Quando o rei Roboão sobe ao templo, os guardas vão à frente com os escudos. Não são os de ouro que Salomão mandara fazer. Em lugar deles, o rei fez "escudos de cobre" 1Rs 14.27-28, e depois da cerimônia os guardas os devolvem à câmara da guarda.
Como se chegou do ouro ao cobre? A resposta passa pelo Egito: um casamento, dois fugitivos, um faraó com exército e uma aliança que Judá confundiu com segurança.
21 — SALOMÃO E A FILHA DE FARAÓO casamento que ninguém esperava
Jerusalém, uns 960 anos antes de Cristo. Uma comitiva egípcia entra na cidade de Davi com uma noiva real. É o rei do Egito dando a própria filha a Salomão, e isso era um fato raro demais para passar sem nota.
O dote foi uma cidade: "Faraó, rei do Egito, subiu e tomou a Gezer, e a queimou a fogo, e matou os cananeus que moravam na cidade, e a deu em dote à sua filha, mulher de Salomão" 1Rs 9.16. O livro de Reis volta a lembrar da egípcia quando lista as esposas estrangeiras de Salomão: "além da filha de Faraó" 1Rs 11.1. E registra o comércio com o Egito: cavalos e linho para Salomão, e "um carro do Egito por seiscentos siclos de prata, e um cavalo por cento e cinqüenta" 1Rs 10.28-29.
Mas há um problema. A Lei tinha dito a respeito do rei de Israel: "não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos" Dt 17.16, e "tampouco para si multiplicará mulheres" Dt 17.17. Salomão multiplicou cavalos do Egito, e mulheres, e entre elas a egípcia. O livro de Reis conta o casamento com orgulho em 1Rs 3 e com tristeza em 1Rs 11.
"Salomão se aparentou com Faraó" é um verbo só em hebraico, wayyitḥattēn, da raiz ḥātān, que dá "genro, noivo". Salomão virou genro de Faraó. Para um povo que carregava na memória a casa da escravidão, ver o rei se tornar parente do Faraó era mais que política: era uma ironia de duas gerações. O Deus que tirou o povo do Egito agora vê o rei de Israel casando-se lá.
Por que esse casamento chama atenção? Um fato dos arquivos de Amarna ajuda. Quando o rei da Babilônia pediu uma filha do faraó Amenhotep III por esposa (c. 1350 a.C.), a resposta egípcia foi uma recusa seca: filha de rei do Egito nunca foi dada a ninguém (carta EA 4, tradução minha em resumo). O orgulho dos faraós com suas filhas era lendário. Que um faraó tenha dado a filha a Salomão mostra um Egito mais fraco e um Israel em ascensão. Os estudiosos costumam identificar o faraó como Siamun (c. 986–967 a.C.), da 21ª dinastia, e há um relevo de Tânis em que um faraó dessa época fere um filisteu, o que combina com a campanha contra Gezer, perto do território filisteu.
⚠️ A Bíblia não dá o nome do Faraó. A identificação com Siamun é hipótese plausível da maioria dos estudiosos, não um fato. A destruição de Gezer no século X a.C. também é objeto de debate entre arqueólogos sobre a camada e a data.
Salomão tinha a sabedoria, o templo e a promessa, e começou a descer pelo Egito: um casamento aqui, um cavalo ali. Ninguém acorda decidindo se afastar de Deus; vai se afastando por alianças pequenas que parecem sensatas. O Egito de Salomão não chegou como ameaça: chegou como negócio.
22 — HADADE E JEROBOÃOO Egito como refúgio de fugitivos
O Egito de Salomão é um lugar que abriga os inimigos do rei. O primeiro é Hadade, o jovem príncipe de Edom que escapou do massacre de Joabe e fugiu para lá. O Faraó "lhe deu uma casa, e lhe prometeu sustento, e lhe deu uma terra" 1Rs 11.17-18. Hadade ganhou até casamento real: "deu-lhe por mulher a irmã de sua mulher, a irmã de Tafnes, a rainha" 1Rs 11.19, e o filho dele, Genubate, foi criado entre os filhos do Faraó 1Rs 11.20.
O segundo refugiado é bem mais importante. Jeroboão, chefe do trabalho forçado, ouve do profeta Aías que Deus vai rasgar o reino e dar a ele dez tribos 1Rs 11.29-31. Salomão tenta matá-lo:
Quando Salomão morre, Jeroboão volta do Egito 1Rs 12.2, lidera as dez tribos do norte e divide o reino. O fato de que o rei de Israel rebelde tenha passado anos protegido pelo Faraó é a semente de tudo o que vem a seguir.
Para um fugitivo político, o Egito oferecia o que Canaã não dava: distância e proteção. Era um reino forte, rico e fora do alcance de Salomão. Ser acolhido pelo Faraó significava casa, terra, sustento e, com sorte, um casamento. A hospitalidade do Egito sempre veio com uma finalidade: manter na manga um peão que um dia poderia ser útil. É assim que Hadade e Jeroboão são tratados.
A tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) traz, no livro de Reis, uma versão mais longa da história de Jeroboão. Nela, o Faraó Sisaque dá a Jeroboão por esposa uma cunhada sua, chamada Ano, irmã da rainha Tekemina. É uma variante do texto grego que não existe no texto hebraico que usamos.
⚠️ Esse detalhe é um acréscimo da tradução grega, não faz parte do texto hebraico nem das nossas Bíblias. A Escritura que usamos diz só que Jeroboão fugiu para o Egito e ficou lá até a morte de Salomão.
23 — SISAQUE SOBE CONTRA JERUSALÉMO faraó que levou os escudos de ouro
Salomão morre, o reino se divide, e Roboão, seu filho, mal se acomoda no trono. No quinto ano, o homem que tinha acolhido Jeroboão aparece com um exército:
O livro de Crônicas dá mais detalhes. O Faraó vinha "com mil e duzentos carros e com sessenta mil cavaleiros; e era inumerável o povo que vinha com ele do Egito, de líbios, suquitas e etíopes", e "tomou as cidades fortificadas que Judá tinha; e chegou até Jerusalém" 2Cr 12.2-4. O profeta Semaías explica o sentido: "Vós me deixastes a mim, por isso também eu vos deixei na mão de Sisaque" 2Cr 12.5. Os príncipes se humilham, e Deus poupa a cidade da destruição, mas não da perda: "Porém serão seus servos; para que conheçam a diferença da minha servidão e da servidão dos reinos da terra" 2Cr 12.8.
O fim é humilhante e quase cômico: Roboão mandou fazer "escudos de cobre" no lugar dos de ouro, e os guardas os levavam em procissão sempre que o rei ia ao templo, e depois os guardavam de volta 1Rs 14.27-28. Pompa de ouro; realidade de cobre.
"Sisaque" é Šîšaq em hebraico, e a forma bate com o nome egípcio Sheshonq, o fundador da 22ª dinastia. O nome é de origem líbia, de uma família de generais que tinha chegado ao trono do Egito. Fica uma ironia gostosa: o faraó que saqueia Jerusalém vem de uma família de estrangeiros líbios que governava o Egito, e as tropas de Crônicas incluem líbios e etíopes (cuxitas).
Pense no cidadão de Jerusalém assistindo à entrega dos tesouros do templo e do palácio: o ouro de Salomão, aquele de que se falava com orgulho, saindo em carroças para o Egito. A cidade foi poupada, mas o orgulho, não. E há um detalhe humano: o povo vê, todo dia, os escudos de cobre desfilando como se fossem de ouro. Existe um jeito de viver como se nada tivesse acontecido, e é o jeito mais triste.
"Para que conheçam a diferença da minha servidão e da servidão dos reinos da terra." Deus permite que Judá sirva ao Faraó por um tempo para que o povo compare: servir a Deus custa uma vida; servir aos reinos da terra custa tudo. Quem não quer servir ao Senhor acaba servindo a alguém pior. E fecha-se o círculo: o Egito, de onde Deus tirou Israel, volta a cobrar o povo que o esqueceu.
24 — O CANIÇO QUEBRADOQuando Judá confiou no Egito
Jerusalém, 701 a.C. O exército assírio cerca a cidade. Do alto da muralha, o comandante Rabsaqué grita em hebraico, para o povo ouvir, o argumento mais cruel: vocês não têm ninguém. E ele zomba da aliança com o Egito:
A frase é do inimigo, mas o profeta Isaías já tinha dito algo muito parecido. Antes, para o reino do norte, o rei Oseias tinha conspirado enviando mensageiros a "Sô, rei do Egito" e parado de pagar tributo à Assíria 2Rs 17.4. O profeta Oseias fala de Efraim como "uma pomba ingênua, sem entendimento; invocam o Egito, vão para a Assíria" Os 7.11. E a Judá, Isaías dá o aviso mais duro:
Isaías ainda reforça: "Porque os egípcios são homens, e não Deus; e os seus cavalos, carne, e não espírito" Is 31.3. E faz algo extraordinário: anda "três anos nu e descalço, por sinal e prodígio sobre o Egito e sobre a Etiópia" Is 20.3, para mostrar como a Assíria levaria cativos os dois países. Mais tarde, outro profeta dirá algo parecido: "se tornaram um bordão de cana para a casa de Israel. Tomando-te eles pela mão, te quebraste" Ez 29.6-7.
Na hora da crise, a Bíblia registra um Egito presente, mas tarde demais: "ouviu ele dizer que Tiraca, rei da Etiópia, tinha saído para lhe fazer guerra" Is 37.9. Tiraca era um faraó de origem cuxita, o único faraó de dinastia núbia citado na Bíblia.
"Bordão de cana" é, no hebraico, mish'enet qāneh, "apoio de cana". A palavra qāneh é cana, junco, a planta que cresce aos montes nas margens do Nilo. A imagem é de uma crueldade elegante: o Egito é a terra dos juncos, e o seu rei é um junco. Quem se apoia nele não leva só um tombo: a fibra quebrada fura a mão. Na tradução, o Egito vira seu próprio emblema.
Imagine ser um conselheiro de Ezequias em 701. De um lado, a Assíria, o maior exército da época. Do outro, o Egito, vizinho, rico, com cavalos. A tentação é óbvia: mandar embaixadores, juntar forças, conseguir carros. Oseias descreve até a mercadoria: "o azeite se leva ao Egito" Os 12.1, presentes para comprar apoio. É o que qualquer governante sensato faria. E é exatamente o que Isaías chama de falta de fé.
As próprias crônicas do rei assírio Senaqueribe, no famoso Prisma de Taylor (Museu Britânico), registram uma batalha em Elteque contra "os reis do Egito e os arqueiros, carros e cavalos do rei de Meluhha" (a Núbia, isto é, Cuxe), em 701 a.C. A Assíria diz que venceu. Isso combina com o que a Bíblia sugere: o Egito interveio, e não resolveu.
⚠️ A Bíblia, como o prisma, confirma que forças egípcias e cuxitas entraram na campanha, mas cada fonte conta a sua versão. Quanto a Tiraca, os estudiosos discutem se ele já era rei em 701 ou se Reis o chama de "rei" por ser lembrado assim depois; é uma pergunta aberta.
Todo mundo tem um "Egito": o apoio que parece sólido e que, na hora H, se parte e fura a mão. Pode ser dinheiro, contato, diploma, um parente influente. Nada disso é pecado em si. O erro é descansar nele no lugar de Deus. O que você chama de seguro pode ser só uma cana bonita. Ezequias, no fim, orou em vez de negociar, e Jerusalém foi guardada 2Rs 19.14-19.
PARA FIXARO que ficou do capítulo
Genro de Faraó
Um Egito mais fraco deu a filha a um Israel em ascensão. A Lei já avisava sobre cavalos do Egito e mulheres demais Dt 17.16-17.
Refúgio de fugitivos
Hadade, príncipe de Edom, e Jeroboão, chefe do trabalho forçado, acharam casa no Egito. A hospitalidade do Faraó sempre tinha uma finalidade.
Escudos de cobre
Sisaque levou os escudos de ouro, e Roboão pôs cobre no lugar. A cidade foi poupada, mas o orgulho, não.
O caniço bonito
O Egito é a terra dos juncos, e o seu rei é um junco: quem se apoia nele sai com a mão furada Is 36.6. Todo mundo tem um "Egito", o apoio que parece sólido e se parte.
Próximo capítulo: Neco mata o melhor rei, Jeremias é arrastado ao Egito e os profetas dizem o que ninguém esperava ouvir.
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