O porto de Jope. Um homem sobe a prancha, paga a passagem e desce para dentro do navio. A ordem que ele recebeu aponta para o leste, para uma capital que fica a uns 900 quilômetros em linha reta. O barco vai para o oeste, para Társis, o mais longe que ele consegue imaginar Jn 1.3.
É Jonas, filho de Amitai. Este capítulo conta a visita a Nínive, a cidade que ele não queria visitar, e pergunta o que o livro de Jonas e o mundo assírio têm a dizer um ao outro. É também o capítulo em que a Bíblia faz a pergunta mais incômoda de toda a história da Assíria: e se Deus tiver compaixão deles?
13 — O PROFETA QUE FUGIUDe Gate-Hefer ao porto de Jope
O livro de Jonas não diz em que reinado ele se passa. Mas o livro de Reis conhece esse profeta, e dá o contexto:
"Este" é Jeroboão II, rei de Israel por volta de 793–753 a.C., um dos reinados mais longos e prósperos do reino do norte. Jonas era de Gate-Hefer, na Galileia, e anunciou a Jeroboão uma boa notícia: as fronteiras voltariam ao tamanho antigo. Portanto, pelo que Reis diz, é um profeta que falou a favor do reino de Israel. Esse pano de fundo ajuda a entender o que vem a seguir.
Um dia, Jonas recebe uma ordem que lhe cai mal: "Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença" Jn 1.2. Ele foge. O livro só vai explicar por que no último capítulo. Por ora, conta uma tempestade, marinheiros que clamam cada um ao seu deus Jn 1.5 e um profeta que dorme no porão. Quando os marinheiros descobrem que o culpado é ele, Jonas pede para ser lançado ao mar, e o mar se acalma. Então:
O capítulo 2 é uma oração, em forma de salmo, feita de dentro do peixe. No fim, "Falou, pois, o Senhor ao peixe, e este vomitou a Jonas na terra seca" Jn 2.10. E a ordem volta, quase igual: "Levanta-te, e vai à grande cidade de Nínive" Jn 3.2.
O nome Yônāh (יוֹנָה) é "pomba". O livro brinca com isso, de modo que o começo do livro é uma sequência de descidas (yārad, "descer"): desce a Jope, desce ao navio, desce ao porão Jn 1.5, desce às raízes dos montes Jn 2.6. O profeta que se chama pomba vai para baixo, e só sobe quando Deus o tira do fundo. Em Jonas 1.17, o hebraico diz dāg gādôl, "grande peixe". Nunca diz "baleia"; essa palavra vem do grego de Mateus 12.40, kētos, que é um termo largo para "grande animal marinho".
Para um israelita do tempo de Jeroboão II, a Assíria era um nome que se falava em voz baixa. O reino de Jeú tinha pago tributo a Salmaneser III, e o de Joás, a Adad-nirari III (Capítulo 3). Os israelitas tinham motivos para temer o que os assírios faziam às cidades que resistiam. Pedir a um profeta que fosse pregar naquela cidade era pedir que ele fosse falar com o inimigo. O livro não diz que Jonas temia pela própria vida em Nínive; o que ele confessa no fim é que o que o incomodava era Deus perdoar os assírios Jn 4.2.
14 — NÍNIVE ESCUTAQuarenta dias e uma cidade de joelhos
O capítulo 3 é a parte curta do livro, e a que mais impressiona. Jonas entra na cidade, "caminho de um dia", e prega com uma única frase: "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida" Jn 3.4. Não há sermão, nem explicação, nem o nome de Deus de Israel, só a sentença. E a resposta é imediata: "E os homens de Nínive creram em Deus; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de saco, desde o maior até ao menor" Jn 3.5.
A notícia chega ao rei, e ele faz um gesto de humildade total:
O texto não dá nome ao rei, e não o chama de "rei da Assíria", mas de "rei de Nínive". Até os animais jejuam e vestem pano de saco. O decreto menciona "a violência que há nas suas mãos", e a palavra hebraica, ḥāmās, é a mesma de Gênesis 6.11, quando a terra se enche de violência antes do dilúvio. O livro termina o capítulo com uma frase de duas partes: "E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez" Jn 3.10.
Quanto ao tamanho da cidade, o texto diz: "Ora, Nínive era uma cidade muito grande, de três dias de caminho" Jn 3.3. É uma frase famosa, porque as muralhas de Nínive, na forma que Senaqueribe lhes deu meio século ou mais depois, tinham uns 12 quilômetros de circunferência, o que se anda em menos de um dia. Os estudiosos propõem várias saídas. Uma é que a expressão se refira ao conjunto das cidades vizinhas, como a lista de Gênesis 10.11-12 (Nínive, Reobote-Ir, Calá e Resen, "esta é a grande cidade"). Outra é que "três dias de caminho" descreva uma visita de verdade, de rua em rua, com paradas. Uma terceira é que seja linguagem de exagero literário. Nada disso é seguro.
O livro tem um jogo de palavras que a tradução esconde. Em Jonas 1.2, a "malícia" de Nínive é rāʻāh (רָעָה), "mal". Em 3.10, o "mal" que Deus tinha anunciado, e depois não fez, é rāʻāh também. E em 4.1, quando a ACF diz "isso desagradou extremamente a Jonas", o hebraico diz, literalmente, que "foi um grande mal para Jonas", de novo rāʻāh. O mal de Nínive vira o mal que não vem, e vira o mal que Jonas sente por isso. Já o verbo "arrepender-se" de 3.10 é nāḥam (נָחַם), a mesma raiz que também significa "consolar-se". Já o "converteram-se" dos ninivitas é šûb (שׁוּב), "voltar". E uma última curiosidade: em 3.3, onde a ACF traduz "uma cidade muito grande", o hebraico diz literalmente "grande para Deus", e os tradutores se dividem entre "enorme" e "importante aos olhos de Deus".
A pregação de Jonas em Nínive cabe numa linha. São cinco palavras no hebraico, sem convite nem apelo, e uma cidade inteira se sentou na cinza. O profeta que fugiu do chamado foi o que viu a cidade se voltar. O êxito não depende da disposição do pregador, e sim do Deus que o envia.
15 — A ASSÍRIA DE JONASEm que tempo e com que provas?
Nenhum texto assírio fala de Jonas, de um jejum geral em Nínive ou de um rei que tenha se vestido de saco. A pergunta, então, é a mais honesta que se pode fazer: o que a história da Assíria permite dizer sobre esse livro?
O mais seguro está no cenário. Se Jonas era contemporâneo de Jeroboão II (c. 793–753 a.C.), o livro se passa num dos momentos de maior fraqueza assíria. Depois de Adad-nirari III (que morreu em 783 a.C.), a Assíria viveu décadas de reis fracos, revoltas internas, ameaça da vizinha Urartu e dificuldades. As listas de epônimos registram, em 763 a.C., uma revolta na cidade de Assur e um eclipse solar. Alguns comentaristas imaginam que um ambiente de presságios e medo tenha deixado Nínive mais aberta a ouvir um profeta estrangeiro. É uma hipótese, e só isso: nenhum texto liga o eclipse a Jonas.
A Bíblia, por outro lado, não dá o nome do rei. A expressão "rei de Nínive" é diferente do "rei da Assíria" que o resto da Bíblia usa. Alguns veem aí um sinal de que o autor escreveu muito depois e tratou o assunto de forma literária. Outros lembram que Nínive era uma cidade antiga, sede de templo e de palácio, e que "rei de Nínive" é uma forma natural de falar de um rei que reina a partir dali. A discussão continua.
O lugar mais associado a Jonas em Nínive é um monte chamado Nebi Yunus, "o profeta Jonas", onde havia uma mesquita com um túmulo venerado por cristãos e muçulmanos da região. O túmulo é tradição local, sem registro antigo que o confirme. Em julho de 2014, o grupo Estado Islâmico destruiu a mesquita. Nos túneis cavados por saqueadores sob ela, arqueólogos iraquianos encontraram inscrições do rei Esar-Hadom e restos de um palácio assírio. O que a pá encontrou ali é assírio, e não ligado a Jonas.
⚠️ Que a cidade de Nínive existiu, era imensa e tinha templo e palácio é um fato escavado. Que Jonas tenha estado lá e pregado, a escavação não diz. Para essa pergunta, o que há é o livro e a forma como cada leitor o entende.
Por isso, as formas de ler o livro de Jonas são três, e vale conhecê-las sem caricatura. Primeira: é uma narrativa histórica, com os milagres que conta (a tempestade, o peixe, a conversão da cidade). Quem lê assim lembra que o livro de Reis trata Jonas como profeta real e que Jesus fala do episódio como acontecimento Mt 12.40-41. Segunda: é uma história instrutiva, uma parábola ou sátira profética, escrita sobre um profeta real. Quem lê assim aponta para a ironia do texto, os números exagerados (cidade de três dias, jejum até dos animais, uma conversão sem nome e sem eco na história) e o fato de o livro terminar com uma pergunta, e não com um relato. Terceira: é uma obra escrita bem depois, talvez após o exílio, com um profeta antigo como protagonista, para falar do próprio tempo dos leitores. As três posições têm defensores sérios, entre judeus e cristãos, e em todas elas a mensagem do livro é a mesma: o Deus de Israel é compassivo, inclusive com os inimigos de Israel.
16 — A ÚLTIMA PERGUNTAA aboboreira, o verme e uma cidade inteira
O fim do livro surpreende. Jonas fica furioso. Deus perdoou, e a cidade se salvou. E Jonas explica ao próprio Deus o motivo da fuga:
É quase uma citação de Êxodo 34.6-7, a descrição que Deus faz de si mesmo no Sinai: misericordioso, piedoso, tardio em irar-se, grande em beneficência. O que era para o povo de Israel um motivo de alívio, Jonas usa como acusação, porque a bondade chegou aos assírios. Então Deus ensina ao profeta com uma planta. Faz nascer uma aboboreira, que dá sombra a Jonas, e manda um verme, que a seca. Jonas se enfurece pela planta. E o livro fecha com a pergunta de Deus, sem nenhuma resposta escrita:
Muitos comentaristas entendem que "não sabem discernir entre a mão direita e a esquerda" fala de gente sem conhecimento do que Deus pede (e há quem veja nisso crianças pequenas). O texto não explica. O livro termina aí. E o Novo Testamento o retoma duas vezes, quando alguns pedem um sinal a Jesus:
No relato de Lucas, "assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração" Lc 11.30. Dois pontos ficam claros em qualquer das leituras do livro: Jesus cita os ninivitas como exemplo de arrependimento, e diz que quem está diante daquela geração é "maior do que Jonas".
O livro de Jonas termina sem a reação do Jonas. Deus faz a pergunta, e o profeta fica com ela. Quem lê é quem responde. Muita gente sabe cantar a misericórdia de Deus e não gosta quando ela chega à porta dos outros. A pergunta é a mesma de Nínive: se Deus teve compaixão da Assíria, de quem ele não terá?
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Jonas, o profeta de Jeroboão II
Filho de Amitai, de Gate-Hefer, anunciou a ampliação das fronteiras de Israel 2Rs 14.25.
Uma cidade que escutou
Quarenta dias, saco e cinza, do rei ao animal. Nenhum texto assírio fala disso.
Três jeitos de ler
História, parábola profética ou obra posterior: o livro tem defensores sérios em cada leitura, e todos concordam sobre a compaixão de Deus.
A pergunta final
"E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive?" Jn 4.11. O livro fecha sem resposta do profeta.
Próximo capítulo: poucos anos depois da morte de Jeroboão II, um novo rei assírio muda as regras. Tiglate-Pileser III cobra de Menaém, derruba Pecá e escuta o pedido de Acaz, e a Bíblia começa a contar em primeiro plano.
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