Os EgípciosCapítulo 1 de 11 ⤓ PDF
As estátuas de Mêmnon, em Tebas, durante a cheia do Nilo; litografia de Louis Haghe a partir de David Roberts
CAPÍTULO 1 DE 11

Quem eram

O rio, os três mil anos e as palavras do deus

Antes de ver o Egito cruzando a Bíblia, é preciso saber que país era esse: o que o criou, o que ele viveu e como contou a si mesmo.

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Faraó sonha. No sonho, está em pé junto ao rio, e do rio sobem sete vacas, "formosas à vista e gordas de carne" Gn 41.1-2. O cenário não é por acaso. Para um egípcio, todo bem sobe do Nilo: o grão, o gado, o pão, o poder.

É nesse rio que o Egito começa, e é por ele que se explica. Este capítulo percorre três coisas: o país que o Nilo desenhou, os três mil anos de faraós que o governaram e a escrita com que ele contou tudo isso a si mesmo. No fim, uma linha do tempo marca onde a Bíblia cruza cada época.

01 — O DOM DO RIOO país que o Nilo desenhou

Para entender o Egito, comece pelo rio. O Nilo corre do sul para o norte, o que confunde todo mundo: o Alto Egito fica ao sul (rio acima) e o Baixo Egito fica ao norte, onde o rio se abre no Delta antes de chegar ao Mediterrâneo. De Assuã, onde ficava a primeira catarata e a fronteira do sul, até o mar são mais de mil quilômetros de rio. Nas margens, a terra preta e úmida. Passando dela, a terra vermelha: o deserto. Os egípcios tinham nome para as duas: a "terra negra" (kemet), onde se vive, e a "terra vermelha" (deshret), onde se morre ou se foge.

Todo ano, entre julho e outubro, o Nilo transbordava, trazendo as chuvas distantes da Etiópia. Quando as águas baixavam, deixavam uma camada de lama rica. Era só semear. Heródoto, o grego que visitou o Egito por volta de 450 a.C., resumiu num dito famoso que o Egito era "uma dádiva do rio" (Histórias II, 5, tradução minha). Os egípcios dividiam o ano em três estações pelo ritmo do rio: a cheia, a semeadura e a colheita.

A Bíblia sabe disso. Quando Ló olhou para a planície do Jordão, a comparação que veio à cabeça foi esta:

"E levantou Ló os seus olhos, e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada, antes do Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, e era como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, quando se entra em Zoar." Gênesis 13.10

E quando Moisés prepara o povo para a terra prometida, ele faz o contraste inverso: Canaã vive da chuva do céu, o Egito vive do rio e do esforço do homem Dt 11.10-11. Tire o Nilo e o país some. Foi por isso que o Faraó pôde pensar em si mesmo como dono dele. Muitos séculos depois de Moisés, um profeta põe na boca de outro Faraó a frase que resume todo o orgulho do Egito:

"Eis-me contra ti, ó Faraó, rei do Egito, grande dragão, que pousas no meio dos teus rios, e que dizes: O meu rio é meu, e eu o fiz para mim." Ezequiel 29.3
As pirâmides de Gizé vistas do Nilo, litografia de David Roberts
Pirâmides de Gizé, vistas do Nilo — litografia de Louis Haghe a partir de David Roberts (1846), da série Egypt & Nubia; Library of Congress. O rio, as velas e o deserto ao fundo: o Egito inteiro numa cena. Domínio público.

O mapa do país tem poucas cidades que importam para a Bíblia, e quase todas aparecem com nome hebraico: Mênfis (Nofe), capital do Antigo Império, perto de onde hoje está o Cairo; Tebas (Nô ou Nô-Amom), a grande cidade do deus Amom, no sul; Heliópolis (Om ou Áven), a cidade de Rá, ao norte do Cairo moderno; Tânis (Zoã), capital no Delta; e, no extremo sul, a ilha de Elefantina (a "torre de Siene" de Ezequiel), que reencontraremos no Capítulo 10. Perto da fronteira do Sinai fica a terra de Gósen, no Delta oriental: pasto bom, onde a família de Jacó se instalou.

🔎 A palavra original

Quando a Bíblia fala do Nilo, usa quase sempre a palavra ye'ōr (יְאֹר), que a ACF traduz por "rio" (Gn 41.1, Êx 7.17). É uma palavra emprestada do egípcio iteru, "o rio" por excelência. Para o egípcio, só havia um. O Egito aparece também como "as águas de Sior" (Jr 2.18), nome que muitos ligam a uma expressão egípcia ligada a Hórus, num canal do Delta. Outra palavra egípcia escondida no texto: o "prado" onde as vacas do sonho de Faraó pastavam (Gn 41.2) é 'āḥû, ervas de banhado, uma palavra do vocabulário do Nilo que os estudiosos reconhecem como egípcia. O autor de Gênesis conhece o Egito por dentro.

👁️ Como era viver ali

Imagine um lavrador do Baixo Egito. Ele não olha para o céu para saber se vai comer. Olha para o rio. Os faraós mandavam medir a cheia em escadas de pedra à beira da água, os nilômetros: se a água subisse pouco, haveria fome; se subisse demais, destruiria as casas de barro. O medo mais profundo do egípcio comum não era a guerra, era o rio falhar. Todo o cuidado com os deuses da cheia, os hinos ao Nilo e as festas da inundação nascem daí. Agora você entende por que a primeira praga é o rio virando sangue Êx 7.20-21: Deus começa pelo ponto mais sensível do país.

🌱 Semente de sermão

"O meu rio é meu, e eu o fiz." É a frase de todo mundo que esqueceu de quem recebeu. O Egito nunca fez o Nilo; o Nilo veio de lugares onde nenhum faraó mandava. Tudo o que você tem corre de uma fonte que você não controla. O Egito achava que era dono do rio, e o rio era só um empréstimo de Deus.

02 — TRÊS MIL ANOS EM QUATRO ATOSReinos, quedas e dinastias

O Egito antigo durou tanto que fica difícil falar dele como um só. Os historiadores o dividem em fases, a partir da lista de 30 dinastias (famílias reais) que um sacerdote egípcio chamado Manetão escreveu em grego, por volta de 280 a.C. Quase todas as datas abaixo são aproximadas. Uso a cronologia convencional da egiptologia (a que aparece, por exemplo, na Oxford History of Ancient Egypt, de 2000). Dependendo do especialista, uma data pode variar uma ou duas décadas, e as mais antigas variam mais.

Ato 1: o Antigo Império (c. 2686–2181 a.C.). É a era das pirâmides. O rei Djoser mandou construir a primeira, de degraus, em Sacará, c. 2650 a.C., obra do arquiteto Imhotep. Quéops (Khufu) ergueu a Grande Pirâmide de Gizé, c. 2560 a.C. Quando esse reino terminou, vieram décadas de caos e fome (o chamado Primeiro Período Intermediário, c. 2181–2055 a.C.).

Ato 2: o Médio Império (c. 2055–1650 a.C.). Um rei de Tebas reunificou o país. É a era "clássica" da literatura egípcia e dos grandes canais. Os faraós vigiavam suas fronteiras com Canaã e deixavam entrar caravanas de nômades do leste. É nesse cenário que a data antiga coloca Abraão e José, mas a Bíblia não dá nome ao Faraó, e essa cronologia é debatida (veja o Capítulo 10).

Ato 3: o Novo Império (c. 1550–1069 a.C.). Depois de um tempo em que estrangeiros do Levante, os hicsos, governaram o Delta (c. 1650–1550 a.C.), o faraó Amósis os expulsou e fundou o Novo Império. É o auge: Hatshepsut, Tutmés III (que levou os exércitos do Egito até o Eufrates), Amenhotep III, Akhenaton (o faraó que tentou adorar um só deus, o disco solar Aton), Tutancâmon, e depois Seti I e Ramsés II (c. 1279–1213 a.C.), o grande construtor. Seu filho Merneptá é quem deixou a pedra que cita "Israel". É nesse reino, em uma das duas datas, que a maioria dos estudiosos situa o Êxodo.

Ato 4: a Época Baixa (c. 1069–332 a.C.). O Egito vai enfraquecendo e se dividindo. Reis de origem líbia, como Sheshonq I (o "Sisaque" da Bíblia), reinam no Delta. Reis cuxitas, do sul (a atual Núbia), governam o país todo por um tempo, e é um deles, Tiraca, que aparece em Isaías. Depois vem a dinastia de Sais, com Neco II, que mata o rei Josias. Em 525 a.C. o Egito é conquistado pela Pérsia. Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, entra no país e funda Alexandria; seu general Ptolomeu funda uma dinastia grega que governa até Cleópatra VII, que morre em 30 a.C. Aí chega Roma.

👁️ Como era viver ali

O egípcio comum não vivia nas pirâmides. Vivia em casas de tijolo de barro, em aldeias à beira do campo. O pão e a cerveja de cevada eram a base de tudo, tanto que os trabalhadores das obras reais recebiam pagamento em pão e cerveja. Comia cebola, alho, porro, pepino e peixe do rio, que o povo de Israel lembraria com água na boca no deserto Nm 11.5. Vestia linho. Os homens raspavam a cabeça e o rosto para manter limpeza e usavam perucas em festas. Para um camponês, o "Egito faraônico" era sobretudo a fila do imposto e o chamado da corvéia, o trabalho obrigatório para o rei.

03 — AS PALAVRAS DO DEUSHieróglifos, papiro e escribas

Os egípcios chamavam sua escrita sagrada de "palavras do deus" (medu netjer). Foram os gregos que a batizaram de hieroglyphika, "entalhes sagrados", e o nome pegou. Os sinais, de pássaros, olhos, serpentes e juncos, serviam para escrever de pedra de templo a carta do cotidiano. Cada desenho podia significar uma ideia ou um som. Por isso a escrita parece tão misteriosa, e por isso ela foi esquecida por mais de mil anos.

Na prática, os egípcios usavam três escritas ao mesmo tempo: os hieróglifos (nas paredes, em pedra); o hierático, uma versão cursiva, rápida, usada pelos escribas no papiro; e, depois de c. 650 a.C., o demótico, ainda mais cursivo, para a vida civil. Já nos primeiros séculos da era cristã, o egípcio passou a ser escrito com letras gregas, e nasceu o copta, língua dos cristãos do Egito, que ainda é usada na liturgia.

O papel da época era o papiro, feito do talo de uma planta do Nilo, cortado em tiras e prensado. Não é o mesmo que o papel de hoje, mas a palavra "papel" veio dele. Os poucos que sabiam escrever, os escribas, formavam uma elite. Um texto egípcio famoso, a Instrução de Khety (c. 2000 a.C.), faz um elogio exagerado da vida de escriba e debocha de todos os outros ofícios: o ferreiro fede a fumaça, o pedreiro vive em dor nas costas. Era propaganda de escola. E também mostra o mundo em que Moisés foi criado quando, a Bíblia diz, foi "instruído em toda a ciência dos egípcios".

"E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras." Atos 7.22
🔎 A palavra original

A "arca de juncos" em que Moisés flutuou (Êx 2.3) é, no hebraico, uma têvah de gómeʼ: uma "caixinha" de papiro. A palavra têvah só aparece para duas embarcações em toda a Bíblia: a arca de Noé e a de Moisés. Alguns estudiosos ligam têvah a uma palavra egípcia para "caixa, cofre". Em ambas, Deus salva uma vida em cima da água dentro de uma caixa. E o gómeʼ, o papiro, é a planta do Nilo por excelência: Isaías fala de mensageiros que descem o rio "em navios de junco" (Is 18.2).

Um último detalhe. O nome Mosheh, Moisés, pode ser egípcio: em egípcio, mes ou mesu quer dizer "nascido, filho", como em Tutmés ("nascido de Tote") e Ramsés ("nascido de Rá"). O texto bíblico dá uma explicação em hebraico, "das águas o tenho tirado" Êx 2.10, jogando com o verbo mashah, "tirar". Os dois sentidos convivem sem briga.

🌱 Semente de sermão

Deus salva Moisés pelo mesmo rio que o Faraó usou para matar bebês hebreus Êx 1.22. O Nilo, instrumento de morte por decreto, vira o berço do libertador. Deus costuma resgatar usando exatamente o que o inimigo preparou para destruir.

LINHA DO TEMPOO Egito inteiro, com a Bíblia marcada

Datas aproximadas, na cronologia convencional. O símbolo 📖 marca onde o texto bíblico cruza com cada época.

c. 3100 a.C. — Unificação
Os reis do sul e do norte unem o país. A tradição egípcia lembra um rei chamado Menés (Narmer). Começa a era dos faraós.
c. 2686–2181 a.C. — Antigo Império
As pirâmides: Djoser (degraus), Quéops (a Grande Pirâmide, c. 2560 a.C.). O faraó é deus vivo.
c. 2055–1650 a.C. — Médio Império
Reunificação e fronteiras vigiadas. No túmulo de Beni Hasan (c. 1890 a.C.), semitas entram no Egito. 📖 Na data antiga, é aqui o tempo de Abraão e de José (Gn 12; 37–50) — sem Faraó nomeado.
c. 1650–1550 a.C. — Os hicsos
Governantes de origem levantina dominam o Delta, com capital em Avaris. O faraó Amósis os expulsa e abre o Novo Império.
c. 1479–1425 a.C. — Tutmés III
O maior conquistador do Egito, que chega ao Eufrates. 📖 Para os defensores da data antiga, o Êxodo (c. 1446 a.C.) cai no tempo dele e de seu filho Amenhotep II.
c. 1353–1332 a.C. — Amenhotep III, Akhenaton e as cartas de Amarna
Reis de Canaã escrevem ao Faraó pedindo socorro. Um deles governa "Urusalim", Jerusalém. Akhenaton tenta impor o culto do disco solar.
c. 1279–1213 a.C. — Ramsés II
O grande construtor: templos, a nova capital Pi-Ramessés no Delta. 📖 Na data tardia, é o Faraó da opressão (Êx 1.11).
c. 1208 a.C. — Merneptá
Sua estela cita "Israel", já um povo em Canaã. 📖 A primeira menção de Israel fora da Bíblia.
c. 1186–1155 a.C. — Ramsés III
Derrota os "Povos do Mar", entre eles os peleset (filisteus), que se fixam na costa de Canaã.
c. 1069 a.C. — Fim do Novo Império
O país se divide. Começa a Época Baixa (Terceiro Período Intermediário).
c. 986–967 a.C. — Siamun (provável)
📖 Um faraó dessa época dá a filha por mulher a Salomão e entrega a ele a cidade de Gezer (1Rs 3.1; 9.16). O nome do Faraó não é dado.
c. 945–924 a.C. — Sheshonq I (Sisaque)
📖 Acolhe Jeroboão fugitivo (1Rs 11.40) e, c. 925 a.C., sobe contra Judá e Jerusalém (1Rs 14.25-26). Deixa a lista de cidades no templo de Karnak.
c. 744–656 a.C. — Dinastia cuxita
📖 Sô (2Rs 17.4) e Tiraca (2Rs 19.9; Is 37.9), o "caniço quebrado" de Isaías 36.6, c. 701 a.C.
664–525 a.C. — Dinastia de Sais
📖 Neco II mata Josias em Megido (609 a.C.). Hofra (589–570 a.C.) é Faraó quando Jerusalém cai. Jeremias é levado ao Egito (c. 582 a.C.).
525 a.C. — A Pérsia conquista o Egito
Nesse período floresce a colônia militar judaica de Elefantina, com seu templo a Yahu.
332–30 a.C. — Alexandre e os Ptolomeus
Alexandria cresce como centro de ciência e de uma das maiores comunidades judaicas. Ali nasce a tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (séc. III a.C.).
30 a.C. em diante — Roma
O Egito vira província e celeiro de Roma. 📖 A fuga de Jesus ao Egito (Mt 2); egípcios em Jerusalém no Pentecostes (At 2.10); Apolo de Alexandria (At 18.24).

PARA FIXARO que ficou do capítulo

🌊

O Nilo é o país

Sem a cheia do rio, o Egito some. Por isso o medo mais fundo do egípcio era o rio falhar, e por isso a primeira praga mira o Nilo.

⏳

Três mil anos, quatro atos

Antigo, Médio e Novo Império, depois a Época Baixa. Quando Moisés nasceu, as pirâmides já tinham mais de mil anos.

✍️

As palavras do deus

Hieróglifos na pedra, hierático no papiro, demótico na vida civil. Moisés foi "instruído em toda a ciência dos egípcios" At 7.22.

🗺️

Um Egito com nome hebraico

Mênfis é Nofe, Tebas é Nô, Heliópolis é Om, Tânis é Zoã. O autor de Gênesis conhece o país por dentro.

Próximo capítulo: no que os egípcios acreditavam, e por que a Bíblia diz que Deus fez juízos "em todos os deuses do Egito".

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