Ganchos e cadeias. Capitães do rei da Assíria prendem o rei de Judá e o levam até Babilônia 2Cr 33.11. É uma cena que o livro de Reis nunca conta. Só Crônicas guardou o episódio, e ele põe um rei de Judá dentro do mundo das tabuinhas assírias.
Este capítulo cobre o longo reinado de Manassés, o filho de Ezequias, e o tempo em que a Assíria chegou ao ponto mais alto da sua força, com Esar-Hadom e Assurbanípal. É o tempo em que a Assíria conquistou o Egito, em que os reis vassalos juraram lealdade por escrito e em que um rei assírio juntou, em Nínive, a mais famosa biblioteca do Oriente Antigo.
30 — O REI DOS CINQUENTA E CINCO ANOSManassés, vassal da Assíria
Manassés tinha doze anos quando subiu ao trono, e reinou cinquenta e cinco, mais do que qualquer outro rei de Judá 2Rs 21.1. O livro de Reis o julga com a maior dureza. Refez os altos que o pai tinha destruído, levantou altares a Baal, e fez mais:
O texto acrescenta que o rei "fez passar a seu filho pelo fogo", praticou adivinhação e feitiçaria 2Rs 21.6 e "derramou muitíssimo sangue inocente" 2Rs 21.16. E, para os autores, esse reinado é o ponto de virada: o juízo sobre Jerusalém é anunciado por causa dele 2Rs 21.10-15, e Jeremias ainda o lembra, algumas décadas depois: "por causa de Manassés, filho de Ezequias, rei de Judá, e por tudo quanto fez em Jerusalém" Jr 15.4.
A história política desse reinado, porém, é a de um vassal. Judá tinha sido devastada em 701 a.C. e ficou longe de qualquer revolta. Quase 30 anos depois, os registros assírios o mencionam.
Duas inscrições assírias citam Manassés, rei de Judá, em listas de 22 reis do Ocidente (da Síria, de Canaã e de Chipre). Numa, de Esar-Hadom, esses reis forneceram madeira e pedra para o palácio que o rei assírio construía em Nínive (c. 673–672 a.C.). Em outra, de Assurbanípal, uma lista parecida de 22 reis traz tropas e barcos para a campanha contra o Egito (c. 667 a.C.). É a confirmação de uma coisa que a Bíblia, por si, não diz com todas as letras: Manassés era vassal da Assíria, pagava o que o império pedia e cumpria os deveres de vassalo.
⚠️ Esses textos não dizem nada sobre os altares de Baal nem sobre o culto do exército dos céus em Jerusalém. Alguns estudiosos acham que a introdução de cultos estrelares em Jerusalém reflete influência assíria e mesopotâmica; outros observam que Reis atribui isso à escolha do rei, e que os assírios, como vimos, não costumavam impor o culto aos vassalos. O texto bíblico não decide.
E há a cena de Crônicas, que só ela conta. O Senhor "trouxe sobre eles os capitães do exército do rei da Assíria, os quais prenderam a Manassés com ganchos e, amarrando-o com cadeias, o levaram para Babilônia" 2Cr 33.11. No cativeiro, "ele, angustiado, orou deveras ao Senhor", foi atendido e voltou ao trono 2Cr 33.12-13. Depois, reforçou o muro da cidade, tirou os ídolos do templo e restaurou o altar 2Cr 33.14-16.
Os historiadores discutem o episódio. O texto de Reis não o menciona. Mas há fatos que o tornam plausível: Esar-Hadom reconstruiu Babilônia, e outros vassalos foram levados presos e depois restaurados, como o governante egípcio Neco de Sais, mandado a Nínive e reposto no cargo, segundo os anais de Assurbanípal. Alguns acham que o relato foi moldado pelo interesse do cronista em mostrar arrependimento e restauração, e outros o aceitam como fato.
Os "ganchos" de 2 Crônicas 33.11 vêm do hebraico ḥôḥîm (חֹחִים), palavra aparentada com ḥāḥ, o "anzol" que Isaías põe no nariz do rei da Assíria (Capítulo 8). Os dois textos usam a mesma imagem para dois reis diferentes: o rei da Assíria conduzido por um anzol por Deus, e o rei de Judá conduzido por um gancho pelos assírios. Pode ser coincidência, mas a Bíblia gosta de ecos assim.
Uma tradição judaica antiga diz que o profeta Isaías morreu no tempo de Manassés, serrado ao meio, e a ideia aparece no Talmude e em um texto judaico-cristão chamado Martírio de Isaías. Alguns leitores ligam a essa tradição a menção a "serrados" na lista dos fiéis de Hebreus 11.37. Também circula uma Oração de Manassés, uma prece penitencial atribuída ao rei. Ela está nas Bíblias ortodoxas e fica fora do cânon protestante e do católico (alguns a imprimem em apêndice).
⚠️ Nenhuma dessas informações está em Reis ou em Crônicas. O martírio de Isaías é tradição, não Escritura. Hebreus 11.37 não diz quem foram os "serrados".
31 — O JURAMENTO DE 672Esar-Hadom e a lealdade por escrito
O rei assírio durante boa parte do reinado de Manassés foi Esar-Hadom (681–669 a.C.), filho de Senaqueribe. Chegou ao trono depois do assassinato do pai, e a Bíblia diz que ele "reinou em seu lugar" 2Rs 19.37. Foi um rei diferente do pai: reconstruiu Babilônia, que Senaqueribe tinha destruído, e em 671 a.C. fez o que nenhum rei assírio antes dele conseguira: tomou Mênfis, a antiga capital do Egito.
Esar-Hadom tinha um medo, e com razão: o que aconteceria depois dele. Para proteger a sucessão, em 672 a.C. mandou todos os vassalos e altos oficiais jurarem lealdade ao filho escolhido como herdeiro, Assurbanípal, e a outro, Shamash-shum-ukin, que seria rei da Babilônia. O resultado foi um documento, o chamado Tratado de Sucessão de Esar-Hadom, com juramentos e uma longa lista de maldições para quem o quebrasse. Entre as cláusulas, a lealdade é descrita como "amor" ao herdeiro.
Cópias do tratado foram achadas em Nimrud, nos anos 1950, no templo do deus Nabu, por Max Mallowan. E em 2009 a equipe do Projeto Arqueológico de Tell Tayinat, na atual Turquia, achou mais um exemplar, no santuário interno de um templo assírio. Os textos têm centenas de linhas, e as tabuinhas estavam em templos, o que combina com o caráter religioso do juramento.
Há quem veja nesse tratado uma relação com o livro de Deuteronômio. O argumento é que a lista de maldições de Deuteronômio 28 (por exemplo, as "úlceras", a "loucura" e a "cegueira" de 28.27-28) lembra a ordem e o tipo de maldições do tratado assírio, e que o "Amarás, pois, o Senhor teu Deus" de Deuteronômio 6.5, em linguagem de aliança, responde ao "amarás o herdeiro" de Esar-Hadom. É a posição de estudiosos como Moshe Weinfeld, desde os anos 1960, e de Bernard Levinson e outros mais recentemente.
⚠️ É um debate real. Há quem defenda a dependência direta (Deuteronômio, escrito ou reescrito no século VII a.C., teria usado o modelo assírio de propósito, como uma resposta); há quem duvide de que escribas judaítas tivessem acesso ao texto acádio (Morrow, Crouch); e há quem prefira ver apenas formas comuns do Oriente Antigo, mais antigas, como os tratados hititas. Para quem ensina, vale saber que as duas coisas convivem: o debate acadêmico sobre a origem das formas, e a leitura de fé que vê em Deuteronômio a palavra de Deus ao seu povo.
Há ainda um eco bíblico de Esar-Hadom em Esdras. Quando os judeus voltaram do exílio, os "adversários de Judá e Benjamim" lhes pediram para participar da reconstrução do templo, alegando: "já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir aqui" Ed 4.2. Zorobabel recusou. É uma lembrança tardia do mesmo mecanismo de deportação do Capítulo 2: povos trazidos por reis assírios para a terra de Israel, e que se diziam adoradores do mesmo Deus.
Pense em ser um oficial de um reino vassalo, chamado a jurar lealdade a um herdeiro que ainda nem reina. O tratado põe os deuses como testemunhas e as maldições como consequência. Para quem jurava, o risco era duplo: arriscava o castigo dos deuses se quebrasse o juramento, e o castigo do rei se recusasse.
32 — A BIBLIOTECA DE NÍNIVEAssurbanípal, Gilgamesh e a tabuinha do dilúvio
Esar-Hadom morreu em 669 a.C., a caminho do Egito, e Assurbanípal subiu ao trono (669–631 a.C.). Ele governou o império em seu tamanho máximo: o Egito saqueado (Tebas, em 663 a.C., que Naum vai lembrar no Capítulo 10), a Babilônia domada depois de uma guerra civil contra o próprio irmão, Shamash-shum-ukin (652–648 a.C.), e o Elam arrasado. Os livros de Esdras guardam o eco dessas guerras. Quando conta quem era o povo trazido a Samaria, ele fala de "babilônios, susanquitas, deavitas, elamitas" e dos "outros povos, que o grande e afamado Asnapar transportou" Ed 4.9-10.
Quem é Asnapar? A maioria dos estudiosos o identifica com Assurbanípal, e isso combina com as deportações de gente do Elam e de Susa depois da destruição do reino elamita. Mas a identificação, feita a partir de um nome transcrito em aramaico, não é totalmente certa.
Mas o que tornou Assurbanípal famoso foi outra coisa. Ele se orgulhava de saber ler e escrever, coisa rara para um rei, e de entender os textos antigos. E mandou juntar, no palácio, tabuinhas de todo o mundo mesopotâmico: copiou, comprou, pediu emprestado e, segundo se sabe, até exigiu textos de cidades conquistadas. O resultado foi uma biblioteca de mais de 30 mil tabuinhas e fragmentos, com adivinhação, orações, remédios, astronomia, listas de palavras, cartas, e literatura: o Enuma Elish, o poema da criação babilônico, e a Epopeia de Gilgamesh. Muitas tabuinhas trazem a marca do palácio de "Assurbanípal, rei do mundo, rei da Assíria".
O tempo guardou essa biblioteca por um paradoxo. Quando Nínive caiu, em 612 a.C., o palácio foi queimado, e o fogo cozeu parte das tabuinhas de argila, que assim sobreviveram. O que destruiu a cidade preservou a biblioteca.
A biblioteca foi achada por Austen Henry Layard no fim de 1849, no palácio de Senaqueribe, em Kuyunjik. Três anos depois, seu assistente Hormuzd Rassam achou outra no palácio de Assurbanípal. Foram mandadas para o Museu Britânico, misturadas, sem registros de onde cada uma estava. Em 1872, um funcionário do Museu, George Smith, que se dedicava a juntar fragmentos, reconheceu entre eles um relato do dilúvio e o leu em dezembro de 1872 na Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres, com o primeiro-ministro William Gladstone na plateia. Era a Tabuinha XI da Epopeia de Gilgamesh.
O texto conta que um homem, Utnapishtim, avisado por um deus, constrói um barco e escapa de uma inundação enviada pelos deuses. Quando as águas baixam, solta pássaros (uma pomba, uma andorinha e um corvo) e faz um sacrifício ao sair. A semelhança com Gênesis 6–8 causou espanto e controvérsia, e ainda causa.
⚠️ Os estudiosos explicam as semelhanças de modos diferentes: uma tradição mesopotâmica antiga que Israel conheceu e reelaborou, com uma teologia oposta (um só Deus, e uma razão moral para o juízo); um mesmo acontecimento lembrado por povos diferentes; ou duas tradições independentes. A tabuinha de Assurbanípal é uma cópia tardia (século VII a.C.) de um texto muito mais antigo, e fragmentos mais antigos do Gilgamesh e de outros relatos do dilúvio, como o Atrahasis, existem. O leitor de Gênesis deve conhecer a semelhança e também as diferenças. Este livro não escolhe entre as explicações.
Em acádio, "rei do mundo" é šar kiššati. Hoje parece exagero, mas quando Assurbanípal usava o título, o Egito, a Babilônia e o Elam tinham sido derrotados. Já o nome dele, Aššur-bāni-apli, "Assur é o criador do herdeiro", é uma frase sobre herança, e ele de fato foi o herdeiro escolhido pelo pai em 672. E em Esdras, o nome ʼĀsnappar (אָסְנַפַּר) costuma ser explicado como uma forma aramaica, com o som mudado, do nome do rei.
Manassés foi o pior rei de Judá, segundo Reis, e a Bíblia ainda guardou, em Crônicas, uma cena de oração no cativeiro: "Então conheceu Manassés que o Senhor era Deus" 2Cr 33.13. Não é um capítulo que diga que tudo vale. É um capítulo que diz que a porta da volta fica aberta até para o rei de 55 anos de erro, e que ele a achou preso num lugar onde nunca quis estar. Às vezes é a cadeia que ensina onde ficava a casa.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Manassés, vassal
Citado em duas inscrições assírias (Esar-Hadom e Assurbanípal), junto de outros 21 reis do Ocidente.
O juramento de 672
Tratado de sucessão de Esar-Hadom, achado em Nimrud e em Tell Tayinat. O debate com Deuteronômio é real e continua.
A biblioteca
Mais de 30 mil tabuinhas. O fogo de 612 a.C., que destruiu a cidade, cozeu a argila e a preservou.
Tabuinha XI
George Smith leu o dilúvio de Gilgamesh em 1872. Gênesis e Gilgamesh se parecem e se diferenciam, e os estudiosos explicam isso de modos diferentes.
Próximo capítulo: o império que parecia eterno cai em poucos anos. Os profetas Naum e Sofonias descrevem a queda de Nínive, e o rei Josias acompanha tudo de Jerusalém.
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