O SENHOR é o meu pastor: o que significa "nada me faltará"
Redação Bíblia Strong ·Poucos textos da Bíblia são tão conhecidos quanto a primeira linha do Salmo 23: "O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará." Muita gente a sabe de cor desde a infância. Justamente por isso vale lê-la devagar.
O salmo começa pelo nome de Deus. Onde a ACF escreve "SENHOR", em maiúsculas, o hebraico traz o nome próprio de Deus, YHWH, o nome revelado a Israel. Quem pastoreia não é uma divindade qualquer, mas o Deus da aliança, que se fez conhecer na história do seu povo.
Depois vem a imagem central. A palavra traduzida por "pastor" vem de um verbo que o léxico define como apascentar, pastorear, cuidar. O pastor não é apenas o dono do rebanho: é quem conduz, procura pasto e água, protege e acompanha. Os versículos seguintes desdobram exatamente isso: "Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome."
Só então se entende o "nada me faltará". O verbo hebraico significa carecer, faltar. A frase é a conclusão de quem confia no cuidado do pastor, não uma lista de desejos garantidos. O que não falta à ovelha é aquilo que o pastor providencia para o caminho: alimento, descanso, direção. O próprio salmo, dois versículos depois, fala do "vale da sombra da morte" (v. 4). A promessa não é de uma vida sem vales, mas de não atravessá-los sozinho: "porque tu estás comigo".
Há também algo pessoal na frase. A Bíblia usa a imagem do pastor para o povo inteiro, como no Salmo 80, que chama Deus de "pastor de Israel". Aqui, porém, o salmista diz "meu pastor". A confiança de um povo vira confiança de uma pessoa, que conhece o cuidado de Deus por experiência própria.
Ler o versículo assim protege de dois erros. O primeiro é transformá-lo em promessa de prosperidade: "nada me faltará" não significa riqueza nem ausência de perdas. O segundo é esvaziá-lo, como se fosse só poesia bonita para momentos tristes. O texto afirma algo concreto sobre Deus: ele cuida, conduz e não abandona os seus no caminho.
Talvez a melhor forma de ler o Salmo 23:1 seja como a confissão de quem já caminhou um bom trecho com Deus. Não é a frase de quem nunca passou necessidade, mas de quem descobriu que, mesmo nos vales, o pastor continuava presente.