênfases diferentes. Uns destacam que Deus dirige os passos do império; outros, que o rei assírio age por vontade própria e responde por isso. O texto de Isaías põe as duas coisas lado a lado: a Assíria é a vara de Deus e será julgada pela sua soberba.

⚠️ Isto é interpretação teológica, não uma afirmação histórica. O que o texto afirma, e o que as duas ênfases reconhecem, é que o rei assírio é julgado por como usou o poder.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🏛️

Assur: cidade, país e deus

O mesmo nome serve aos três. O rei é o seu vice-regente, não um deus como o Faraó.

🔮

Religião de sinais

Fígados, astros e oráculos. Ishtar de Arbela falava ao rei Esar-Hadom por profetas.

⚔️

A guerra como culto

Exército permanente, cercos e um terror calculado. Os relevos de Laquis são o retrato disso.

🧳

Deportar e povoar

Israel foi para Hala e Habor; gente de Babilônia e de Cuta foi para Samaria. Foi política de Estado.

🪓

A vara tem dono

Para Isaías, a Assíria era o machado, e a mão que o levantava era a de Deus Is 10.15.

Próximo capítulo: o primeiro encontro entre a Assíria e Israel que um texto assírio registra, o do rei Jeú diante de Salmaneser III. A cena está esculpida numa pedra negra que ainda existe.

Leve este capítulo com você

Baixe o Capítulo 2 — No que acreditavam em PDF — diagramado, com as obras de arte e as 4 camadas de estudo, pronto pra ler offline, imprimir ou usar no preparo do sermão.

🔒 PDF do capítulo
Download liberado para assinantes do Strong Completo.
☰ Ver o sumário do livro