Os EgípciosCapítulo 8 de 11 ⤓ PDF
Paisagem com o repouso na fuga para o Egito; pintura de Joachim Patinir
CAPÍTULO 8 DE 11

O Egito no Novo Testamento

O menino que fugiu, Apolo e o "egípcio" de Atos 21

Do abrigo de um menino à confusão de um apóstolo: o Egito volta no Novo Testamento como refúgio, como terra de gente que ouve o evangelho e como um nome que se confunde.

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Em Mira, na Lícia, o centurião acha "um navio de Alexandria, que navegava para a Itália" At 27.6. Paulo e os outros presos embarcam nele.

O Egito está no Novo Testamento de um jeito mais discreto que no Antigo, quase como pano de fundo, até virar rosto: um menino que foge de noite, gente de Alexandria na igreja nascente, um tribuno que confunde Paulo com "aquele egípcio" At 21.38. É o que este capítulo reúne.

28 — JESUS NO EGITOO menino que fez o caminho de volta

Belém, de noite. José acorda de um sonho com uma ordem curta: fuja. Quem já viveu uma emergência sabe como é. Pega o menino e a mãe, sai no escuro e desce para a terra de que a história de Israel tinha fugido.

"E, tendo eles se retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José num sonho, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho." Mateus 2.13-15

A frase de Mateus vem do profeta Oseias, e lá ela fala de outra coisa:

"Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho." Oseias 11.1

Em Oseias, o "filho" é o povo de Israel saindo do Egito pelo Êxodo. Mateus pega essa frase e a coloca sobre Jesus. A ideia é que Jesus vive de novo a história inteira de Israel: desce ao Egito, é chamado de lá e, logo depois, é conduzido ao deserto e passa quarenta dias sendo provado Mt 4.1-2, como Israel passou quarenta anos. Onde Israel falhou, o Filho é fiel. Depois da morte de Herodes, o anjo aparece de novo a José "no Egito": "Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel" Mt 2.19-21.

É um final de ciclo. O Egito já tinha sido refúgio de Jeroboão e de Hadade. Mas também já tinha sido uma armadilha para o profeta Urias, que fugiu para lá e foi extraditado e morto pelo rei Jeoiaquim Jr 26.20-23. Para o menino Jesus, o Egito foi abrigo.

🔎 A palavra original

Em Oseias 11.1 o hebraico diz na'ar, "menino, jovem": "Quando Israel era menino". Mateus cita em grego ex Aigýptou ekálesa tòn huión mou, "do Egito chamei o meu filho". O que liga os dois textos é a palavra "filho": Deus chama Israel de "meu filho" já no Êxodo Êx 4.22. Mateus enxerga em Jesus o Israel verdadeiro, o Filho que resume o povo.

👁️ Como era viver ali

José e Maria, camponeses galileus, cruzam a fronteira com um bebê. Talvez cerca de 400 quilômetros até as primeiras comunidades judaicas no Delta. O Egito tinha enorme população judaica, sobretudo em Alexandria: o escritor judeu Filo, no século I, fala em cerca de um milhão de judeus no país. Havia ali sinagogas, língua grega e redes de apoio. Era um lugar onde uma família galileia podia se esconder e achar quem entendesse sua fé. O texto não conta o que fizeram lá. Só diz que ficaram "até à morte de Herodes".

📜 Segundo a tradição

A Bíblia só diz que Jesus foi ao Egito e voltou. A Igreja Copta do Egito guarda uma tradição rica sobre o percurso: a Sagrada Família teria passado por Tell Basta, Heliópolis (Matariya, onde mostram uma "Árvore da Virgem"), Wadi Natrun e até o sul do país, em Deir el-Muharraq, perto de Assiut, onde ficaria por mais de seis meses. Um evangelho apócrifo posterior, o Pseudo-Mateus, conta que os ídolos do Egito caíam quando o menino passava, o que é uma releitura de Is 19.1. No século II, o filósofo pagão Celso zombava dizendo que Jesus aprendeu magia no Egito (apud Orígenes, Contra Celso I, 28).

⚠️ A rota copta, a Árvore da Virgem e os ídolos que caem são tradição e literatura apócrifa, não Escritura. Só Mateus 2 é Bíblia. Celso é um adversário do cristianismo, e sua zombaria confirma, no máximo, que a estada no Egito era conhecida.

🌱 Semente de sermão

O mesmo país foi, na Bíblia, fábrica de tijolos e esconderijo seguro. O que decide é o plano de Deus, não o lugar. Para os hebreus escravizados, o Egito foi prisão; para o Filho de Deus perseguido, foi abrigo. Nem todo Egito é prisão: às vezes é o abrigo que Deus preparou séculos antes. E toda estada no Egito termina na volta: "Do Egito chamei o meu Filho".

29 — EGÍPCIOS NO PENTECOSTES E APOLO DE ALEXANDRIAO Egito na igreja nascente

É Pentecostes, em Jerusalém. A multidão ouve os discípulos falando na sua própria língua, e Lucas lista as terras de onde vinham os visitantes. No meio da lista:

"…Egito e partes da Líbia, junto a Cirene…" At 2.10. Gente do Egito estava lá, entre os primeiros a ouvir o evangelho. Pouco depois, uma sinagoga em Jerusalém composta por gente de fora, "dos cireneus e dos alexandrinos", discute com Estêvão At 6.9. Alexandria, a segunda maior cidade do império, aparece de novo em Atos, e de modo mais pessoal:

"E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras." Atos 18.24

Apolo "era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente", mas "conhecendo somente o batismo de João" At 18.25. Priscila e Áquila o levaram consigo e "lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus" At 18.26. Apolo seguiu para a Acaia e "aproveitou muito aos que pela graça criam", mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo At 18.27-28. Em Corinto, os cristãos chegaram a dividir em torno do nome dele ("Eu sou de Paulo, e eu de Apolo", 1Co 1.12), e Paulo responde com humildade: "Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento" 1Co 3.6. Paulo ainda pede a Tito que cuide para que nada falte a Apolo Tt 3.13.

Alexandria aparece também em dois navios: o centurião acha "um navio de Alexandria, que navegava para a Itália" At 27.6, e depois Paulo embarca em outro, "num navio de Alexandria que invernara na ilha" At 28.11. Eram navios de carga: o trigo do Egito alimentava boa parte de Roma.

🔎 A palavra original

"Eloqüente" em At 18.24 é logios, uma palavra que pode significar tanto "bom orador" quanto "culto, erudito". Apolo era as duas coisas: um homem educado numa cidade de bibliotecas e filosofia, "poderoso nas Escrituras", as Escrituras gregas que o Egito tinha traduzido. É o "perfil Alexandria": retórica, filosofia e leitura alegórica da Bíblia, que aparece em autores como Filo.

👁️ Como era viver ali

Alexandria era a cidade mais cosmopolita do mundo: o farol de Faros, a Biblioteca, o porto, o bairro judeu com sinagogas enormes. Um jovem judeu de lá crescia falando grego, lendo o Antigo Testamento na tradução grega e discutindo filosofia com vizinhos pagãos. Para quem nascia ali, não existia contradição entre fé e cultura: eram um mesmo mundo. Apolo é o retrato de que o evangelho vai ganhando gente de formação alexandrina.

🏺 O que a pá encontrou

As areias do Egito preservaram os mais antigos pedaços do Novo Testamento que temos. O Papiro Rylands P52, do tamanho de um cartão de crédito, traz versículos de João 18 e está hoje na Biblioteca John Rylands, em Manchester. A maioria dos estudiosos o data por volta de 125 d.C., com margem de décadas. Foi achado no Egito, e prova que o Evangelho de João já circulava ali poucas décadas depois de escrito. Também em solo egípcio vieram à tona os papiros Chester Beatty (c. 200 d.C.) e a biblioteca de Nag Hammadi (1945), com textos gnósticos.

⚠️ O P52 não prova a data de composição do evangelho de João (que seria anterior), só que ele já circulava no Egito na primeira metade do século II. A datação paleográfica é aproximada e debatida.

🌱 Semente de sermão

Apolo era brilhante e faltava-lhe só uma parte: conhecia só o batismo de João. Ninguém o humilhou. Priscila e Áquila o levaram para casa e o ensinaram em particular. Os talentos mais brilhantes também precisam de um casal que os leve para casa e os complete. E a humildade de Apolo de aceitar a correção faz dele um dos maiores obreiros da igreja primitiva.

30 — O "EGÍPCIO" DE ATOS 21Confundido com um terrorista

Jerusalém, no templo, um tumulto. Paulo foi agarrado por uma multidão que quer matá-lo, e o tribuno romano o prende. Quando vão levá-lo para a fortaleza, Paulo se dirige ao tribuno em grego. O oficial se espanta e faz uma pergunta que revela quem ele achava que tinha preso:

"Não és tu porventura aquele egípcio que antes destes dias fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?" Atos 21.38

Paulo responde com calma: "Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao povo" At 21.39. E o tribuno deixa. Paulo, ainda sangrando, fala ao povo em hebraico, do alto das escadas At 21.40.

🔎 A palavra original

"Salteadores" é, no grego, sikárioi, palavra latina que vem de sica, "punhal". Os sicários eram um grupo de rebeldes que escondia punhais sob as roupas e matava, no meio da multidão, aqueles que colaboravam com Roma. Era o terrorismo da época. O tribuno achava que Paulo era o líder de um deles.

🏺 O que a pá encontrou

Flávio Josefo conta a história do "egípcio" em dois livros. Diz que, no tempo do governador Félix, apareceu um falso profeta vindo do Egito que reuniu uma multidão, a levou ao Monte das Oliveiras e prometeu que as muralhas de Jerusalém cairiam à sua ordem. Félix atacou, o homem fugiu e muitos de seus seguidores foram mortos ou presos (Guerra dos Judeus II, 261-263; Antiguidades Judaicas XX, 169-172). Josefo dá números bem maiores que os de Atos: na Guerra, fala em milhares, com cifras que chegam a trinta mil.

⚠️ O tribuno de Atos fala em "quatro mil", e Josefo dá números diferentes (e diferentes entre si, de um livro a outro). A discrepância não é estranha: o tribuno falava por ouvir dizer, e as cifras antigas são notoriamente instáveis. O que as duas fontes confirmam é a existência do episódio e do "egípcio".

🌱 Semente de sermão

Paulo foi confundido com o pior. Nem tentou se defender do boato por orgulho; só quis aproveitar a abertura para falar de Cristo. Quando disseram "você é o terrorista egípcio", ele respondeu quem era e pediu a palavra. Há momentos em que a calúnia abre a porta que a defesa não abriria. A última vez que um egípcio aparece com nome em Atos, ele é um impostor. Mas o apóstolo transforma o equívoco em púlpito.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

👶

Jesus refaz a história de Israel

Desce ao Egito, é chamado de lá, passa quarenta dias no deserto. Onde Israel falhou, o Filho é fiel: "Do Egito chamei o meu Filho" Mt 2.15.

🏺

Alexandria na igreja nascente

Gente do Egito no Pentecostes, uma sinagoga de alexandrinos em Jerusalém, Apolo e navios de carga: a igreja nasce numa rede de cidades onde o Egito pesa.

🏠

Priscila e Áquila

Apolo era brilhante e faltava-lhe uma parte. Levaram-no para casa e o completaram At 18.26. Os talentos mais brilhantes também precisam ser completados.

🗡️

O egípcio e o apóstolo

Josefo confirma o impostor egípcio. Paulo, confundido com ele At 21.38, aproveita o equívoco para pedir a palavra e falar de Cristo.

Próximo capítulo: a pá dos arqueólogos. Roseta, Beni Hasan, Amarna, Merneptá e Karnak, e o que cada pedra prova e não prova.

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