Ainda é noite, e o Egito só quer ver as costas de Israel. "E os egípcios apertavam ao povo, apressando-se para lançá-los da terra; porque diziam: Todos seremos mortos" Êx 12.33. O povo sai levando a massa antes que levedasse, as amassadeiras atadas aos ombros Êx 12.34.
Este capítulo conta o que veio antes e depois dessa pressa: o sangue na porta e o grito da meia-noite, o mar que se abre e se fecha sobre os carros de Faraó e, no deserto, a saudade da casa da servidão.
18 — A NOITE DA PÁSCOA"Vendo eu sangue, passarei por cima"
Meia-noite. O silêncio da última noite no Egito se parte em um grito só:
Era também a resposta a uma ordem dada antes das pragas: "Israel é meu filho, meu primogênito" Êx 4.22. Faraó recusou soltar o primogênito de Deus, e perdeu o dele. Em Israel, o desfecho foi outro. Cada família tinha sacrificado um cordeiro e marcado a porta com o sangue: "vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade" Êx 12.13. Foi a primeira Páscoa. Deus mandou que fosse lembrada para sempre Êx 12.14, e mais de mil anos depois Jesus escolheu essa mesma festa para instituir a Ceia Lc 22.7-20.
O que o Faraó diz depois é a cena mais surpreendente do capítulo. O homem que perguntou "quem é o Senhor?" agora pede uma bênção:
O Egito, com medo, entrega o que tem: "Fizeram, pois, os filhos de Israel conforme à palavra de Moisés, e pediram aos egípcios jóias de prata, e jóias de ouro, e roupas. E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, e estes lhes davam o que pediam; e despojaram aos egípcios" Êx 12.35-36. O povo sai de Ramessés rumo a Sucote, "cerca de seiscentos mil a pé, somente de homens, sem contar os meninos. E subiu também com eles muita mistura de gente" Êx 12.37-38. Fora a própria Bíblia, o número é discutido, como veremos no Capítulo 10.
Pesaḥ, "Páscoa", vem do verbo pāsaḥ, que a ACF traduz aqui por "passar por cima". A palavra pode também significar "poupar, proteger": o profeta Isaías usa o mesmo verbo quando diz que o Senhor "amparará a Jerusalém, a livrará e, passando, a salvará" Is 31.5. A Páscoa é, então, a noite em que Deus passou protegendo. E a "muita mistura de gente" é, em hebraico, 'ēreb rab: gente de várias origens que subiu com Israel, talvez outros escravos, talvez até alguns egípcios. O texto não detalha.
Pense nessa noite pelo lado egípcio. Não é um filme: é uma casa, uma mãe, um pai, um berço. O texto diz, com uma frase terrível, "não havia casa em que não houvesse um morto". A Bíblia não esconde o tamanho da dor, e deixa claro que o Egito inteiro entendeu. Dois dias antes, Faraó dizia "não conheço o Senhor". Agora implora "abençoai-me também a mim".
Nenhum texto egípcio fala do Êxodo, das pragas ou da morte dos primogênitos. Isso não surpreende tanto quanto parece: os faraós mandavam gravar vitórias, quase nunca derrotas, e o Egito nunca reconheceria nos monumentos uma humilhação dessas. Mas também quer dizer que a prova direta do Êxodo não existe. O que existe são indícios indiretos de uma presença semita no Delta e de nomes e lugares que combinam com o texto. Vamos vê-los um a um nos Capítulos 9 e 10.
⚠️ Ausência de menção não é prova de que o evento não ocorreu, nem de que ocorreu. A discussão honesta está na seção do Capítulo 10 sobre a data do Êxodo.
No Egito, a diferença entre vida e morte numa casa foi uma marca de sangue na porta. Não foi o que a família fez de bom que a salvou: foi o sangue do cordeiro que ela confiou. O Novo Testamento diz: "Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós" 1Co 5.7. A noite do Egito aponta para outra, no Calvário.
19 — O MAR E OS CARROS DE FARAÓQuando o rei muda de ideia
Israel sai, mas Deus escolhe o caminho: "Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que porventura o povo não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito" Êx 13.17. E então, perto do mar, Faraó se arrepende de tê-los deixado ir:
Israel, encurralado entre o exército e o mar, entra em pânico. E Moisés responde:
Os egípcios entram atrás, e o mar volta Êx 14.26-28. A conclusão do narrador é pesada: "Assim o Senhor salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar" Êx 14.30. E então vem o primeiro cântico da Bíblia: "Cantarei ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro" Êx 15.1. O Novo Testamento lembra: "Pela fé passaram o Mar Vermelho, como por terra seca; o que intentando os egípcios, se afogaram" Hb 11.29.
O hebraico chama o lugar de yām sûp, e sûp significa "junco, cana". Daí a tradução alternativa "Mar de Juncos" (muitas Bíblias modernas trazem uma nota). Alguns estudiosos ligam sûp a uma palavra egípcia para "papiro", ou seja, uma região de brejos de papiro. A tradução grega do Antigo Testamento, feita em Alexandria no séc. III a.C., já escrevia "Mar Vermelho" (erythrà thálassa), e é dela que o Novo Testamento herda a expressão de Hb 11.29. O mesmo yām sûp é também o nome do golfo onde Salomão construiu navios (1Rs 9.26, "mar de Sufe" na ACF), de modo que a expressão cobria mais de um mar.
⚠️ Onde foi a travessia? A questão está aberta. Os estudiosos propõem rotas ao norte (região dos lagos entre o Delta e o Sinai), ao centro e ao sul, e nenhuma é consenso.
Por que Deus não levou o povo pela estrada mais curta? A resposta está nas paredes do templo de Karnak. O faraó Seti I (c. 1290 a.C.) mandou gravar ali sua campanha em Canaã, e o relevo mostra uma estrada ao longo do litoral, o "Caminho de Hórus", com uma fileira de fortalezas e poços egípcios até Gaza. Era a estrada militar do Egito, cheia de guarnições. O texto de Êx 13.17 faz sentido: um povo recém-saído de escravidão, tentando passar por ali, teria encontrado guerra de imediato.
⚠️ O relevo de Seti I prova que a estrada era fortificada, e combina com a explicação de Êx 13.17. Mas Seti I é um faraó do século XIII a.C.; quem defende a data antiga do Êxodo (c. 1446 a.C.) precisará supor que a estrada já era guarnecida antes.
Carro de guerra egípcio era a arma mais temida da época: leve, de duas rodas, puxado por dois cavalos, com um arqueiro e um condutor. Os "seiscentos carros escolhidos" são a elite do exército. Para quem vinha a pé, com mulheres, crianças e rebanhos, aquele era o pior pesadelo: rodas contra pés descalços. Por isso o poder da cena é tão grande: a tecnologia mais avançada do mundo, afundando no barro do leito do mar.
"Estai quietos." Moisés não manda o povo lutar, nem correr, nem orar mais alto: manda ficar parado e olhar. Há momentos em que o melhor que se pode fazer é parar de tentar se salvar sozinho. O mar à frente e o exército atrás são o lugar exato onde Deus gosta de agir. E note: Deus tinha escolhido o caminho que levava ao mar. O beco sem saída fazia parte do plano.
20 — SAUDADE DA ESCRAVIDÃOO Egito na memória do povo no deserto
Três dias depois de uma libertação inacreditável, o povo já estava com saudade da casa de onde saíra. A fome de deserto desperta a memória seletiva:
E, mais adiante, a lista fica ainda mais saborosa: "Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; e dos pepinos, e dos melões, e dos porros, e das cebolas, e dos alhos" Nm 11.5. Repare no "de graça": a memória apagou o preço. Mas a Lei, ao ser dada, usa o Egito de outro jeito. Ele vira a moldura da identidade de Israel:
E, com uma surpresa que pouca gente repara, a Lei manda tratar bem os egípcios: "Não abominarás o egípcio, pois estrangeiro foste na sua terra", e os filhos deles, na terceira geração, podiam entrar na congregação do Senhor.
Moisés também avisa o futuro rei de Israel: "Porém ele não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos; pois o Senhor vos tem dito: Nunca mais voltareis por este caminho" Dt 17.16. Salomão, como veremos no Capítulo 6, vai desobedecer exatamente isso. Já Josué lembra que parte do povo trouxe, e manteve, os deuses de lá: "deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais além do rio e no Egito" Js 24.14. E em Gilgal, depois da circuncisão, Deus diz: "Hoje retirei de sobre vós o opróbrio do Egito" Js 5.9.
"Casa da servidão" é bêt 'ăbādîm, literalmente "casa de escravos". É uma frase tão marcante que se repete mais de uma dezena de vezes na Bíblia. A palavra 'ebed ("servo, escravo") é a mesma usada para Moisés, "servo do Senhor". A diferença é de dono. No Egito, o povo era escravo de Faraó; no Sinai, é servo do Senhor. Trocou de patrão, e esse patrão o libertou para servir livremente.
"Panelas de carne" e "peixes de graça" são o que a lembrança guardou. A comida do escravo egípcio, na verdade, era pão, cebola, alho e o peixe barato do rio; um escravo raramente via carne. Mas a nostalgia funciona assim: apaga o chicote e deixa o prato. É por isso que a Bíblia insiste tanto em repetir "o Senhor te tirou da casa da servidão". A memória precisa de ajuda para não mentir.
Dá pra sair do Egito e o Egito não sair de você. O povo andou fisicamente para fora, mas por quarenta anos o coração apontava de volta. Estevão resume: "em seu coração se tornaram ao Egito" At 7.39. A saída do Egito é um passo; a saída do Egito de dentro é uma estrada. E a Lei dá o remédio: a lembrança correta. Lembrar de onde Deus tirou você é o antídoto contra a saudade enganosa.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Sangue na porta
Não foi o que a família fez de bom que a salvou, foi o sangue do cordeiro. "Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós" 1Co 5.7.
O caminho mais longo
Deus não levou o povo pela estrada mais curta Êx 13.17: o "Caminho de Hórus" era uma estrada militar cheia de fortalezas egípcias, como mostra o relevo de Seti I em Karnak.
Estai quietos
Moisés não manda lutar nem correr: manda ficar parado e olhar Êx 14.13. O mar à frente e o exército atrás são o lugar onde Deus gosta de agir.
A saudade apaga o chicote
A memória guardou as panelas de carne e esqueceu o preço. Por isso a Lei repete: "te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" Dt 5.6.
Próximo capítulo: o Egito deixa de ser casa de escravos e vira aliado, com Salomão casando com a filha de Faraó.
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