Jerusalém inteira chora. Jeremias compõe uma lamentação pelo rei morto, e "todos os cantores e cantoras, nas suas lamentações, têm falado de Josias, até ao dia de hoje" 2Cr 35.25.
Anos depois, o mesmo Jeremias será arrastado até o Egito por um povo que lhe pediu conselho e não o ouviu. Entre o luto por Josias e o refúgio em Tafnes, este capítulo mostra três momentos do Egito: o faraó que matou o melhor rei, o refúgio que virou armadilha e, nos profetas, a promessa mais inesperada da Bíblia.
25 — NECO E JOSIASO faraó que matou o melhor rei
Megido, 609 a.C. O rei Josias, o reformador, o último rei piedoso de Judá, sai de Jerusalém para barrar a passagem de um exército egípcio que ia em direção ao norte. Não era a guerra do Egito contra Judá: era o Egito indo ajudar a Assíria, já agonizante, contra a Babilônia.
Crônicas conta a mesma cena por dentro, e traz um recado surpreendente do Faraó:
Os flecheiros atiraram contra Josias, que foi levado ferido a Jerusalém, onde morreu 2Cr 35.23-24. "E todo o Judá e Jerusalém prantearam a Josias", e Jeremias fez uma lamentação por ele 2Cr 35.24-25.
O que veio depois foi um Judá submisso ao Egito, por pouco tempo. Neco prendeu o sucessor de Josias, Jeoacaz, e o levou ao Egito, onde morreu 2Rs 23.33-34. Pôs no trono Eliaquim e "lhe mudou o nome para Jeoiaquim", impondo um tributo de cem talentos de prata e um de ouro 2Rs 23.33-35. Mas a glória do Egito durou pouco. Em 605 a.C., Nabucodonosor derrotou o exército de Neco em Carquemis Jr 46.2, e a Bíblia resume o fim: "o rei do Egito nunca mais saiu da sua terra; porque o rei de Babilônia tomou tudo quanto era do rei do Egito" 2Rs 24.7.
Jeremias zomba do Faraó com um jogo de palavras. Em Jr 46.17 a ACF diz que "Faraó rei do Egito é apenas um barulho; deixou passar o tempo assinalado". O hebraico para "barulho" é shā'ôn: bazófia, estrondo. O Faraó era só barulho, e perdeu a hora.
E um detalhe de nomes: o novo rei de Judá era Eliaquim ('Elyāqîm, "Deus levanta") e o Faraó o rebatizou de Jeoiaquim (Yehôyāqîm, "O Senhor levanta"). O dono do trono mudava o nome, mas o novo nome continuava falando de Deus. Pequeno consolo, nome grande.
As Crônicas Babilônicas (tabuinhas de argila hoje no Museu Britânico) registram, ano a ano, as campanhas de Nabucodonosor e de seu pai. Elas contam que o exército egípcio chegou a Harã, em 609 a.C., para ajudar o último rei assírio, e que em 605 a.C. foi derrotado em Carquemis. Isso bate com Reis e Jeremias. Também Heródoto conta que Neco venceu os "sírios" em um lugar que ele chama Magdolo (Histórias II, 159). Alguns estudiosos acham que ele deformou "Megido"; outros, que se trata de outro lugar. Heródoto (IV, 42) também lembra que Neco mandou navegadores fenícios darem a volta na África.
⚠️ A Crônica Babilônica confirma o contexto (Egito apoiando a Assíria contra a Babilônia), mas não menciona Josias. A morte do rei em Megido vem só da Bíblia. A identificação de Magdolo com Megido é possível, não certa.
Crônicas diz algo desconcertante: as palavras do Faraó Neco "saíram da boca de Deus", e Josias não ouviu. O melhor rei de Judá cai porque recusou ouvir uma palavra vinda de onde não esperava. Deus pode falar pela boca de quem você acha que não tem nada a ensinar. A atenção espiritual inclui estar disposto a ouvir de um Faraó.
26 — JEREMIAS NO EGITOO profeta arrastado pelo povo que o ignorou
Jerusalém caiu em 586 a.C. O governador deixado pelos babilônios, Gedalias, foi assassinado, e o povo, apavorado, "para dali irem e entrarem no Egito, por causa dos caldeus; porque os temiam" Jr 41.17-18. Antes de partir, consultaram Jeremias. Ele respondeu: não vão. "A espada que vós temeis vos alcançará ali na terra do Egito" Jr 42.16. O povo foi assim mesmo:
Em Tafnes, Jeremias recebe uma ordem teatral: esconder pedras grandes "no barro, no forno que está à entrada da casa de Faraó", porque Nabucodonosor viria pôr o trono sobre aquelas pedras Jr 43.8-10. A profecia termina em fogo: "lançarei fogo às casas dos deuses do Egito" Jr 43.12. Os judeus se espalham por todo o Egito, em Migdol, Tafnes, Nofe e Patros Jr 44.1. E ali o povo, junto com as mulheres, responde ao profeta com uma frase que revela o coração:
É a mesma lógica das panelas de carne do Êxodo. Jeremias dá a resposta final: o Faraó Hofra será entregue a seus inimigos, "como entreguei Zedequias" Jr 44.30, e "os que escaparem da espada voltarão da terra do Egito à terra de Judá, poucos em número" Jr 44.28. O livro de Ezequiel, escrito no exílio babilônico, acompanha com oráculos contra o Egito. O país será devastado "desde a torre de Syene até aos confins da Etiópia" Ez 29.10, e Faraó, o "grande dragão", cairá Ez 29.3.
A "rainha dos céus" é melekhet hashshāmayim (Jr 7.18; Jr 44.17-19). Quem era ela? Os estudiosos discutem. A maioria pensa numa deusa semita da fertilidade, associada a Ishtar ou Astarte; outros veem influência de deusas egípcias. A Bíblia não resolve o enigma: ela só mostra o culto e as ofertas, e as mulheres dizendo que a deusa dava "fartura de pão".
Os quatro lugares de Jr 44.1 são também nomes de lugar do Egito. Migdōl e Tahpanḥēs (Tafnes) ficam no Delta oriental; Nōf é Mênfis; Patrôs vem do egípcio "terra do sul", isto é, o Alto Egito.
Imagine um refugiado de Judá em 580 a.C.: seu país foi destruído, a família passou fome e viu morrer o governador. Quando alguém sugere "vamos para o Egito, onde não veremos guerra, nem ouviremos som de trombeta, nem teremos fome de pão" Jr 42.14, é impossível não entender o apelo. Eles queriam uma vida normal. O drama de Jeremias é que o Egito, para onde o povo fugia atrás de segurança, era o lugar onde Deus já tinha dito que não havia segurança.
A Bíblia não conta como Jeremias morreu. Uma tradição antiga, que aparece num escrito chamado Vidas dos Profetas e em pais da igreja como Jerônimo, diz que os judeus de Tafnes o apedrejaram. Em Tafnes, hoje Tell Defenneh, os arqueólogos escavaram uma fortaleza egípcia da época (veja o Capítulo 10).
⚠️ A morte de Jeremias em Tafnes é tradição, não Escritura. O texto bíblico termina com ele ainda vivo, pregando no Egito.
O povo pediu o conselho de Deus e já tinha decidido o que fazer. Jeremias avisou, mas "foram arrastados" e ele foi junto. Muitas vezes pedimos orientação a Deus com a mala já feita. E o que o povo dizia sobre a "rainha dos céus", que quando a adoravam tinham "fartura de pão", é a velha teologia da prosperidade: decidir o que é verdade pelo que dá resultado. O Egito deles, de novo.
27 — O EGITO QUE DEUS QUER GANHARProfecias de esperança
Os mesmos profetas que condenam o Egito dizem, em outros momentos, algo que ninguém esperava: o Egito também será alcançado. Isaías, no capítulo em que anuncia o juízo sobre o país ("Peso do Egito", Is 19.1), termina com uma promessa:
Pare e releia. Os dois maiores opressores de Israel, o Egito e a Assíria, recebem os títulos de Israel: "meu povo" e "obra de minhas mãos". Antes, Isaías tinha dito que "o Senhor se dará a conhecer ao Egito, e os egípcios conhecerão ao Senhor naquele dia, e o adorarão" Is 19.21, e que haveria "cinco cidades na terra do Egito que falarão a língua de Canaã e farão juramento ao Senhor dos Exércitos" Is 19.18. Os salmos também veem o Egito entre os povos de Deus: "Príncipes virão do Egito; a Etiópia cedo estenderá para Deus as suas mãos" Sl 68.31, e Sião é a mãe de gente nascida na Etiópia, Filístia e Babilônia Sl 87.4. Ezequiel promete que, depois de quarenta anos de desolação, "ajuntarei os egípcios dentre os povos entre os quais foram espalhados" Ez 29.13, num reino humilde Ez 29.14. E no fim dos tempos, até a festa dos tabernáculos terá os egípcios convidados Zc 14.18.
Em Is 19.18, a ACF diz que uma das cinco cidades se chamará "Cidade de destruição" ('îr ha-heres). Alguns manuscritos antigos, entre eles um dos rolos de Isaías de Qumran, parecem trazer 'îr ha-ḥeres, "cidade do sol", que seria Heliópolis, a cidade de Rá. Seria um efeito poético: a cidade do deus-sol se tornando cidade do Senhor. A diferença entre as duas leituras está numa letra hebraica.
⚠️ A variante "cidade do sol" é discutida entre estudiosos e não aparece na ACF. Cito como curiosidade de crítica textual, não como correção.
A profecia de "um altar no meio da terra do Egito" Is 19.19 ganhou uma aplicação histórica. Por volta de 160 a.C., o sacerdote Onias IV, fugindo da Judeia, construiu um templo judaico em Leontópolis, no Delta, e o historiador Josefo diz que foi justamente com essa profecia na cabeça (Antiguidades Judaicas XIII, 65-68). Antes disso, em Elefantina, havia outro templo (veja o Capítulo 10).
⚠️ A ligação entre Is 19.19 e o templo de Onias é interpretação de Josefo e da tradição judaica, não leitura estabelecida da Escritura. O Novo Testamento aplica o espírito dessa profecia à abertura do Evangelho às nações, mas não cita Is 19.19.
"Bendito seja o Egito, meu povo." Quem imaginaria que o nome do opressor um dia ganharia o título que era de Israel? Nenhum inimigo está longe demais da graça. Se Deus guarda um "bendito" para o Egito, não tem ninguém na sua vida (nem o pior dos seus Faraós) que ele já tenha riscado do mapa. A maior surpresa do plano de Deus é o tamanho da lista de convidados.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Neco e Josias
Josias saiu ao encontro de Neco e foi morto em Megido. Crônicas diz que as palavras do Faraó "saíram da boca de Deus", e Josias não ouviu 2Cr 35.21-22.
Com a mala já feita
Em 586 a.C., o povo pediu conselho a Jeremias com a decisão tomada. Foi para o Egito mesmo assim e levou o profeta junto Jr 43.5-7.
A rainha dos céus
No Egito, as mulheres disseram que, quando adoravam a rainha dos céus, tinham "fartura de pão" Jr 44.17: decidir o que é verdade pelo que dá resultado.
Bendito seja o Egito
Isaías dá ao opressor os títulos de Israel: "meu povo" Is 19.25. Ninguém está longe demais da graça.
Próximo capítulo: o Egito no Novo Testamento, e um menino que desce de noite para voltar depois.
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