Os EgípciosCapítulo 9 de 11 ⤓ PDF
A Pedra de Roseta; gravura da Description de l’Égypte a partir de desenho de Jomard
CAPÍTULO 9 DE 11

O que a pá encontrou: pedras e cartas

Roseta, Beni Hasan, Amarna, Merneptá e o relevo de Sheshonq

Uma laje escura num forte francês, tabuinhas de argila achadas por uma camponesa, uma estela com o nome de Israel. O que cada achado prova, e o que não prova.

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No quinto ano do rei Roboão, "Sisaque, rei do Egito, subiu contra Jerusalém" 1Rs 14.25. Cerca de 925 a.C., o faraó manda gravar a campanha numa parede do templo de Amom, em Karnak. A Bíblia conta pelo lado de Jerusalém. A pedra conta pelo lado do Egito.

Este capítulo reúne as pedras e as cartas do Egito que tocam a Bíblia, uma a uma: a Pedra de Roseta, que ensinou o mundo a ler hieróglifos; a pintura de Beni Hasan; os papiros de fronteira; as cartas de Amarna; a estela que cita "Israel"; e o relevo de Karnak. Em cada uma, o que ela prova e o que não prova.

ANTES DOS ACHADOSComo ler uma pedra

Arqueologia não é tribunal que absolve ou condena a Bíblia. É uma lanterna que ilumina o mundo em volta dela. Um achado pode confirmar um detalhe (um nome, uma cidade, um costume), pode calar (o Egito quase nunca escrevia derrotas) e pode abrir um debate honesto. Nos achados abaixo, sempre direi onde está o objeto hoje, o que ele prova e o que ele não prova. Quem promete mais que isso está vendendo livro.

31 — A PEDRA DE ROSETAA chave que reabriu o Egito

Por mais de mil anos, ninguém no mundo sabia ler hieróglifos. As pirâmides, os templos e os papiros eram mudos. Em julho de 1799, soldados franceses de Napoleão, reformando um forte perto da cidade de Rashid (Rosetta), no Delta do Nilo, acharam uma laje escura de granodiorito. Ela trazia o mesmo texto gravado em três escritas: hieróglifos, demótico e grego. Como o grego, os estudiosos conseguiam ler. Era o gabarito que faltava.

O inglês Thomas Young deu os primeiros passos. O francês Jean-François Champollion deu o salto: em 1822, anunciou que os hieróglifos misturavam sons e ideias e que ele conseguia lê-los. A partir dali, todo o Egito voltou a falar.

🏺 O que a pá encontrou

A Pedra de Roseta, de 196 a.C., fica no Museu Britânico, em Londres (EA 24). É um decreto dos sacerdotes egípcios, reunidos em Mênfis, em honra do rei Ptolomeu V. Os franceses a acharam; os ingleses a levaram depois de derrotar a França no Egito (1801). Prova: abriu a leitura de todo o Egito antigo, incluindo a estela de Merneptá, o relevo de Sheshonq e os papiros que aparecem neste livro. Não prova: nada bíblico. Nenhum texto da Pedra de Roseta cita a Bíblia. O que ela faz é nos dar acesso a tudo o mais.

32 — A PINTURA DE BENI HASANSemitas entrando no Egito

No Egito Médio, na margem leste do Nilo, ficam os túmulos escavados na rocha de Beni Hasan. Num deles, o de Khnumhotep II, governador da região, uma parede mostra uma cena que parece ilustrar Gênesis: um grupo de estrangeiros entrando no Egito com seus asnos, mulheres, crianças e instrumentos. A legenda egípcia os chama de Aamu, "asiáticos". São 37 pessoas, lideradas por um homem de nome Abisha, descrito como "chefe de terra estrangeira". Eles trazem presentes: um pigmento para pintar os olhos, o mesmo que os egípcios usavam.

As roupas coloridas, as barbas, as sandálias, a lira, os arcos e as lanças dão ao quadro um jeito de caravana nômade da Palestina. A cena é de c. 1890 a.C., no reinado de Senusret II.

Asiáticos entram no Egito na pintura de Beni Hasan, desenho de Lepsius
Asiáticos (Aamu) chegam ao Egito — túmulo de Khnumhotep II, Beni Hasan — desenho de Carl Richard Lepsius, Denkmäler aus Aegypten und Aethiopien (1849). A pintura original é de c. 1890 a.C. Domínio público.
🏺 O que a pá encontrou

A pintura original continua na tumba 3 de Beni Hasan, no Egito. A cópia que você vê acima foi feita pela expedição prussiana de Lepsius (1842–45) e publicada em 1849. Prova: famílias e clãs de nômades semitas, com burros e rebanhos, entravam no Egito, e os egípcios os registravam. É exatamente o tipo de cena que Gênesis 12, 42 e 46 descrevem, e combina com a data antiga para Abraão e José. Não prova: nada diz que esses homens eram hebreus, nem Abraão, nem José. O próprio título do líder, "governante de terras estrangeiras" (heka khasut), é o que mais tarde deu origem ao nome hicsos.

⚠️ Beni Hasan mostra que aquele mundo existiu, não que aquelas pessoas fossem Israel. É um cenário, não uma prova de pessoas.

33 — NOMES SEMITAS NO PAPIRO E CASAS CANANEIAS NO DELTASemitas dentro do Egito

Outra evidência da presença semita no Egito vem de papéis do dia a dia. O Papiro Brooklyn 35.1446, hoje no Museu do Brooklyn, em Nova York, é uma lista de escravos domésticos de uma casa de Tebas, escrita por volta de 1740 a.C. Dos cerca de 95 nomes, mais de 40 são semitas, entre eles nomes que lembram nomes bíblicos, como Menaém e, segundo alguns estudiosos, Sifrá, o mesmo nome de uma das parteiras do Êxodo.

No Delta oriental, em Avaris (hoje Tell el-Dab'a), o arqueólogo austríaco Manfred Bietak escavou por décadas uma cidade com casas ao estilo cananeu, túmulos com sepulturas de jumentos e cerâmica do Levante. Foi a capital dos hicsos (c. 1650–1550 a.C.), e antes deles já abrigava uma grande população semita desde por volta de 1800 a.C. Num dos túmulos, encontraram um fragmento de estátua de um alto oficial asiático, com cabelo em cogumelo e uma veste colorida.

🏺 O que a pá encontrou

Prova: havia, no Egito do segundo milênio a.C., grandes populações semitas, algumas escravizadas, outras no topo da administração. Isso combina com José (um semita no alto escalão) e com Êxodo 1 (semitas sob corvéia). A estátua do oficial de veste colorida chamou muita atenção por lembrar a "túnica de muitas cores" de José, mas o próprio Bietak é cauteloso quanto a essa ligação. Não prova: que esses semitas fossem israelitas, nem que um deles fosse José.

⚠️ Presença semita no Egito é fato bem documentado. Identificar qualquer indivíduo ou grupo com José ou com Israel é hipótese, e a maioria dos arqueólogos a rejeita por falta de prova. Os papiros também mostram algo importante: escravos semitas existiam, mas só isso.

34 — PI-RAMESSÉS E OS PAPIROS DE FRONTEIRATijolos, fugitivos e pastores de Edom

O Êxodo diz que os hebreus construíram Pitom e Ramessés. A cidade de Pi-Ramessés ("a casa de Ramsés") foi encontrada: fica em Qantir, perto de Tell el-Dab'a, no Delta oriental, e foi a capital que Ramsés II ergueu no século XIII a.C. Era uma metrópole de templos, palácios, oficinas e estábulos para centenas de cavalos de guerra. Já Pitom ("a casa de Atum") é debatida: os candidatos são Tell el-Retaba e Tell el-Maskhuta, no Wadi Tumilat, e os arqueólogos ainda discordam sobre qual é a certa.

Três papiros do final do século XIII a.C. também iluminam o que a Bíblia descreve:

Papiro Anastasi VI (c. 1205 a.C.): um oficial da fronteira anota que tribos de pastores shasu de Edom passaram pela fortaleza de Tjeku para dar de beber aos seus rebanhos nos poços de Pitom, "para que vivessem eles e seu gado" (tradução minha). É Edom, na fronteira, buscando água no Delta, como em Gênesis 12 e 46.

Papiro Anastasi V: um relatório sobre dois servos que fugiram de Pi-Ramessés e são perseguidos até a fronteira. Papiro Leiden 348 (reinado de Ramsés II): ordem de distribuir cereal aos soldados e aos 'apiru que arrastam pedras para as obras do rei.

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Pi-Ramessés está hoje em ruínas em Qantir; os papiros estão no Museu Britânico (Anastasi) e no Museu de Leiden, na Holanda. Prova: o Delta oriental do século XIII a.C. tinha cidades-armazéns, trabalho forçado com estrangeiros, controle de fronteira e pastores semitas pedindo passagem. O nome Pitom aparece num documento egípcio da época. Tudo combina com o cenário de Êxodo 1. Não prova: não cita Israel, Moisés nem as pragas. As 'apiru de Leiden e Anastasi são trabalhadores estrangeiros, mas "'apiru" é um termo social, e não há prova de que seja "hebreu".

⚠️ A semelhança de som entre 'apiru (ou habiru) e 'ibrî ("hebreu") é famosa. Mas a maioria dos estudiosos pensa que "'apiru" era uma classe social (gente sem terra, mercenários, trabalhadores), usada para vários povos, e que "hebreu" é outra coisa, embora talvez relacionada. Continua em aberto.

35 — AS CARTAS DE AMARNAReis de Canaã pedindo socorro ao Faraó

Em 1887, uma camponesa egípcia, escavando perto de Tell el-Amarna, achou tabuinhas de argila com escrita cuneiforme. Eram cerca de 380 cartas do arquivo diplomático do faraó Amenhotep III e de seu filho Akhenaton, de c. 1360–1332 a.C. Estavam escritas em acádio, a língua franca da diplomacia da época. Os remetentes eram reis da Babilônia, da Assíria, dos hititas e, principalmente, pequenos reis de cidades de Canaã, vassalos do Faraó, que pediam tropas e se queixavam de rivais.

Uma dessas cartas vem de Abdi-Heba, rei de Urusalim, isto é, Jerusalém. Ele diz que não herdou a cidade do pai nem da mãe, e que foi o "braço forte" do rei do Egito que o pôs ali (resumo meu). Ele se queixa de bandos chamados habiru que ameaçam a região.

🏺 O que a pá encontrou

As Cartas de Amarna estão em museus de Berlim (a maioria), Londres e Cairo. Prova: Jerusalém já era uma cidade-estado importante c. 1350 a.C., muito antes de Davi; Canaã era, nessa época, território egípcio, com governadores e guarnições. É a base para entender por que Egito e Canaã se cruzam tanto na Bíblia. Não prova: nada sobre israelitas. Não há Israel nas cartas de Amarna.

⚠️ A tentação de ver nos habiru das cartas os hebreus da conquista de Josué é velha, e muita gente ainda a repete. Os estudiosos hoje, de modo geral, a rejeitam: os habiru eram gente de todo tipo, e os nomes que as cartas citam são semitas ocidentais comuns, não nomes bíblicos específicos.

36 — A ESTELA DE MERNEPTÁO nome "Israel" numa pedra egípcia

Em 1896, o arqueólogo inglês Flinders Petrie, escavando em Tebas, achou uma laje de granito negro de uns três metros de altura. Era uma estela do faraó Amenhotep III, reaproveitada por Merneptá, filho de Ramsés II, que mandou gravar no verso um hino de vitória sobre os líbios e seus aliados, no quinto ano de seu reinado (c. 1208 a.C.). No fim do texto, ele lista os povos que o Egito teria derrotado em Canaã. Entre eles:

"Israel está devastado, sua semente não existe mais" (linha 27, tradução minha).

É a mais antiga menção segura da palavra "Israel" fora da Bíblia. (Um pedestal de estátua no Museu de Berlim, talvez um pouco mais antigo, tem um nome que alguns estudiosos leem como "Israel"; a leitura é debatida.)

Transcrição em hieróglifos da inscrição da Estela de Merneptá, prancha de Petrie
Inscrição da Estela de Merneptá — transcrição de W. M. Flinders Petrie, Six Temples at Thebes (1897), prancha XIV. O texto original está gravado em granito, no Museu Egípcio do Cairo. Domínio público.
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A estela está no Museu Egípcio do Cairo (CG 34025). No texto, Gezer, Ascalom e Yenoam são marcadas com o sinal de "cidade". Já "Israel" é marcada com o sinal de povo: um homem, uma mulher e três traços. Os egípcios entendiam "Israel" como um grupo humano, não como cidade-estado. Prova: por volta de 1208 a.C. já existia, em Canaã, um povo chamado Israel, que o Egito julgava digno de listar. Não prova: o Êxodo, as pragas, nem onde Israel esteve antes. A frase "sua semente não existe mais" é exagero de propaganda militar: o povo continuou existindo.

⚠️ O achado pesa no debate sobre a data do Êxodo, e as duas posições o usam (veja a seção sobre a data do Êxodo, no Capítulo 10). Defensores da data antiga dizem que Israel já estava em Canaã desde 1400 e que a estela só confirma. Defensores da data tardia dizem que ela ajusta o prazo: o Êxodo teria sido uns 50 anos antes de 1208.

37 — O RELEVO DE SHESHONQ EM KARNAKO saque de Jerusalém, no templo de Amom

No complexo de templos de Karnak, em Tebas, há uma parede chamada Pórtico Bubastita. Nela, o faraó Sheshonq I (o "Sisaque" da Bíblia) mandou gravar sua campanha em Canaã: ele aparece ferindo inimigos diante do deus Amom, e o deus entrega a ele fileiras de "anéis de nomes", ovais com os nomes de cada cidade conquistada. São mais de 150 nomes, no Négueve, na Sefelá, no vale de Jezreel.

Entre as cidades listadas aparecem lugares bíblicos como Megido, Taanaque, Bete-Seã, Gibeão e Aijalom. Um fragmento de uma estela com o nome de Sheshonq foi achado nas escavações de Megido. A data é c. 925 a.C., que combina com o "quinto ano de Roboão" (1Rs 14.25).

Sheshonq I oferece ao deus Amom, desenho de Ippolito Rosellini a partir de um relevo do Pórtico Bubastita
Sheshonq I (Sisaque) com o deus Amom e o filho Iuput — desenho de Ippolito Rosellini, I Monumenti dell'Egitto e della Nubia (1832), a partir de um relevo do Pórtico Bubastita, Karnak. Note os cartuchos com o nome do faraó. Domínio público.
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O relevo continua no próprio templo de Karnak, em Luxor. Prova: um faraó chamado Sheshonq fez uma campanha em Canaã por volta de 925 a.C. e se orgulhou disso em pedra. É o que a Bíblia diz (1Rs 14.25-26; 2Cr 12). Sheshonq I é o primeiro faraó da Bíblia cuja existência é confirmada por documentos de seu próprio reinado. Não prova: o saque do tesouro do templo de Jerusalém. O nome de Jerusalém não aparece na parte conservada da lista, o que intriga os estudiosos. Há explicações: o trecho pode estar quebrado, ou Roboão pagou tributo e a cidade foi poupada, como o texto bíblico sugere.

⚠️ O fato de o relevo listar também cidades do reino do norte (Megido, Bete-Seã) é um detalhe curioso: o Faraó que tinha acolhido Jeroboão atacou depois o reino dele. A Bíblia só menciona Judá. Em 1828, Champollion, que viu a lista, achou ter lido "rei de Judá" num dos anéis. Hoje os estudiosos leem outro nome, e essa leitura foi abandonada.

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🪨

Roseta abriu a porta

Decreto de 196 a.C. em hieróglifos, demótico e grego; Champollion o decifrou em 1822. Prova: deu acesso a todo o Egito antigo. Não prova: nada bíblico.

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Beni Hasan e os asiáticos

Em c. 1890 a.C., 37 asiáticos entram no Egito com burros e instrumentos. Prova: o mundo de Gênesis existiu. Não prova: que fossem hebreus.

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Amarna e Merneptá

Reis de Canaã pedem socorro ao Faraó, e um deles governa "Urusalim" (c. 1350 a.C.). A estela de Merneptá (c. 1208 a.C.) traz a mais antiga menção segura de "Israel" fora da Bíblia.

🏛️

Sheshonq em Karnak

O primeiro faraó da Bíblia confirmado por documento do próprio reinado. A parte conservada da lista não cita Jerusalém 1Rs 14.25-26.

Próximo capítulo: papiros de Elefantina, a fome do Nilo, quem construiu as pirâmides e o debate honesto sobre a data do Êxodo.

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