Abraão tinha escravos?
Redação Bíblia Strong ·Sim. A casa de Abraão tinha gente que não era livre, e a Bíblia conta isso sem esconder. Mas “escravo” no antigo Oriente nem sempre era o que a palavra lembra hoje, e a Bíblia também não faz de tudo isso um modelo. Vamos por partes.
O que o texto diz. Quando Abrão está no Egito, ele passa a ter “ovelhas, vacas, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos” (Gn 12:16). Para resgatar Ló, “armou os seus criados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito” (Gn 14:14). E em Gênesis 17:23 Abraão circuncida “todos os nascidos na sua casa, e a todos os comprados por seu dinheiro”. Ou seja: uns nasciam na casa, outros eram comprados. Os comprados também entravam na aliança de Deus (Gn 17:13).
A palavra. O hebraico usa o mesmo termo, ʽebed, para quem trabalha para alguém, seja empregado, servo de confiança ou escravo comprado. A ACF mostra isso: em Levítico 25 o mesmo termo sai como “escravo” (v. 39), “serviço” (v. 41) e “servos” (v. 42). A mesma palavra descreve até quem serve a Deus. Por isso o contexto é que diz o que cada caso era.
Agar. O caso mais duro é o dela. Sarai, sem filhos, diz a Abrão: “toma, pois, a minha serva” (Gn 16:2). Mais tarde, Abrão diz: “Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom é aos teus olhos. E afligiu-a Sarai, e ela fugiu” (Gn 16:6). A Bíblia não elogia nada disso. Mostra o sofrimento, e mostra Deus indo atrás da fugitiva: “Tu és Deus que me vê” (Gn 16:13). Anos depois, expulsa com o filho, ela ouve: “Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino” (Gn 21:17).
O que a Lei de Moisés fez. Ela veio séculos depois de Abraão e colocou freios. O hebreu que se vendia por dívida servia seis anos e saía livre, e não de mãos vazias (Dt 15:12-14). Quem sequestrasse um homem para vendê-lo “certamente será morto” (Êx 21:16). O servo ferido no olho ou no dente saía livre (Êx 21:26-27). E o fugitivo não era devolvido ao dono: “não o oprimirás” (Dt 23:15-16).
Sem dourar a pílula. A mesma Lei permite comprar escravos de outras nações e deixá-los de herança (Lv 25:44-46), e, sobre o servo ferido com pau que sobrevive um ou dois dias, diz: “não será castigado, porque é dinheiro seu” (Êx 21:21). Se ele morrer na hora, o dono “será castigado” (Êx 21:20). Ou seja, a Lei limitou a escravidão, mas não a aboliu. Nada disso se compara à escravidão que o Brasil conheceu, feita à base de sequestro e venda de gente, algo que o texto de Êxodo 21:16 condena. O Novo Testamento também condena os “roubadores de homens” (1Tm 1:10).
O Novo Testamento. Paulo manda Onésimo, escravo que fugiu, de volta a Filemom: “Não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado” (Fm 1:16). Aos senhores ele diz: “fazei o que for de justiça e eqüidade a vossos servos” (Cl 4:1). E em Cristo cai o muro: “não há servo nem livre” (Gl 3:28). Paulo não escreve uma lei de abolição, mas coloca o escravo e o senhor como irmãos, e isso mina o sistema por dentro.