SOBRE ESTE LIVROO Egito da Bíblia, em poucos minutos
Meia-noite. O silêncio da última noite no Egito se parte de uma vez, e o grito vem de todas as casas ao mesmo tempo.
É a cena mais famosa do Egito na Bíblia, e é só uma parte da história. Antes dela há um rio, um rei que era deus e séculos de faraós. Depois dela, o Egito continua cruzando a Bíblia, até o menino Jesus. Este livro conta tudo isso: quem eram os egípcios, no que acreditavam, cada vez que eles cruzaram o caminho do povo de Deus e o que a pá dos arqueólogos tirou da areia. Se você ler só esta página, já sai com o essencial.
Quem eram. O Egito é uma faixa verde espremida entre dois desertos, e vive de uma cheia que vem de longe. Sem o Nilo, o país some. Por isso um profeta pôs na boca de um Faraó a frase que resume o orgulho do lugar: "O meu rio é meu, e eu o fiz para mim" Ez 29.3. Foram uns três mil anos de faraós, de c. 3100 a.C. até Roma tomar o país, em 30 a.C. Quando Moisés nasceu, as pirâmides já tinham mais de mil anos. E "Faraó" nem é nome: é um título, "a casa grande", o palácio.
No que acreditavam. Esse rei era um deus vivo: o Hórus em carne, o filho de Rá, o sol. Cabia a ele manter a ordem do universo, a Maat. Ao redor dele, centenas de deuses e uma atenção enorme à morte, que na verdade era amor pela vida: o corpo mumificado, o coração pesado numa balança contra uma pena. Agora a pergunta de Faraó a Moisés ganha peso: "Quem é o Senhor?" Êx 5.2 E a resposta de Deus, na noite da Páscoa, também: "em todos os deuses do Egito farei juízos" Êx 12.12. A Bíblia não finge que esses deuses não existiam para os egípcios. Ela responde a eles.
Cada vez que cruzam a Bíblia. Abrão desce ao Egito fugindo da fome, mente por medo e é repreendido por um Faraó Gn 12.10-20. Agar, a serva egípcia, é uma das raras pessoas na Bíblia que dão um nome a Deus: "Tu és Deus que me vê" Gn 16.13. José, vendido pelos irmãos, sobe do cárcere ao trono, e a família de Jacó vira povo em Gósen. Então se levanta "um novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José" Êx 1.8: tijolos, parteiras que disseram não, um bebê numa cesta de juncos, um príncipe que escolheu o povo escravo. Dez pragas. Sangue na porta. Um mar aberto, e os carros de Faraó no fundo dele.
Mesmo livre, Israel não se livrou do Egito. Salomão casou com a filha de um Faraó 1Rs 3.1. No quinto ano de Roboão, o Faraó Sisaque subiu contra Jerusalém e levou os escudos de ouro 1Rs 14.25-26. Depois, Judá se acostumou a pedir socorro ao Egito. Isaías avisou: "Ai dos que descem ao Egito a buscar socorro" Is 31.1. E o comandante assírio zombou do Faraó: "bordão de cana quebrada" Is 36.6. Josias saiu ao encontro do Faraó Neco, em Megido, e não voltou 2Rs 23.29. Jeremias foi arrastado até Tafnes por um povo que pediu o seu conselho e não o ouviu Jr 43.5-7. E no meio de tanto juízo, Isaías deixou escapar a frase mais inesperada: "Bendito seja o Egito, meu povo" Is 19.25.
No Novo Testamento, o Egito volta como abrigo. Um anjo avisa José em sonho, e o menino Jesus desce ao Egito, fugindo de Herodes: "Do Egito chamei o meu Filho" Mt 2.15. Apolo, de Alexandria, "eloqüente e poderoso nas Escrituras" At 18.24, foi quem "regou" em Corinto o que Paulo plantou 1Co 3.6.
O que a pá encontrou. A arqueologia confirma muita coisa e cala em outras, e este livro diz sempre qual é qual. Uma estela do faraó Merneptá, de c. 1208 a.C., traz a mais antiga menção segura de "Israel" fora da Bíblia. O relevo de Sheshonq, em Karnak, lista cidades de Canaã que ele tomou por volta de 925 a.C.: é o Sisaque de Reis. As cartas de Amarna mostram reis de Canaã pedindo socorro ao Faraó, e uma delas vem de "Urusalim", Jerusalém. Mas nenhum texto egípcio fala das pragas, de Moisés ou do Êxodo, e há um debate honesto sobre a data: c. 1446 a.C. ou c. 1260–1250 a.C. O livro mostra as duas posições e não fecha o que a Bíblia não fecha.
Como isso muda sua leitura. Você vai notar, no "barbeou-se" de Gênesis 41.14, um autor que conhece o palácio por dentro. Vai ouvir, na vara de Arão que engole as varas dos magos, o recado de uma cobra que o Faraó trazia na testa. Vai ler "casa da servidão" sabendo que o hebraico diz "casa de escravos". E vai ver que, na Bíblia, o Egito é muitas coisas: prisão para os hebreus, abrigo para Jesus, aliança falsa para Judá e, no último versículo em que aparece, um símbolo Ap 11.8. O mesmo Deus que tirou Israel do Egito pôs o próprio Filho, menino, a caminho de lá.
ANTES DE COMEÇARO mapa para não se perder
Na Almeida Corrigida Fiel, a palavra "Egito" aparece umas 600 vezes e "Faraó", quase 280. Nenhum outro país estrangeiro pesa tanto na Bíblia. É o lugar onde a família de Jacó virou povo, a fábrica de tijolos onde esse povo gemeu, o aliado em quem Judá confiou sem dever, o refúgio onde profetas e um bebê se esconderam. Antes de entrar nas cenas, fixe estes seis cartões.
Onde
Uma faixa verde e estreita de lavoura ao longo do Nilo, que se abre em leque no Delta, cercada de deserto dos dois lados. Chuva quase não existe: o país vive da cheia do rio.
Quando
Dos primeiros reis, c. 3100 a.C., até Roma tomar o país em 30 a.C. Quando Moisés nasceu, as pirâmides de Gizé já tinham mais de mil anos.
Por que importa na Bíblia
Egito é abrigo (Abraão, José, Jesus), prisão (Êxodo), aliança falsa (Isaías, Jeremias) e símbolo (a "casa da servidão"). Quase tudo o que Israel sabe de si começa ali.
O momento mais famoso
A noite da Páscoa e a travessia do mar: dez pragas, o primogênito de cada casa, e os carros de Faraó afogados Êx 12–14.
"Faraó" não é nome
É um título. A Bíblia só dá nome a cinco deles: Sisaque, Sô, Tiraca, Neco e Hofra. O Faraó de José e o do Êxodo ficam sem nome, e é por isso que a data do Êxodo é um debate.
A prova fora da Bíblia
A mais antiga menção segura da palavra "Israel" fora da Bíblia está numa pedra egípcia: a Estela de Merneptá, c. 1208 a.C.
O hebraico chama o Egito de Mitsráyim (מִצְרַיִם). A terminação -áyim é de "dual", a forma gramatical para pares. Muitos estudiosos pensam que ela lembra as "duas terras" do Egito, o Alto e o Baixo. É uma explicação provável, não certa. O nome aparece já na tabela dos povos, como filho de Cão Gn 10.6. Quando você lê "Egito" no Antigo Testamento, quase sempre é Mitsráyim. O poético "terra de Cão" (Sl 105.23) aponta para a mesma genealogia.
Os próprios egípcios chamavam o país de Kemet, "a terra negra", pela lama fértil que o rio deixava. O nome "Egito" que usamos veio dos gregos, que diziam Aígyptos, a partir de uma expressão egípcia ligada à cidade de Mênfis. E a palavra Par'ōh, "Faraó", é egípcia por dentro: vem de per-aa, "a casa grande", o palácio. Só mais tarde o nome do prédio virou o nome de quem morava nele.
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