Em Mira, na Lícia, o centurião acha "um navio de Alexandria, que navegava para a Itália" At 27.6. Paulo e os outros presos embarcam nele.
O Egito está no Novo Testamento de um jeito mais discreto que no Antigo, quase como pano de fundo, até virar rosto: um menino que foge de noite, gente de Alexandria na igreja nascente, um tribuno que confunde Paulo com "aquele egípcio" At 21.38. É o que este capítulo reúne.
28 — JESUS NO EGITOO menino que fez o caminho de volta
Belém, de noite. José acorda de um sonho com uma ordem curta: fuja. Quem já viveu uma emergência sabe como é. Pega o menino e a mãe, sai no escuro e desce para a terra de que a história de Israel tinha fugido.
A frase de Mateus vem do profeta Oseias, e lá ela fala de outra coisa:
Em Oseias, o "filho" é o povo de Israel saindo do Egito pelo Êxodo. Mateus pega essa frase e a coloca sobre Jesus. A ideia é que Jesus vive de novo a história inteira de Israel: desce ao Egito, é chamado de lá e, logo depois, é conduzido ao deserto e passa quarenta dias sendo provado Mt 4.1-2, como Israel passou quarenta anos. Onde Israel falhou, o Filho é fiel. Depois da morte de Herodes, o anjo aparece de novo a José "no Egito": "Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel" Mt 2.19-21.
É um final de ciclo. O Egito já tinha sido refúgio de Jeroboão e de Hadade. Mas também já tinha sido uma armadilha para o profeta Urias, que fugiu para lá e foi extraditado e morto pelo rei Jeoiaquim Jr 26.20-23. Para o menino Jesus, o Egito foi abrigo.
Em Oseias 11.1 o hebraico diz na'ar, "menino, jovem": "Quando Israel era menino". Mateus cita em grego ex Aigýptou ekálesa tòn huión mou, "do Egito chamei o meu filho". O que liga os dois textos é a palavra "filho": Deus chama Israel de "meu filho" já no Êxodo Êx 4.22. Mateus enxerga em Jesus o Israel verdadeiro, o Filho que resume o povo.
José e Maria, camponeses galileus, cruzam a fronteira com um bebê. Talvez cerca de 400 quilômetros até as primeiras comunidades judaicas no Delta. O Egito tinha enorme população judaica, sobretudo em Alexandria: o escritor judeu Filo, no século I, fala em cerca de um milhão de judeus no país. Havia ali sinagogas, língua grega e redes de apoio. Era um lugar onde uma família galileia podia se esconder e achar quem entendesse sua fé. O texto não conta o que fizeram lá. Só diz que ficaram "até à morte de Herodes".
A Bíblia só diz que Jesus foi ao Egito e voltou. A Igreja Copta do Egito guarda uma tradição rica sobre o percurso: a Sagrada Família teria passado por Tell Basta, Heliópolis (Matariya, onde mostram uma "Árvore da Virgem"), Wadi Natrun e até o sul do país, em Deir el-Muharraq, perto de Assiut, onde ficaria por mais de seis meses. Um evangelho apócrifo posterior, o Pseudo-Mateus, conta que os ídolos do Egito caíam quando o menino passava, o que é uma releitura de Is 19.1. No século II, o filósofo pagão Celso zombava dizendo que Jesus aprendeu magia no Egito (apud Orígenes, Contra Celso I, 28).
⚠️ A rota copta, a Árvore da Virgem e os ídolos que caem são tradição e literatura apócrifa, não Escritura. Só Mateus 2 é Bíblia. Celso é um adversário do cristianismo, e sua zombaria confirma, no máximo, que a estada no Egito era conhecida.
O mesmo país foi, na Bíblia, fábrica de tijolos e esconderijo seguro. O que decide é o plano de Deus, não o lugar. Para os hebreus escravizados, o Egito foi prisão; para o Filho de Deus perseguido, foi abrigo. Nem todo Egito é prisão: às vezes é o abrigo que Deus preparou séculos antes. E toda estada no Egito termina na volta: "Do Egito chamei o meu Filho".
29 — EGÍPCIOS NO PENTECOSTES E APOLO DE ALEXANDRIAO Egito na igreja nascente
É Pentecostes, em Jerusalém. A multidão ouve os discípulos falando na sua própria língua, e Lucas lista as terras de onde vinham os visitantes. No meio da lista:
"…Egito e partes da Líbia, junto a Cirene…" At 2.10. Gente do Egito estava lá, entre os primeiros a ouvir o evangelho. Pouco depois, uma sinagoga em Jerusalém composta por gente de fora, "dos cireneus e dos alexandrinos", discute com Estêvão At 6.9. Alexandria, a segunda maior cidade do império, aparece de novo em Atos, e de modo mais pessoal:
Apolo "era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente", mas "conhecendo somente o batismo de João" At 18.25. Priscila e Áquila o levaram consigo e "lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus" At 18.26. Apolo seguiu para a Acaia e "aproveitou muito aos que pela graça criam", mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo At 18.27-28. Em Corinto, os cristãos chegaram a dividir em torno do nome dele ("Eu sou de Paulo, e eu de Apolo", 1Co 1.12), e Paulo responde com humildade: "Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento" 1Co 3.6. Paulo ainda pede a Tito que cuide para que nada falte a Apolo Tt 3.13.
Alexandria aparece também em dois navios: o centurião acha "um navio de Alexandria, que navegava para a Itália" At 27.6, e depois Paulo embarca em outro, "num navio de Alexandria que invernara na ilha" At 28.11. Eram navios de carga: o trigo do Egito alimentava boa parte de Roma.
"Eloqüente" em At 18.24 é logios, uma palavra que pode significar tanto "bom orador" quanto "culto, erudito". Apolo era as duas coisas: um homem educado numa cidade de bibliotecas e filosofia, "poderoso nas Escrituras", as Escrituras gregas que o Egito tinha traduzido. É o "perfil Alexandria": retórica, filosofia e leitura alegórica da Bíblia, que aparece em autores como Filo.
Alexandria era a cidade mais cosmopolita do mundo: o farol de Faros, a Biblioteca, o porto, o bairro judeu com sinagogas enormes. Um jovem judeu de lá crescia falando grego, lendo o Antigo Testamento na tradução grega e discutindo filosofia com vizinhos pagãos. Para quem nascia ali, não existia contradição entre fé e cultura: eram um mesmo mundo. Apolo é o retrato de que o evangelho vai ganhando gente de formação alexandrina.
As areias do Egito preservaram os mais antigos pedaços do Novo Testamento que temos. O Papiro Rylands P52, do tamanho de um cartão de crédito, traz versículos de João 18 e está hoje na Biblioteca John Rylands, em Manchester. A maioria dos estudiosos o data por volta de 125 d.C., com margem de décadas. Foi achado no Egito, e prova que o Evangelho de João já circulava ali poucas décadas depois de escrito. Também em solo egípcio vieram à tona os papiros Chester Beatty (c. 200 d.C.) e a biblioteca de Nag Hammadi (1945), com textos gnósticos.
⚠️ O P52 não prova a data de composição do evangelho de João (que seria anterior), só que ele já circulava no Egito na primeira metade do século II. A datação paleográfica é aproximada e debatida.
Apolo era brilhante e faltava-lhe só uma parte: conhecia só o batismo de João. Ninguém o humilhou. Priscila e Áquila o levaram para casa e o ensinaram em particular. Os talentos mais brilhantes também precisam de um casal que os leve para casa e os complete. E a humildade de Apolo de aceitar a correção faz dele um dos maiores obreiros da igreja primitiva.
30 — O "EGÍPCIO" DE ATOS 21Confundido com um terrorista
Jerusalém, no templo, um tumulto. Paulo foi agarrado por uma multidão que quer matá-lo, e o tribuno romano o prende. Quando vão levá-lo para a fortaleza, Paulo se dirige ao tribuno em grego. O oficial se espanta e faz uma pergunta que revela quem ele achava que tinha preso:
Paulo responde com calma: "Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao povo" At 21.39. E o tribuno deixa. Paulo, ainda sangrando, fala ao povo em hebraico, do alto das escadas At 21.40.
"Salteadores" é, no grego, sikárioi, palavra latina que vem de sica, "punhal". Os sicários eram um grupo de rebeldes que escondia punhais sob as roupas e matava, no meio da multidão, aqueles que colaboravam com Roma. Era o terrorismo da época. O tribuno achava que Paulo era o líder de um deles.
Flávio Josefo conta a história do "egípcio" em dois livros. Diz que, no tempo do governador Félix, apareceu um falso profeta vindo do Egito que reuniu uma multidão, a levou ao Monte das Oliveiras e prometeu que as muralhas de Jerusalém cairiam à sua ordem. Félix atacou, o homem fugiu e muitos de seus seguidores foram mortos ou presos (Guerra dos Judeus II, 261-263; Antiguidades Judaicas XX, 169-172). Josefo dá números bem maiores que os de Atos: na Guerra, fala em milhares, com cifras que chegam a trinta mil.
⚠️ O tribuno de Atos fala em "quatro mil", e Josefo dá números diferentes (e diferentes entre si, de um livro a outro). A discrepância não é estranha: o tribuno falava por ouvir dizer, e as cifras antigas são notoriamente instáveis. O que as duas fontes confirmam é a existência do episódio e do "egípcio".
Paulo foi confundido com o pior. Nem tentou se defender do boato por orgulho; só quis aproveitar a abertura para falar de Cristo. Quando disseram "você é o terrorista egípcio", ele respondeu quem era e pediu a palavra. Há momentos em que a calúnia abre a porta que a defesa não abriria. A última vez que um egípcio aparece com nome em Atos, ele é um impostor. Mas o apóstolo transforma o equívoco em púlpito.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Jesus refaz a história de Israel
Desce ao Egito, é chamado de lá, passa quarenta dias no deserto. Onde Israel falhou, o Filho é fiel: "Do Egito chamei o meu Filho" Mt 2.15.
Alexandria na igreja nascente
Gente do Egito no Pentecostes, uma sinagoga de alexandrinos em Jerusalém, Apolo e navios de carga: a igreja nasce numa rede de cidades onde o Egito pesa.
Priscila e Áquila
Apolo era brilhante e faltava-lhe uma parte. Levaram-no para casa e o completaram At 18.26. Os talentos mais brilhantes também precisam ser completados.
O egípcio e o apóstolo
Josefo confirma o impostor egípcio. Paulo, confundido com ele At 21.38, aproveita o equívoco para pedir a palavra e falar de Cristo.
Próximo capítulo: a pá dos arqueólogos. Roseta, Beni Hasan, Amarna, Merneptá e Karnak, e o que cada pedra prova e não prova.
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