Depois da queda de Jerusalém, o Egito também tem judeus: "todos os judeus, habitantes da terra do Egito, que habitavam em Migdol, e em Tafnes, e em Nofe, e na terra de Patros" Jr 44.1. Mais ao sul, numa ilha do Nilo, outros judeus escrevem em aramaico, em papiro, e a areia seca guarda esses papéis até hoje.
Este capítulo reúne o resto do que a pá e os arquivos antigos dizem: Elefantina, a fortaleza de Tafnes, a Estela da Fome, a vila dos operários das pirâmides, Heródoto e Manetão. E fecha com o debate honesto sobre a data do Êxodo, em que duas posições sérias olham para as mesmas peças.
38 — OS PAPIROS DE ELEFANTINAO templo de Yahu no Egito
Elefantina é uma ilha do Nilo, na fronteira sul do Egito, onde o rio passa pela primeira catarata. No século V a.C., sob domínio persa, havia ali uma colônia militar de judeus (chamada Yeb). Eles escreviam em aramaico, a língua do império, em papiros que as areias secas guardaram. Entre os documentos: contratos de casamento, vendas de casas, empréstimos, cartas. E algo espantoso: um templo ao Deus de Israel, Yahu, que já existia quando o rei persa Cambises conquistou o Egito, em 525 a.C.
Em 410 a.C., os sacerdotes do deus egípcio local, Khnum, com apoio de um oficial persa, destruíram o templo judaico. Os judeus escreveram, em 407 a.C., ao governador de Judá, Bagoas, e aos filhos de Sanbalate, em Samaria, pedindo ajuda para reconstruí-lo. Outro documento, de c. 419 a.C., é uma carta que dá instruções para a celebração da Páscoa.
Os papiros de Elefantina estão hoje em Berlim, no Museu do Brooklyn (Nova York) e no Cairo. Prova: uma comunidade judaica viveu no Egito no século V a.C., com templo, Páscoa e vida civil, e se comunicava com autoridades de Jerusalém e Samaria. O nome de Sanbalate, citado na carta, é o do adversário de Neemias (Ne 2.10), e isso ajuda a datar o documento. Não prova: nada sobre como esses judeus chegaram ali. A hipótese mais comum é que descendem de soldados judeus que serviram a reis egípcios antes de 525 a.C., e talvez de refugiados da época de Jeremias.
⚠️ Os papiros mostram também algo desconfortável: os judeus de Elefantina juravam por Yahu e por outras divindades, e tinham um templo longe de Jerusalém, o que a Lei de Deuteronômio 12 reprova. Isso é um retrato do que Jeremias 44 descreve, o judaísmo egípcio misturado. Os estudiosos debatem o quanto isso era normal ou desvio.
Imagine ser soldado judeu em Yeb: guarda de fronteira numa ilha do Nilo, falando aramaico, casando-se por contrato, comprando e vendendo casa, com um templo de Yahu a poucas ruas do templo do deus carneiro Khnum. Duas fés, o mesmo muro, anos de convivência, e um dia a conta chega. A carta que eles escreveram pedindo ajuda pela reconstrução é um grito de gente do outro lado do mundo, esquecida por Jerusalém.
39 — TAFNES E O FIM DE JUDÁA fortaleza que Jeremias conheceu
Tafnes, na Bíblia, é hoje Tell Defenneh, no Delta oriental. Em 1886, Flinders Petrie escavou ali uma grande fortaleza da época de Psamético I (séc. VII a.C.), com soldados gregos mercenários. Os moradores da região chamavam as ruínas de Qasr Bint el-Yahudi, "o palácio da filha do judeu". Petrie viu nisso uma possível lembrança da chegada dos judeus fugitivos de Jeremias e achou, em frente ao palácio, uma plataforma de tijolos que ele relacionou com as "pedras escondidas no barro" de Jeremias 43.9.
Prova: Tafnes foi uma fortaleza real, no lugar certo, na época certa, onde o Faraó tinha uma "casa", como Jr 43.9 diz: "à entrada da casa de Faraó, em Tafnes". Um fragmento babilônico (BM 33041) registra uma campanha de Nabucodonosor contra o Egito em seu 37º ano (568/567 a.C.), o que se encaixa com a profecia de Jr 43.10-13. Não prova: a presença de Jeremias, nem o cumprimento exato da profecia. O fragmento mostra uma tentativa babilônica de atacar o Egito, mas a documentação não diz se ele conquistou o país. A ideia de que a plataforma de Petrie é a de Jeremias é atraente, mas poucos estudiosos a defendem hoje.
⚠️ O nome local "palácio da filha do judeu" pode ser uma tradição local sem relação com Jeremias, e o fragmento de Nabucodonosor é muito pequeno. Cautela com quem apresenta essas coisas como "prova de que Jeremias esteve ali".
40 — FOME NO EGITOA estela de Sehel e os anos de seca
Numa ilha perto de Assuã, a ilha de Sehel, está gravada na rocha a Estela da Fome. Ela conta que, no tempo do rei Djoser (c. 2650 a.C.), o Nilo deixou de subir por sete anos, e o rei, aflito, consultou um sábio, que o aconselhou a honrar o deus Khnum, o senhor da cheia. Ao ouvir isso, muita gente pensa em José. Mas o texto é muito mais recente.
Outras fontes são antigas de verdade. No túmulo de um governador chamado Ankhtifi (c. 2100 a.C.), uma inscrição descreve um tempo em que "toda a terra do Alto Egito morria de fome". As secas e cheias baixas foram reais e recorrentes.
Prova: fome prolongada, por falha do Nilo, aconteceu no Egito, e os faraós armazenavam grãos para enfrentar. O quadro de Gênesis 41 é plausível. Não prova: a Estela de Sehel foi composta na época dos Ptolomeus (séc. II ou I a.C.), atribuída a um rei do passado, e não menciona José. O "Canal de José" (Bahr Yusuf) tem um nome medieval, e a ligação com o patriarca é tradição popular.
⚠️ Nenhuma inscrição egípcia identificada fala de José, nem do sonho do Faraó, nem do administrador hebreu. Os defensores da historicidade de José apontam coerência cultural, não confirmação direta.
41 — QUEM CONSTRUIU AS PIRÂMIDES?Não foram os hebreus
É a pergunta mais comum sobre o Egito bíblico, e a resposta tem duas partes. A primeira: as pirâmides de Gizé foram construídas por volta de 2560 a.C., mais de mil anos antes de qualquer data proposta para o Êxodo. A segunda: a Bíblia nunca diz que os hebreus as construíram. O que ela diz é que fizeram tijolos e cidades-armazéns (Êx 1.11,14).
Na verdade, o historiador Josefo escreveu que os egípcios fizeram os hebreus cavarem canais e construírem pirâmides (Antiguidades Judaicas II, 203), e a imagem pegou. Mas é uma interpretação dele, não da Bíblia.
Perto de Gizé, os arqueólogos Mark Lehner e Zahi Hawass escavaram a vila dos trabalhadores das pirâmides: padarias e cervejarias em escala industrial, ossos de gado e ovelhas em grande quantidade (eles comiam carne), alojamentos organizados, túmulos modestos dos próprios operários, com sinais de tratamento médico em fraturas. Os grupos de trabalho tinham nomes orgulhosos, como "Amigos de Quéops". Prova: os construtores das pirâmides eram, em grande parte, trabalhadores egípcios organizados, bem alimentados e cuidados, que serviam em turnos de corvéia. Não prova: que a vida de todo operário egípcio fosse boa, nem nega que houvesse trabalho forçado em outras obras e épocas, como no Êxodo.
42 — HERÓDOTO E MANETÃOO que os egípcios e os gregos lembravam
Duas fontes antigas fora da Bíblia merecem ser conhecidas. Heródoto, grego do séc. V a.C., visitou o Egito e dedicou todo o Livro II de suas Histórias a ele: costumes, templos, mumificação, rio. Muito do que ele diz é de ouvir dizer, e ele erra muito, mas é um retrato vivo. Já Manetão, sacerdote egípcio do séc. III a.C., escreveu em grego a história do seu país, dividindo-a nas 30 dinastias que usamos até hoje. Sua obra se perdeu, mas trechos foram guardados por outros autores, entre eles Josefo.
Foi Josefo que preservou o ponto mais curioso: a versão egípcia do Êxodo. Segundo Manetão, houve um tempo em que o Egito expulsou uma multidão de "leprosos" e impuros, liderados por um sacerdote chamado Osarseph, que depois mudou de nome para Moisés (Josefo, Contra Apíon I, 227-253). Josefo refuta a história, e vê nela uma deformação.
Prova: no Egito, ou ao menos na tradição egípcia tardia, circulava uma memória de uma saída de estrangeiros, associada a Moisés. Isso mostra que o tema do Êxodo era conhecido de fora, mas contado pelo lado de quem o vê como vergonha. Não prova: a versão de Manetão é tardia (mil anos depois dos eventos), cheia de preconceito e claramente propaganda contra judeus. Ela não é um segundo testemunho independente.
⚠️ A história de Osarseph é lenda hostil. Também a ideia, de Josefo, de que os hicsos eram os israelitas é rejeitada pela maioria dos estudiosos modernos: os hicsos eram governantes, não escravos, e o nome "Israel" ainda não aparece.
43 — A DATA DO ÊXODODois caminhos honestos
Quando aconteceu o Êxodo? Não há resposta unânime, e a Bíblia não dá o nome do Faraó. Os estudiosos conservadores, os que aceitam o Êxodo como evento histórico, se dividem em dois grupos principais.
A data antiga (c. 1446 a.C.). O ponto de partida é um versículo:
O quarto ano de Salomão é c. 966 a.C. Somando 480 anos, chega-se a c. 1446 a.C., no reinado de Tutmés III e seu filho Amenhotep II, na 18ª dinastia. Os defensores acrescentam o argumento de Juízes 11.26, em que Jefté diz que Israel habitava Hesbom havia trezentos anos Jz 11.26, e a cronologia de Êx 12.40 (430 anos). Estudiosos como Bryant Wood e Eugene Merrill defendem essa data. Para eles, a "Ramessés" de Êx 1.11 seria uma atualização do nome por escribas posteriores, e a destruição de Jericó (datada por alguns em c. 1400) apoia a conquista logo depois do Êxodo.
A data tardia (c. 1260–1250 a.C.). O argumento central é que Pi-Ramessés só existe a partir de c. 1270 a.C., e Êx 1.11 diz que os hebreus a construíram. Os defensores, como Kenneth Kitchen e James Hoffmeier, acrescentam: a estela de Merneptá (c. 1208) mostra Israel já em Canaã; reinos estabelecidos de Edom e Moabe, que Moisés encontra em Números, só aparecem na arqueologia a partir do séc. XIII; e destruições em cidades como Hazor, Laquis e outras, datadas em c. 1250–1200, combinariam com a conquista. Para eles, os "480 anos" de 1 Reis 6.1 seriam um número simbólico: 12 gerações de 40 anos.
Há ainda uma terceira posição, defendida por muitos arqueólogos de linha crítica: a memória do Êxodo viria de grupos menores de semitas que deixaram o Egito em épocas diferentes, e a narrativa teria sido ampliada depois. Esses estudiosos apontam que não se achou nenhuma evidência arqueológica direta de uma multidão de israelitas no Egito ou no Sinai, e que o número de "seiscentos mil homens" de Êx 12.37 é difícil de sustentar. Do outro lado, responde-se que nômades no deserto deixam pouquíssimo rastro, e que a palavra hebraica traduzida por "mil" ('elef) também pode significar "clã" ou "unidade militar", o que reduziria os números.
O que ninguém achou: nenhuma inscrição egípcia fala dos hebreus escravos, das pragas ou da saída. O que existe: Pi-Ramessés, a estela de Merneptá, os papiros de fronteira, a presença semita no Delta, as cartas de Amarna. Cada peça serve a mais de uma tese. A estela de Merneptá, por exemplo, é aceita pelas duas datas: a antiga diz que confirma Israel em Canaã, a tardia diz que mostra um Israel recém-instalado.
⚠️ A data do Êxodo é debate acadêmico genuíno, inclusive entre cristãos que creem na inspiração da Escritura. O que importa para a fé não depende do ano: Deus tirou o povo do Egito com mão forte, e a Bíblia é clara quanto a isso. Qualquer pessoa que diga que a questão está "fechada" para um lado ou para o outro está simplificando. Este livro não fecha a questão.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Elefantina
Uma colônia militar judaica no século V a.C., com templo a Yahu, Páscoa e contratos. Os papiros mostram também um judaísmo misturado, como o de Jeremias 44.
Fome no Nilo
A Estela de Sehel parece falar de sete anos de seca, mas foi composta na época dos Ptolomeus e não cita José. A fome por falha do Nilo é real; a ligação com José é de coerência, não de confirmação.
Não foram os hebreus
As pirâmides de Gizé têm mais de mil anos antes de qualquer data proposta para o Êxodo. A vila dos operários mostra egípcios bem alimentados. A Bíblia fala de tijolos.
Dois caminhos honestos
Data antiga (c. 1446 a.C., a partir de 1Rs 6.1) e data tardia (c. 1260–1250 a.C., por causa de Pi-Ramessés). Cada peça serve a mais de uma tese, e o que importa para a fé não depende do ano.
Próximo capítulo, o último: o que o Egito deixou ao mundo e oito versículos que você não vai ler do mesmo jeito.
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