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A queda de Simão, o Mago, diante de Pedro e Paulo, pintura de Benozzo Gozzoli
RAIO-X BÍBLICO · ANTAGONISTAS · ESTUDO COMPLETO

Simão, o Mago

o homem que quis comprar o Espírito Santo

Ele tinha a cidade inteira nas mãos: "desde o menor até ao maior", todos o ouviam e diziam que ele era "a grande virtude de Deus". Então chegou um pregador sem fama chamado Filipe, e Samaria mudou de dono. Simão creu, foi batizado, passou a andar colado em Filipe — e, quando viu que os apóstolos davam o Espírito Santo pela imposição das mãos, ofereceu dinheiro. A resposta de Pedro é uma das frases mais duras do Novo Testamento. A última palavra de Simão é um pedido: "Orai vós por mim". Depois disso, o texto cala. Este estudo percorre cada versículo da cena, a pergunta honesta sobre a fé dele, as leituras sobre a imposição de mãos, os ecos em Elimas, em Éfeso e em "de graça recebestes", a palavra "simonia" — e o que a lenda inventou para preencher o silêncio.

⏱ Leitura longa e profunda · 4 obras de arte · 4 camadas de estudo · 1 cena bíblica, muitos ecos
Cartão de visita
Nome
Simão — forma grega do hebraico Shim'on, "ouviu" (Gn 29.33). O mesmo nome de Pedro. "Mago" vem do verbo mageúō, "praticar magia" (At 8.9)
Origem
Samaria — "naquela cidade" (At 8.9). A Bíblia não diz de que família ou aldeia; "Gitta" é informação de Justino, não de Lucas
Época
Logo depois da morte de Estêvão e da grande perseguição em Jerusalém (At 8.1)
Contra quem lutou
Contra ninguém, abertamente: aproximou-se da igreja, foi batizado e acompanhou Filipe. O conflito é com Pedro e João, na hora da oferta
Arma principal
As "artes mágicas" e a fama de ser "grande": uma cidade inteira ouvindo-o havia muito tempo
O crime mais conhecido
Oferecer dinheiro pelo poder de dar o Espírito Santo a quem ele impusesse as mãos (At 8.18-19)
Como terminou
O texto não diz. A última palavra dele é "Orai vós por mim ao Senhor". O resto é tradição e lenda
Onde está na Bíblia
Só em At 8.4-25 (é a única passagem que o nomeia); ecos em At 13.6-12 (Elimas), At 19.18-19 (Éfeso) e Mt 10.8

Como ler este estudo — as 4 camadas

🔎 A Lente do Grego — o que a palavra original revela e o texto em português esconde.
💗 O Coração do Antagonista — como alguém chega até aqui: o medo, a ferida, a escolha.
🌱 Semente de Sermão — um gancho que já nasce pregação pronta.
📜 Segundo a Tradição — o que vem dos Pais da Igreja, da história e da lenda, não da Bíblia.

ANTES DE COMEÇARO mapa de um homem que só aparece uma vez

Simão, o Mago, tem exatamente uma cena na Bíblia: dezesseis versículos, de Atos 8.9 a 8.24. Tudo o que o mundo "sabe" sobre ele além disso — o voo sobre Roma, a companheira Helena, o título de "pai das heresias" — vem de fora da Escritura, escrito décadas ou séculos depois. Antes de entrar na cena, fixe o mapa:

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A cena

Atos 8.4-25: a perseguição espalha a igreja, Filipe desce a Samaria, Simão crê, os apóstolos chegam, a oferta de dinheiro, a resposta de Pedro At 8.4-25.

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Os dois espelhos

Outro mago, Elimas, enfrenta Paulo em Pafos At 13.6-12. Em Éfeso, magos queimam os próprios livros At 19.18-19. O mesmo mundo, desfechos diferentes.

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A frase de fundo

"De graça recebestes, de graça dai" — Jesus aos Doze, entre eles Pedro e João Mt 10.8. É a lei que Simão tropeça.

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O que veio depois

Justino, Ireneu e os Atos de Pedro fabricaram um Simão de lenda. A igreja, por sua vez, deu o nome dele a um pecado: a simonia. Nada disso é Escritura.

🔎 A lente do grego

Lucas dá a Simão um verbo que aparece uma única vez no Novo Testamento: mageúō, "praticar magia", no particípio "mageúōn" de At 8.9. O substantivo ligado a ele, mágos, aparece seis vezes: quatro em Mateus 2 (os "magos" que vêm adorar o menino Jesus, Mt 2.1) e duas em Atos 13, para Elimas (At 13.6, 13.8). A palavra veio do Oriente, provavelmente da casta de sacerdotes-astrólogos dos persas e medos. Em Mateus ela designa estrangeiros sábios que fazem a coisa certa. Em Atos, quem leva o rótulo de mágos (Elimas) é adversário dos apóstolos, e o verbo ligado a ele descreve Simão. Por isso "mago" sozinho não é veredito: o que pesa é o que o homem faz com o ofício.

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Parte I
Samaria — o homem e a cidade

01 — A PERSEGUIÇÃO ESPALHAFilipe desce a estrada

Os homens piedosos acabaram de enterrar Estêvão e "fizeram sobre ele grande pranto" At 8.2. Em Jerusalém, o ar tem cheiro de medo. Saulo, que "consentiu na morte dele", agora entra de casa em casa, arrastando homens e mulheres para a prisão At 8.1,3. Quem pode, foge. E Lucas anota um detalhe que a gente costuma pular: "todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos" At 8.1. Quem sai de Jerusalém não é a liderança. São os leigos, os comuns — e um deles é Filipe.

Este Filipe não é o apóstolo. É um dos sete escolhidos para servir às mesas, um dos sete "homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria" At 6.3,5. Tempos depois Lucas ainda o chamará de "Filipe, o evangelista" At 21.8. Ele toma a estrada que desce de Jerusalém — e Lucas usa o verbo certo: Jerusalém fica no alto, quem vai a Samaria desce.

"Mas os que andavam dispersos iam por toda a parte, anunciando a palavra. E, descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo." Atos 8.4-5
🔎 A lente do grego

"Dispersos" em At 8.1 é diesparēsan, do verbo diaspeírō, "espalhar" — o mesmo campo da palavra para "semear" (speírō). Em At 8.4, os dispersos "iam por toda a parte, anunciando" — euangelizómenoi, "evangelizando". Dá para ouvir a imagem: o que Saulo faz para esmagar a igreja funciona, na prática, como a mão que joga a semente. O vento da perseguição carrega o evangelho para onde nenhum plano de missão tinha conseguido levá-lo.

🌱 Semente de sermão

O capítulo começa com um enterro e uma perseguição e termina com "grande alegria naquela cidade". Deus não precisa de condições ideais: ele usa o espalhamento que parecia derrota. E repare em quem foi: não foi o apóstolo, foi o homem que servia às mesas. Quando a porta grande se fecha, o evangelho passa pela cozinha.

02 — A TERRA QUE ELES CONTORNAVAMPor que Samaria era um escândalo

Para entender por que a cena de Filipe é um terremoto, volte a um meio-dia quente, junto a um poço. Um judeu cansado de caminhar senta-se à beira da fonte de Jacó e pede água a uma mulher de Samaria Jo 4.6-7. A reação dela diz tudo: "Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos)" Jo 4.9.

De onde vinha essa muralha? Quando o reino do norte caiu, o rei da Assíria "trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel" 2Rs 17.24. Os novos moradores se misturaram com o que restou, e a Escritura resume o resultado com uma frase dura: "Assim temiam ao Senhor, mas também serviam a seus deuses" 2Rs 17.33. Para os judeus do tempo de Jesus, samaritano era meio-parente e meio-estrangeiro, e o desprezo era mútuo. Entre as acusações lançadas contra Jesus está esta: "Não dizemos nós bem que és samaritano, e que tens demônio?" Jo 8.48. A mulher do poço ainda aponta o monte ao lado — "Nossos pais adoraram neste monte" Jo 4.20 —, porque o culto deles era no Gerizim, não em Jerusalém.

O próprio Jesus, quando mandou os Doze pela primeira vez, pôs uma cerca temporária: "Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos" Mt 10.5. E houve uma aldeia samaritana que fechou a porta para ele "porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém"; Tiago e João perguntaram, indignados: "Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?" — e Jesus os repreendeu Lc 9.52-55.

Mas há um outro lado nessa história. Em Sicar, depois do diálogo, "muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele" e rogaram que ficasse; ele ficou dois dias Jo 4.39-40. E antes de subir ao céu, Jesus lança o mapa da missão em círculos que se alargam:

"Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra." Atos 1.8

Jerusalém, Judeia, Samaria, confins da terra. Samaria é a segunda curva — e a primeira que atravessa a linha do preconceito. Quando Filipe desce a estrada, o livro de Atos mostra o plano de Jesus andando.

📜 Segundo a tradição

Segundo o historiador judeu Flávio Josefo (séc. I), o rei judeu João Hircano destruiu o templo samaritano do monte Gerizim por volta de 110 a.C. — uma ferida que ninguém esquecia. Josefo também conta que Herodes, o Grande, reconstruiu a antiga cidade de Samaria e a rebatizou Sebaste ("Augusta", em honra do imperador Augusto). É possível que a "cidade de Samaria" de At 8.5 seja essa Sebaste; mas Lucas não explica qual cidade, e a identificação é só uma hipótese.

⚠️ Gerizim, Hircano e Sebaste vêm de Josefo (história), não da Bíblia. Atos 8.5 diz apenas "a cidade de Samaria"; qual era a cidade exata o texto não afirma.

🌱 Semente de sermão

Cada igreja tem as suas "Samarias": o grupo de gente que a gente contorna sem sequer decidir isso em voz alta. Tiago e João já quiseram mandar fogo sobre um povoado samaritano; poucos capítulos depois de Atos 8, esse mesmo João volta para pregar o evangelho "em muitas aldeias dos samaritanos" At 8.25. Deus não aprova a fronteira que você traçou na sua cabeça. Ele manda gente que a atravesse.

03 — O HOMEM QUE TODOS OUVIAM"Este é a grande virtude de Deus"

Chega a Samaria um pregador, e a primeira coisa que Lucas apresenta não é Filipe. É um homem que já estava lá. Qualquer morador da cidade saberia dizer o nome dele de olhos fechados: Simão.

"E estava ali um certo homem, chamado Simão, que anteriormente exercera naquela cidade a arte mágica, e tinha iludido o povo de Samaria, dizendo que era uma grande personagem; Ao qual todos atendiam, desde o menor até ao maior, dizendo: Este é a grande virtude de Deus. E atendiam-no, porque já desde muito tempo os havia iludido com artes mágicas." Atos 8.9-11

Lucas é econômico. Não descreve um único truque. Não diz como ele fazia, o que fazia, quanto cobrava — e não vale a pena inventar. O que ele registra é o efeito: um homem com a atenção de uma cidade inteira, "desde o menor até ao maior", e "desde muito tempo". Não era um showman de passagem. Era uma instituição.

E repare em quem fala o título. O texto diz que Simão afirmava ser "uma grande personagem" ("alguém grande", literalmente). Mas a frase "Este é a grande virtude de Deus" sai da boca do povo. Dá para ler de dois jeitos, e o texto não escolhe: ou Simão alimentava essa fama, ou deixava que ela crescesse sem corrigir. A tradição posterior vai dizer que ele se proclamava Deus, mas isso é de Ireneu e Justino, não de Lucas.

🔎 A lente do grego

Três palavras guardam o segredo desta cena. Primeira: "exercera a arte mágica" é um único verbo, mageúōn (veja "O mapa", acima). Segunda: o verbo que a ACF traduz por "iludir" é existánōn (v. 9), do verbo existēmi, que quer dizer, literalmente, "tirar do lugar, deixar fora de si, assombrar". A ideia de engano vem do contexto e da tradução; a palavra, por si, diz que Simão deixava as pessoas de queixo caído. Guarde isso: o mesmo verbo vai voltar três versículos adiante, e dessa vez com Simão como sujeito. Terceira: "a grande virtude de Deus" é hē dýnamis toû Theoû hē kaloumenē Megálē — literalmente "o Poder de Deus, o chamado Grande". Dýnamis é "poder", a mesma raiz de "dinamite" e "dinâmico". A ACF não traz o "chamado" (kaloumenē) porque segue o Texto Recebido; os manuscritos mais antigos e as edições críticas do grego trazem a palavra. Alguns estudiosos suspeitam que "a Grande" fosse título corrente para um poder divino em ambientes samaritanos; a evidência é indireta, e Lucas não explica. O que ele deixa claro é o jogo de palavras: "Poder" vai ser a palavra que Simão ouve, vê e tenta comprar.

💗 O coração do antagonista

Não sabemos quase nada do passado de Simão: não sabemos de onde veio, se foi pobre, se teve uma ferida, se começou com algo honesto. O texto só mostra onde ele chegou: no topo de uma cidade. Mas o texto mostra uma coisa a mais: ele dizia ser "alguém grande". Toda a vida dele se organizava em torno de uma pergunta — "quem sou eu diante dos outros?" — e a resposta que vinha de baixo era sempre a mesma: "o Poder de Deus". Quem cresce dentro de um aplauso assim aprende a medir a vida pela atenção. Guarde isso, porque é o cenário em que o Evangelho vai chegar: uma cidade que tinha parado de olhar para ele.

04 — O PALCO MUDA DE DONOFilipe chega, e a cidade olha para outro lado

Filipe não tem fama, nem título, nem "poder" anunciado. Tem uma mensagem e as mãos de Deus por trás. E a cidade vira a cabeça.

"E, descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo. E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia; Pois que os espíritos imundos saíam de muitos que os tinham, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos eram curados. E havia grande alegria naquela cidade." Atos 8.5-8

Lucas continua: "Mas, como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus, e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres" At 8.12. Veja o contraste que o texto monta, sem dizer em voz alta. De um lado, um homem que se apresentava como "alguém grande" e deixava o povo assombrado. Do outro, um pregador que fala de Cristo, do reino de Deus e do nome de Jesus, e a cidade responde com alegria. Assombro e alegria não são a mesma coisa: o assombro alimenta quem faz o espetáculo, a alegria alimenta quem recebe a graça.

🔎 A lente do grego

"Atendiam" (v. 10-11) e "prestavam atenção" (v. 6) são a mesma palavra: prosécho, literalmente "manter a mente voltada para". Lucas usa o mesmo verbo para o povo em volta de Simão ("ao qual todos atendiam", "atendiam-no") e para o povo em volta de Filipe ("prestavam atenção ao que Filipe dizia"). Não é descuido: é o narrador mostrando uma transferência de atenção. A cidade inteira, que olhava para Simão, agora olha para Filipe. E olhar para Filipe é olhar, por ele, para Jesus.

💗 O coração do antagonista

Imagine perder a atenção que sustentou a sua identidade por anos. O texto não diz que Simão ficou com raiva, nem que sentiu inveja; não vamos inventar. O que ele registra é uma decisão: Simão não foi embora, não atacou Filipe, não montou uma disputa. Ele fica. Isso pode ser humildade verdadeira — ou o instinto de quem sabe que, se não pode ficar à frente, é preciso ficar perto de onde a atenção está. Do lado de fora, as duas coisas se parecem. Só o coração separa as duas.

05 — "E CREU ATÉ O PRÓPRIO SIMÃO"A pergunta honesta: a fé dele era real?

A água. Homens e mulheres entrando um depois do outro, saindo molhados, rindo ou chorando. E, entre eles, aquele que a cidade inteira conhecia pelo nome.

"Mas, como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus, e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres. E creu até o próprio Simão; e, sendo batizado, ficou de contínuo com Filipe; e, vendo os sinais e as grandes maravilhas que se faziam, estava atônito." Atos 8.12-13

É a frase mais debatida da vida de Simão: "E creu até o próprio Simão". Se Lucas quisesse que o leitor duvidasse, bastava escrever outra coisa. Em vez disso, escreve que ele "creu" e foi "batizado" e "ficou de contínuo com Filipe". É por isso que a pergunta se impõe: a fé de Simão era real?

🔎 A lente do grego

Cinco detalhes do verso 13 pesam na pergunta. (1) "Creu" é epísteusen, o mesmo verbo que Lucas acabou de usar para os outros samaritanos no v. 12 (epísteusan, "creram em Filipe"). Se Lucas queria distinguir a fé de Simão da dos outros, não usou a gramática para isso. (2) "Ficou de contínuo" é ēn proskarterôn: "estava perseverando, grudado" — o mesmo verbo que Lucas usa para a comunidade que "perseverava" na doutrina dos apóstolos em At 2.42. (3) "Vendo" é theōrôn, "contemplando". Simão não só viu: ficou contemplando sinais (sēmeîa) e "grandes poderes" (dynámeis megálai) — repare: dýnamis megálē era o título dele no v. 10; agora ele olha "grandes dýnameis" que não vêm dele. (4) "Estava atônito" é exístato, do verbo existēmi. É o mesmo verbo do v. 9 e do v. 11, só que agora o sujeito é Simão: o homem que deixava o povo de queixo caído agora está de queixo caído. Lucas fecha o círculo com uma palavra. (5) Compare com João 2.23-24: "muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles". Ali o verbo "vendo" também é theōroûntes, e "creram" é epísteusan; e o texto acrescenta que Jesus "não confiava neles" — o verbo "confiar" é, curiosamente, o mesmo pisteúō, "crer". As duas passagens juntam ver sinais e crer. O que fazer dessa semelhança é justamente o que o leitor precisa pesar.

A pergunta divide leitores sérios desde os primeiros séculos. Aqui estão as leituras, com o que cada uma enxerga e o que cada uma precisa explicar. Este estudo não vai escolher por você:

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Leitura 1: um crente verdadeiro que tropeçou

Lucas usa o mesmo verbo "creu" para Simão e para os outros samaritanos. Quem lê assim (muitas leituras arminianas, wesleyanas e de "graça livre") entende que Simão creu de verdade e depois caiu num pecado grave. Ela precisa explicar por que Pedro diz "não tens parte nem sorte" e "teu coração não é reto" At 8.21.

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Leitura 2: uma fé de assombro, sem entrega

É uma leitura comum na tradição reformada ("fé temporária") e em vários Pais da igreja: Simão ficou encantado com o poder, mas nunca se rendeu à pessoa. Cirilo de Jerusalém (séc. IV) diz que Simão foi à água, "mas não foi iluminado". João 2.23-25 dá apoio. Ela precisa explicar por que Lucas usou o mesmo verbo "creu" sem nenhum aviso At 8.13.

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Leitura 3: fé no poder, não na pessoa

Uma saída intermediária: ele creu que Jesus tinha mais poder que ele — e isso é verdade — mas continuou pensando em "poder" como mercadoria. Ela dá conta do v. 13 e do v. 19, mas precisa explicar o que separa "fé" de "fé verdadeira" sem acrescentar ao texto algo que Lucas não escreveu.

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Leitura 4: o texto deixa a porta aberta

Pedro não diz "você nunca foi cristão". Diz: "Arrepende-te, pois, dessa tua iniqüidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado" At 8.22. Quem lê assim vê Simão como alguém que ainda estava ao alcance do perdão — quer a fé tenha sido real ou não. Ela precisa explicar o "porventura" e por que Pedro fala em "perdão" para quem, na leitura 2, nunca teria crido.

O que o texto permite afirmar com segurança: Simão creu (o verbo é o mesmo dos outros), foi batizado, ficou perto de Filipe e se assombrou. E o que o texto não diz: não diz "foi uma fé falsa", nem "foi uma fé verdadeira". O que vem a seguir é o único teste que Lucas oferece.

💗 O coração do antagonista

Qualquer que seja a leitura que você preferir, repare no primeiro passo do caminho: "vendo os sinais e as grandes maravilhas que se faziam, estava atônito". O que prendeu Simão não foi o que Filipe dizia (Cristo, o reino, o nome), mas o que ele via (o poder). É um começo muito honesto e muito comum: a gente se encanta primeiro com o que impressiona. O problema não é começar pelo encantamento. O problema é nunca passar dele. Nenhum dos passos anteriores era um crime. Era só um homem de queixo caído diante de um poder que ele conhecia por profissão, e que agora via em ação sem truque.

🌱 Semente de sermão

Seja qual for a leitura que você prefira, a cena avisa: ter na ficha o verbo "creu" e a água do batismo não dispensa ninguém de examinar o coração. O Novo Testamento repete esse aviso de vários jeitos, de "Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome?" Mt 7.22 a "saíram de nós, mas não eram de nós" 1Jo 2.19. E o mesmo texto pede cuidado do outro lado: não sejamos nós a fechar a porta que Pedro deixou aberta no v. 22.

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Parte II
O dinheiro e a resposta

06 — OS APÓSTOLOS DESCEMPedro e João a caminho de Samaria

A notícia sobe a estrada de volta a Jerusalém, mais rápida que qualquer pessoa. Os apóstolos, que tinham ficado na cidade durante a perseguição, ouvem algo que ninguém esperava ouvir tão cedo.

"Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Os quais, tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo (Porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus). Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo." Atos 8.14-17

Duas surpresas num só texto. A primeira: Samaria "recebera a palavra de Deus" — a mesma expressão que Atos 11.1 usará para os gentios que creram. Quem está recebendo o evangelho já não é só o povo da promessa de sangue. A segunda: Pedro e João descem para orar pelo Espírito, porque os samaritanos já tinham crido e já tinham sido batizados, mas o Espírito "sobre nenhum deles tinha ainda descido".

Repare nos dois nomes. Pedro, o pescador cujo nome original era Simão — o mesmo nome do mago de Samaria, o que Jesus trocou por "Cefas, que quer dizer Pedro" Jo 1.42. E João, que anos antes queria mandar fogo do céu sobre uma aldeia de samaritanos Lc 9.54. Um deles, João, já esteve diante de uma aldeia samaritana de portas fechadas e foi repreendido por querer destruí-la. Agora a visita é de oração.

🌱 Semente de sermão

O mesmo João que quis queimar uma aldeia samaritana é o que ora para que os samaritanos recebam o Espírito Santo — e, no fim do capítulo, volta a pregar nas aldeias deles At 8.25. A graça não só perdoa o que fazemos; ela reeduca o que queríamos fazer. Se Deus pôde mudar a direção do pedido de João (de "fogo" para "Espírito"), pode mudar a sua.

07 — O ESPÍRITO QUE ESPEROUAs leituras sobre a imposição de mãos

Aqui a Bíblia se abre a um dos debates mais antigos da teologia cristã. Um texto curto, quase seco: "tinha ainda descido", "impuseram as mãos", "receberam o Espírito Santo". E uma pergunta que não cabe em uma frase: por que o Espírito esperou?

Gravura dos apóstolos impondo as mãos sobre os batizados de Samaria, com a pomba do Espírito Santo no alto
Os samaritanos recebem a palavra e o Espírito — Philips Galle, a partir de desenho de Maarten van Heemskerck (séc. XVI), gravura; a legenda latina da própria estampa remete a Atos 8.14. Pedro e João impõem as mãos sobre os batizados. Domínio público.
🔎 A lente do grego

Quatro pistas gramaticais valem a pena. (1) "Recebera" (v. 14) é dédektai, perfeito de déchomai: Samaria "acolheu (e continua com isso) a palavra". É um verbo de acolher, e Lucas o usa para a palavra; para o Espírito, ele vai usar outro verbo. (2) "Tinha ainda descido" (v. 16) é epipeptōkós, de epipíptō, "cair sobre". O mesmo verbo aparece quando o Espírito "caiu" sobre Cornélio e sua casa At 10.44 e quando Pedro lembra o episódio At 11.15. (3) "Receberam" (v. 17) é élambanon, de lambánō, e os verbos "impuseram" e "receberam" estão no imperfeito — algo como "iam impondo as mãos, e iam recebendo": Lucas pinta um processo, não um instante. (4) Guarde o verbo lambánō: Simão vai usá-lo no v. 19, quando disser "receba o Espírito Santo". É o mesmo verbo. O que os samaritanos recebem, ele quer distribuir.

O que o texto não diz: não diz como a vinda do Espírito era visível. Em At 8.18 "Simão, vendo" (idṓn) que o Espírito era dado — mas o que ele viu, Lucas não conta. Em outras cenas, a Escritura fala de línguas (At 10.46, At 19.6); aqui, não. Dizer que eram línguas é inferência razoável a partir dos paralelos, não texto.

As leituras mais importantes sobre o episódio, apresentadas com o que cada uma enxerga e o que cada uma precisa explicar — sem arbitrar:

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Pentecostal e carismática

Samaria mostra que receber o Espírito pode ser uma experiência distinta e posterior à conversão e ao batismo: os samaritanos já criam e já estavam batizados, e "sobre nenhum deles tinha ainda descido" o Espírito. Atos 19.1-7 (os doze de Éfeso) reforça o padrão. Para muitos, o Espírito aqui é poder para a missão. O que precisa explicar: Paulo diz que "todos nós fomos batizados em um Espírito" 1Co 12.13 e que "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" Rm 8.9, e At 10.44 mostra o Espírito vindo antes do batismo.

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Reformada e evangélica clássica

Samaria é um episódio único e de transição, o "Pentecostes dos samaritanos", entre Jerusalém (At 2) e os gentios (At 10), conforme o mapa de At 1.8. A demora existiria para que os apóstolos judeus testemunhassem pessoalmente a entrada de Samaria na igreja e para que não houvesse duas igrejas rivais. A norma, para essa leitura, é que o Espírito é dado na conversão (Gl 3.2, Ef 1.13). O que precisa explicar: por que o atraso só aqui — e como se explica a insistência de Lucas em registrar "tinha ainda descido".

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Católica, ortodoxa e anglicana tradicional

É um texto-chave para o sacramento da confirmação (a crismação, entre os ortodoxos): o batismo foi dado por Filipe; a imposição de mãos e a oração dos apóstolos (e, depois, dos bispos, seus sucessores) completam a iniciação. O Catecismo da Igreja Católica cita esta passagem quando trata desse sacramento. O que precisa explicar, do ponto de vista de leitores de outras tradições: a ausência, no texto, do óleo da crisma e da palavra "sacramento", e por que Filipe não podia fazê-lo.

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Leituras de comunhão e de fé incompleta

Duas ideias que aparecem em várias tradições. A primeira: o Espírito vem por intermédio dos apóstolos de Jerusalém para amarrar a igreja samaritana à igreja-mãe e prevenir cisma. A segunda: a fé dos samaritanos, no começo, era real mas ainda incompleta, e a demora a completa. O que precisam explicar: o texto não afirma nenhuma das duas razões — são hipóteses sobre o motivo da demora.

E o que todas as leituras aceitam (e é isso que importa para o estudo de Simão): (1) o Espírito é um dom de Deus — Pedro vai chamá-lo exatamente assim no v. 20; (2) Samaria foi incluída no povo de Deus, pela mesma graça de Pentecostes; (3) os apóstolos foram instrumentos, não donos; e (4) nenhum ser humano tem o botão que liga ou desliga o Espírito. É este último ponto que Simão não entende.

🌱 Semente de sermão

Pode haver desacordo honesto sobre como e quando o Espírito é dado. Mas o desacordo está sempre dentro de uma verdade comum: o Espírito é dádiva e não é produto. Quando a discussão sobre o "como" vira briga entre irmãos, vale lembrar que a cena inteira de At 8 foi montada por Lucas para ensinar o que todos concordam: "o dom de Deus".

08 — O QUE SIMÃO VIU"Dai-me também a mim esse poder"

O silêncio de uma mão sobre uma cabeça. Uma pessoa se ajoelha, um apóstolo ora, e algo acontece. Simão está no meio da cena e, como sempre, está olhando.

"E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, lhes ofereceu dinheiro, Dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo." Atos 8.18-19

Três coisas saltam do texto, e valem uma a uma.

Primeira: ele viu um mecanismo. "Vendo que pela imposição das mãos... era dado" — Simão enxergou uma causa e um efeito: mãos de apóstolos, Espírito que desce. E, olhando como especialista, percebeu o que o resto do povo não percebeu: aquilo era repetível. Para um homem de ofício, ver um poder em ação é ver uma técnica.

Segunda: ele não pediu o Espírito para si. Releia: "Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba". Simão não está pedindo para receber; está pedindo para dar. Ele quer ser o canal, a mão, a figura que o povo procura. E o "também a mim" revela a comparação: "também" os apóstolos, "também" Filipe — ele quer entrar no quadro dos que dão.

Terceira: ele pagou na moeda que conhecia. O texto diz só "dinheiro"; a imagem de uma bolsa é nossa. Lucas não explica o motivo, mas dá para imaginar que, para um homem de ofício, poder era algo que se adquire, se treina, se negocia. Se foi assim, a oferta não nasceu de um cinismo que Lucas descreve; nasceu de uma lógica — uma leitura, não um dado do texto.

🔎 A lente do grego

Lucas dá a Simão duas palavras diferentes para "poder", e a diferença é cirúrgica. No v. 10, a cidade chamava Simão de dýnamis — "força, capacidade". No v. 19, o que ele pede é exousía, "autoridade, direito de agir", o poder de quem tem permissão e posição para fazer. Simão não quer só a força; quer o cargo. Há ainda um detalhe: "ofereceu" é prosḗnenken, de prosphérō, o verbo que a Bíblia usa para "apresentar uma oferta" ao altar (por exemplo, Mt 5.23-24 e Hb 5.1). Um verbo de oferenda, usado para um suborno. E "dinheiro" é chrḗmata, a palavra comum para "bens, riqueza". Quando Pedro responder, vai trocar de palavra: dirá argýrion, "prata".

💗 O coração do antagonista

Pare e faça a conta do caminho, porque é isto que o estudo inteiro procura: como alguém chega a isso? Passo 1: ele era "alguém grande", com uma cidade olhando. Passo 2: a cidade passou a olhar para Filipe. Passo 3: ele creu, foi batizado, ficou colado. Passo 4: viu um poder que ele não tinha. Passo 5: reconheceu o mecanismo. Passo 6: pagou o preço. Nenhum desses seis passos, isolado, é um crime. Cada um é um passo humano. A diferença entre o Simão que se batizou e o Simão que ofereceu dinheiro não é um abismo; é uma escada de pequenos degraus que ele desceu olhando para si mesmo. E repare no vocabulário dele: Filipe falava de Cristo, reino, nome. Simão fala de poder, também a mim, puser as mãos. Nas palavras que Lucas registra, ele nunca diz "Jesus".

🌱 Semente de sermão

Atos é um livro atento ao que o dinheiro faz diante dos apóstolos. Barnabé vendeu uma herdade, trouxe o preço e o depositou aos pés deles At 4.36-37. Ananias e Safira levaram só uma parte do preço, como se fosse tudo At 5.1-2. Simão ofereceu dinheiro para comprar. Três ofertas, três corações: um dá, outros fingem, outro compra. A mesma quantia pode ser um presente, uma máscara ou uma tentativa de negócio. O que muda é o que o coração espera receber.

09 — "O TEU DINHEIRO SEJA CONTIGO"A resposta de Pedro

Pedro se vira. Não há protocolo, nem "vamos conversar sobre isso depois". O homem que um dia disse "Não tenho prata nem ouro" At 3.6 olha para o dinheiro que lhe estendem.

"Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus." Atos 8.20-21

Três golpes numa frase só. Primeiro, o desejo: "o teu dinheiro seja contigo para perdição". Segundo, o erro: "cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro". Terceiro, o diagnóstico: "o teu coração não é reto diante de Deus". É o coração, não a mão. O gesto de oferecer dinheiro foi só a gota que fez o copo transbordar.

Há uma sutileza digna de nota. A frase fala literalmente da prata: "a tua prata esteja contigo para a perdição". Quem está agarrado à prata é arrastado com ela, e Simão entende como ameaça pessoal (v. 24). Os comentaristas debatem se é uma imprecação ("que se perca") ou uma constatação grave; de todo modo, logo em seguida Pedro não fecha a porta, como vamos ver.

🔎 A lente do grego

(1) "Seja contigo" é eíē, um optativo, o modo grego do desejo e da imprecação: "que seja". Não é uma constatação, é uma exclamação: "que a tua prata vá contigo para a perdição". (2) "Perdição" é apṓleia, "destruição, ruína", a palavra de Jesus para o "filho da perdição" de João 17.12. (3) "Cuidaste" é enómisas, "você pensou, supôs", e "alcança" é ktâsthai, "adquirir, comprar, ganhar para si" — o mesmo verbo que Lucas usa em At 1.18 para Judas, que "adquiriu um campo com o galardão da iniqüidade". Dinheiro e dom de Deus no mesmo verbo de "adquirir". (4) "Dom" é dōreá, a palavra de Atos para a dádiva do Espírito: aparece em At 2.38, At 8.20, At 10.45 e At 11.17 — quatro vezes, todas para o Espírito Santo. E a forma-irmã dōreán ("de graça") é a de Mateus 10.8: "de graça recebestes, de graça dai". Pedro está aplicando em Samaria o que ouviu de Jesus na estrada. (5) Em "não tens parte nem sorte" o grego traz merís e klêros, "porção" e "herança" — a mesma dupla que a Lei usa para dizer que os levitas "não têm parte nem herança" com os irmãos (Dt 10.9, Dt 12.12). Pode ser um eco; é uma hipótese, não uma prova. E "nesta palavra" é en tô lógō toútō: "neste assunto, nesta mensagem".

💗 O coração do antagonista

Olhe para quem fala. Pedro conhece bem esse caminho: na própria noite da Ceia, "houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior" Lc 22.24 — e Pedro estava lá. Um dia Jesus mudara o nome daquele Simão Jo 1.42; ele sabe o que é ser um Simão que precisa ser transformado. A dureza dele não vem de superioridade; vem de reconhecimento. E o que Simão ouve é uma voz que lhe diz a verdade sem lhe dar aplauso: "o teu coração não é reto". Depois de anos de "Este é a grande virtude de Deus", talvez fosse a primeira vez que alguém lhe falava assim.

🌱 Semente de sermão

Pedro dá a razão da sentença: "cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro". O erro de Simão foi teológico antes de ser financeiro. A Bíblia insiste, de cima a baixo, na outra frase: "os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço" Is 55.1; "quem quiser, tome de graça da água da vida" Ap 22.17; "o dom gratuito de Deus é a vida eterna" Rm 6.23. Jesus disse à mulher de Samaria: "Se tu conheceras o dom de Deus..." Jo 4.10 — e a mesma palavra, dōreá, estava naquela conversa em Samaria. Em Samaria, de novo.

10 — FEL DE AMARGURA"E em laço de iniqüidade"

Pedro continua. E agora o apóstolo troca a sentença por uma porta.

"Arrepende-te, pois, dessa tua iniqüidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração; Pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniqüidade." Atos 8.22-23

Duas ordens e um diagnóstico. As ordens: "arrepende-te" e "ora a Deus". O diagnóstico: "fel de amargura, e em laço de iniqüidade". E há uma condição que o texto deixa pesar: "para que porventura te seja perdoado". Pedro não vende uma garantia mecânica ("faça isto e pronto"); mostra o caminho e deixa a pergunta de pé.

"Fel de amargura" tem sabor de Antigo Testamento, e talvez seja de propósito. Em Deuteronômio, Moisés avisa o povo, na renovação da aliança em Moabe: "Para que entre vós não haja raiz que dê veneno e fel" Dt 29.18. E o versículo seguinte descreve o tipo de coração que a produz:

"E aconteça que, alguém ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe no seu coração, dizendo: Terei paz, ainda que ande conforme o parecer do meu coração; para acrescentar à sede a bebedeira." Deuteronômio 29.19

Lucas não cita Deuteronômio por nome, e vale a honestidade de dizer que o paralelo é de vocabulário, não de citação direta. Mas a carta aos Hebreus mostra que o eco era reconhecido na igreja primitiva: "nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem" Hb 12.15. A "raiz de amargura" é uma imagem de Dt 29.18 aplicada ao cristão. E o retrato de Dt 29.19 combina com Simão: alguém que ouve palavras sérias e se tranquiliza por dentro ("terei paz"), porque o coração tem o seu próprio parecer.

🔎 A lente do grego

"Fel de amargura" é cholḗn pikrías: cholḗ é "fel, bílis, algo amargo e venenoso" e pikría é "amargor". A tradução grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) traz, em Dt 29.18, uma expressão da mesma família: en cholē kaì pikría, "em fel e amargura" — para traduzir o hebraico rosh e la'anah, dois nomes de plantas amargas e venenosas (la'anah costuma ser traduzida por "absinto"). É a base da imagem. Já "laço" é sýndesmos, "vínculo, algo que amarra". É a mesma palavra de Efésios 4.3: "o vínculo da paz". Dois "vínculos" possíveis: o da paz, que une, ou o da iniquidade, que prende. E "pensamento do teu coração" é epínoia, o desígnio, a intenção que se forma antes do ato. O que precisa de perdão não é só o dinheiro oferecido; é o projeto que a trouxe. Por fim, "vejo" (horô) é presente: Pedro está dizendo o que vê agora.

💗 O coração do antagonista

Pedro diz "amargura". O texto não explica a origem dessa amargura, e quem lê um mago destronado por uma cidade que passou a olhar para outro pode imaginar uma ferida de orgulho. É uma leitura possível; não é um dado do texto. O que é dado do texto é que a amargura é uma raiz — que cresce escondida, que parece inofensiva, e que "por ela muitos se contaminem". Vale uma pergunta pessoal, mais do que um julgamento sobre Simão: que raiz de amargura pode estar crescendo em mim, sem eu perceber, por trás de um bom comportamento?

🌱 Semente de sermão

Observe a ordem de Pedro: primeiro a verdade dura ("o teu coração não é reto"), depois o remédio simples ("Arrepende-te... e ora a Deus"). O apóstolo é duro com o pecado e generoso com a pessoa. Não há nenhuma frase em At 8.20-24 que diga "tua causa está perdida". Um pregador que só repete o v. 20 anuncia metade de Pedro; o v. 22 é a outra metade.

11 — "ORAI VÓS POR MIM"E o texto termina sem terminar

É a última coisa que a Bíblia diz que Simão disse.

"Respondendo, porém, Simão, disse: Orai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim. Tendo eles, pois, testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e em muitas aldeias dos samaritanos anunciaram o evangelho." Atos 8.24-25

E acabou. Lucas não escreve "Simão se arrependeu", nem "Simão se afastou", nem "Simão morreu". A narrativa segue com Pedro e João pregando em "muitas aldeias dos samaritanos" e, em seguida, um anjo manda Filipe ao caminho de Gaza, onde ele encontrará um etíope At 8.26-27. O homem que dominou o palco da cidade desaparece sem fechar a cortina.

🔎 A lente do grego

Pedro disse a Simão: "e ora a Deus" — deēthēti, imperativo singular ("você, ore"). Simão responde: "deēthēte hymeîs hypèr emoû" — "orai VÓS por mim", com o verbo no plural e o pronome hymeîs ("vós") enfático. É o mesmo verbo, mas Simão o reenvia a outras pessoas. Ele não nega o pedido de Pedro; mas o move de lugar. A ordem era: "ore você". A resposta é: "orem vocês". E o pedido que ele faz é "para que nada do que dissestes venha sobre mim" — eirḗkate, "o que vocês disseram" — o foco são as consequências da sentença, não a oferta nem o desígnio do coração.

Como ler a frase? O texto não decide, e a Bíblia mostra pedidos de oração de dois tipos. Aqui estão as leituras:

🙏

Leitura 1: humildade genuína

Simão aceita a repreensão, reconhece que não pode orar por si ainda e pede a intercessão dos apóstolos. É possível: o próprio Davi, apanhado, disse "Pequei contra o Senhor" 2Sm 12.13. O que precisa explicar: Simão não diz "pequei" nem "perdoa".

😨

Leitura 2: medo das consequências

O dinheiro já não importa; o que importa é "nada do que dissestes venha sobre mim". Há pedidos de oração assim: o Faraó diz "Esta vez pequei" e pede que orem para tirar a praga Êx 9.27-28; o rei Jeroboão pede que o profeta ore para sua mão secada ser restituída 1Rs 13.6, e, depois, continuou no seu mau caminho 1Rs 13.33. O que precisa explicar: o texto não diz que o pedido de Simão era só medo — é uma leitura do que ele não disse.

❓

Leitura 3: o texto fica aberto de propósito

Lucas, que sabe contar um fim (Ananias e Safira caem mortos em At 5), aqui não conta. Muitos leitores acham que o silêncio é deliberado: o foco do capítulo é a palavra que "crescia", não o destino de Simão. Esta leitura precisa admitir que o silêncio também pode ser só economia de espaço.

💗 O coração do antagonista

A última frase de Simão é um pedido de ajuda. Ninguém que pede oração já está inteiramente perdido; ninguém que pede oração só para escapar das consequências já está inteiramente salvo. O pedido é ambíguo porque a vida costuma ser. E o leitor honesto reconhece o próprio reflexo: quantas vezes eu pedi a alguém que orasse "para dar certo" sem ter parado para me arrepender? Simão pode ser o homem do mais frágil dos pedidos — ou o primeiro passo de um retorno que Lucas não registra. Nesta passagem, a Bíblia não nos diz, e este estudo também não vai dizer.

🌱 Semente de sermão

Pedir oração aos irmãos é sábio, bíblico e humilde — Paulo pede oração em várias de suas cartas. Mas pedir que orem por mim não pode ser um jeito de não orar eu mesmo. A ordem de Pedro ainda vale: "ora a Deus". O pedido de Simão encerra a cena com uma pergunta que cada leitor tem de responder por si: o que eu faço quando a verdade me alcança?

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Parte III
As sombras de Simão na Bíblia

12 — O MAGO DE PAFOSElimas diante de Paulo

Pafos, na ilha de Chipre. A casa do procônsul romano Sérgio Paulo, "homem prudente", que "chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deus" At 13.7. E, ao lado do procônsul, há alguém que Lucas apresenta assim: "um certo judeu mágico, falso profeta, chamado Barjesus" At 13.6. Barjesus é Elimas — "porque assim se interpreta o seu nome" At 13.8.

"Todavia Saulo, que também se chama Paulo, cheio do Espírito Santo, e fixando os olhos nele, Disse: Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo." Atos 13.9-11

Lucas diz que Elimas "resistia-lhes... procurando apartar da fé o procônsul" At 13.8 e que, no fim, o procônsul "vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor" At 13.12. Duas cenas de magos diante de apóstolos, uma em Samaria com Pedro, outra em Chipre com Paulo. Os paralelos e as diferenças são instrutivos:

🪞

O que se repete

Um "mago" (mageúōn em At 8.9; mágos em At 13.6,8), um apóstolo cheio do Espírito, um confronto sobre a verdade, e uma sentença sobre o coração e o caminho.

🚪

Simão: porta aberta

Simão entrou na igreja, creu, foi batizado. Recebe uma repreensão e um convite: "Arrepende-te... e ora a Deus". Nenhum castigo físico é anunciado At 8.22.

🌑

Elimas: resistência declarada

Elimas se opõe de fora. Recebe um golpe imediato: cegueira "por algum tempo" (áchri kairoû, "até um tempo certo" At 13.11) — uma palavra que, curiosamente, não fecha o caso para sempre.

⚖️

O mesmo adjetivo

A Pedro, Simão ouve "o teu coração não é reto" (euthéia, At 8.21). A Paulo, Elimas ouve: "não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor?" (euthéias, At 13.10). Lucas usa a mesma palavra nas duas cenas: um coração torto ao lado de um caminho reto.

🔎 A lente do grego

Barjesus (Bariēsoûs) é um nome aramaico: bar é "filho" e Yeshua (Jesus/Josué) é um nome comum entre os judeus da época: "filho de Jesus". Paulo responde chamando-o huiè diabólou, "filho do diabo" — troca o pai do nome. O jogo de palavras é intencional: o homem que carrega o nome de "filho de Jesus" é desmascarado como "filho do diabo". Já o nome "Elimas" é explicado por Lucas ("porque assim se interpreta o seu nome"), mas a origem da palavra é discutida entre os estudiosos; este estudo não afirma o significado.

💗 O coração do antagonista

Lucas diz o que Elimas fazia — "procurando apartar da fé o procônsul" — e não por quê. Mas um mago que vive ao lado de um poderoso tem muito a perder se o poderoso mudar de crença: o lugar na corte, a renda, a influência. Essa é uma leitura plausível, não uma afirmação do texto. Em Simão e em Elimas aparece o mesmo núcleo, vestido de formas diferentes: quem constrói a vida sobre ser necessário reage mal a quem lhe tira essa necessidade. Simão reage pagando; Elimas, resistindo.

13 — OS LIVROS QUE ARDERAMÉfeso: o outro final possível

Éfeso, uma cidade cheia de templos, mercadores e livros de feitiço. Acaba de acontecer algo que ninguém esperava: sete filhos de um sacerdote judeu tentaram usar o nome de Jesus como fórmula, e o espírito maligno respondeu: "Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois?" At 19.13-15. Eles fugiram nus e feridos. "E foi isto notório a todos os que habitavam em Éfeso, tanto judeus como gregos; e caiu temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido" At 19.17. E então vem o que interessa:

"E muitos dos que tinham crido vinham, confessando e publicando os seus feitos. Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil peças de prata." Atos 19.18-19

Compare com a oferta de Simão. Simão pagou para ganhar poder. Os magos de Éfeso queimaram o que valia uma fortuna — "cinqüenta mil peças de prata" — para sair do poder que tinham. Simão disse: "Orai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim". Os efésios confessaram e publicaram os próprios feitos. Eles fizeram a conta e pagaram o preço do arrependimento. Lucas termina o episódio com a frase que costuma fechar os blocos de Atos: "Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia" At 19.20.

🔎 A lente do grego

"Artes mágicas" é tà períerga, literalmente "as coisas curiosas, as práticas supérfluas", que vem de "ao redor" (perí) e "obra" (érgon). É a palavra de Lucas para o que eles praticavam, da mesma raiz de períergoi ("intrometidas, curiosas") em 1Tm 5.13. E "confessando" é exomologoúmenoi, do verbo que significa "concordar, reconhecer abertamente"; "publicando" é anangéllontes, "anunciando". O contraste com Simão está nas palavras: confessar e publicar (Éfeso) contra "nada do que dissestes venha sobre mim" (Samaria). A mesma Bíblia mostra dois magos diante do evangelho: um paga, outro queima.

🌱 Semente de sermão

O texto não registra nenhum pedido dos efésios para que orassem e amenizassem o prejuízo. Registra que eles assumiram o prejuízo. É uma diferença sutil e decisiva: arrependimento custa algo, e quem se arrepende de verdade já fez a conta e já pagou. Simão, na única cena que temos dele, ainda está tentando comprar. Éfeso mostra o outro caminho: queimar.

14 — DE GRAÇA RECEBESTESA frase que Pedro já tinha ouvido

Doze homens ouvem as instruções de uma missão que nunca fizeram. Entre eles estão "Simão, chamado Pedro" e "João, seu irmão" Mt 10.2. E o Mestre diz:

"Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai." Mateus 10.8

Pouco tempo depois, em Samaria, Pedro olha o dinheiro oferecido e diz: "o dom de Deus" não "se alcança por dinheiro". O texto de Atos não diz que Pedro estava citando Jesus, e este estudo não vai afirmar isso. Mas a conexão de ideia é difícil de ignorar: o poder que os Doze receberam de graça não podia ser vendido, nem comprado. O mesmo grego está em jogo: "de graça" é dōreán e o "dom" de At 8.20 é dōreá — a mesma família de palavras.

A Bíblia conhece outros homens que tentaram transformar o dom em negócio. No Antigo Testamento, Geazi, servo do profeta Eliseu, correu atrás de Naamã para pegar "alguma coisa" do que o profeta tinha recusado, e saiu "leproso, branco como a neve" 2Rs 5.20-27. Miqueias descreve o quadro geral da corrupção em Israel: "os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós?" Mq 3.11. E o Novo Testamento volta ao tema várias vezes: "nem por torpe ganância" 1Pe 5.2; "por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas" 2Pe 2.3; "ensinando o que não convém, por torpe ganância" Tt 1.11; "nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus" 2Co 2.17.

Mas o mesmo Novo Testamento não condena o sustento de quem serve. Na própria sequência de Mateus 10, Jesus diz: "digno é o operário do seu alimento" Mt 10.10. Paulo escreve: "Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho" 1Co 9.14, "o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui" Gl 6.6, e "digno é o obreiro do seu salário" 1Tm 5.18. Os dois lados convivem no mesmo livro. A linha que a Bíblia traça não é entre "ministro pago" e "ministro não pago". É entre um dom que se recebe e se reparte e um dom que se compra e se vende.

🔎 A lente do grego

A palavra dōreán ("de graça, gratuitamente, sem pagar") aparece em Mateus 10.8, em Romanos 3.24 ("sendo justificados gratuitamente") e em Apocalipse 22.17 ("tome de graça da água da vida"). É a palavra-irmã de dōreá ("dádiva"), e as duas vêm de dôron, "presente". A ideia de Atos 8 inteira cabe nesse parentesco: o Espírito é presente; presente não se compra; quem o oferece não o vende. Pedro não precisou inventar um argumento. Bastava a gramática do dom.

🌱 Semente de sermão

"De graça recebestes" vem primeiro; "de graça dai" vem depois. Quem se lembra do que recebeu se torna generoso com o que reparte. Quem esquece, começa a cobrar. Simão queria o poder de dar sem ter aprendido a receber. Jesus entrega primeiro o dom e depois a missão. A ordem importa.

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Parte IV
A história depois do silêncio

15 — SIMONIAQuando o nome dele virou um pecado

Volte à imagem de Atos 8: uma oferta de dinheiro estendida, uma resposta firme. Alguns séculos depois, a igreja inteira reconheceria nessa cena um problema recorrente — e daria ao problema o nome do homem que o tinha ilustrado. Simonia: comprar ou vender coisas espirituais — a ordenação, um cargo na igreja, um sacramento, a liberação de um benefício eclesiástico.

O pecado era real e aparecia cedo. Cânones antigos já o condenam: o Concílio de Calcedônia (451) proíbe ordenar alguém por dinheiro, e a coleção dos chamados "Cânones Apostólicos" (séc. IV) manda depor bispo ou presbítero que obtenha o cargo pagando, e invoca o caso de Simão e Pedro. Na Idade Média a simonia foi um dos grandes problemas da Igreja — a ponto de a reforma do século XI (a de Gregório VII e a "querela das investiduras") girar, em boa parte, em torno da compra e venda de cargos eclesiásticos. O poeta Dante, no início do século XIV, pôs os simoníacos na terceira vala do oitavo círculo do Inferno, de cabeça para baixo, e começou o canto com um grito: "Ó Simão Mago!"

E a ideia sobreviveu nas duas grandes tradições. No Catolicismo, a simonia continua a ser um delito previsto no direito canônico. Na Reforma do século XVI, Martinho Lutero viu na venda de indulgências, em 1517, um mercado da graça, e escreveu as 95 Teses contra essa prática; a crítica dele tinha a mesma raiz da de Pedro: a graça de Deus não se compra. A Igreja Católica distingue a doutrina das indulgências do comércio em torno delas, e ela mesma reconheceu o abuso: o Concílio de Trento (século XVI) aboliu a figura dos "questores" que arrecadavam esmolas por indulgências, e o papa Pio V, em 1567, cancelou as concessões de indulgências ligadas a pagamento. Tem gente de boa-fé e de teologia séria dos dois lados.

📜 Segundo a tradição

A palavra "simonia" não aparece na Bíblia; é um termo da história da igreja, formado a partir do nome do mago de Atos 8. O que a Bíblia traz é a cena e a frase de Pedro; foi a igreja dos séculos seguintes que a transformou em categoria de pecado, em leis, em reformas e até em poesia. As datas e os documentos citados acima (Calcedônia, os Cânones Apostólicos, Gregório VII, Dante, Lutero, Trento, Pio V) são história da igreja, não Escritura.

⚠️ A origem do termo "simonia" e os episódios históricos são tradição e história, não Escritura. A Bíblia condena a tentativa de comprar o dom de Deus (At 8.20), mas não estabelece, por si só, a lista de práticas medievais ou modernas que se encaixariam no termo — isso é discussão posterior, com divergência entre as tradições cristãs.

🌱 Semente de sermão

Observe uma coisa curiosa: católicos e protestantes, que discordam em tantos pontos, usam a mesma frase de Pedro como régua sobre o dinheiro e o sagrado. A cena de At 8 é terreno comum. A lição para hoje não é "quem estava certo em 1517", mas algo mais simples e mais difícil: toda geração, em todos os cantos da igreja, precisa checar se a graça continua de graça.

16 — A PONTE COM O NOSSO TEMPOO mercado da graça: onde a linha passa

Voltemos ao chão da cena, porque ela cabe numa frase: alguém estende dinheiro e pede poder espiritual. Hoje, em muitos cantos do cristianismo, essa cena se repete em versões diferentes — e a cena de Atos 8 serve de régua para olhar as versões, sem condenar pessoas e sem tratar todo pastor, toda oferta, toda campanha como se fossem Simão.

Comece pelo que Pedro não condenou. Ele não condenou a oferta. Barnabé deu um campo e Lucas o chama de exemplo At 4.36-37. Não condenou o sustento: "digno é o obreiro do seu salário" 1Tm 5.18. Não condenou a generosidade — "Deus ama ao que dá com alegria" 2Co 9.7 — nem a promessa bíblica de que quem semeia generosamente colhe 2Co 9.6. Quem ensina que Deus honra a generosidade está dizendo algo que a Bíblia diz, e merece ser ouvido com justiça.

O que Pedro condenou foi uma mecânica: a ideia de que o dom de Deus "se alcança por dinheiro", de que há alguém que o controla e o dispensa, e de que o preço abre a porta. Com isso em mente, quatro perguntas servem de teste — não como veredito sobre uma pessoa, mas como régua para quem ensina e para quem ouve:

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1. A graça continua de graça?

Alguém é excluído do que Deus dá por não poder pagar? A promessa depende da oferta, ou a oferta nasce da gratidão? Compare Is 55.1: "sem dinheiro e sem preço".

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2. A dádiva virou fórmula?

"Dê X e receba Y" soa como Simão: "Dai-me também a mim esse poder", e dinheiro na mão. Uma coisa é ensinar que Deus é generoso com quem é generoso. Outra é prometer um resultado garantido, como se Deus fosse uma máquina.

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3. Quem controla o dom?

Simão queria ser o dono do botão: "aquele sobre quem eu puser as mãos". Quando uma pessoa ou objeto aparece como o canal que Deus precisa usar — e que precisa ser pago —, a pergunta de Pedro volta: o dom é de Deus, ou é meu?

❤️

4. Para onde aponta o coração?

O diagnóstico de Pedro foi sobre o coração, não sobre o valor. Quem recebe e quem dá estão sob a mesma pergunta: Jesus diz: "onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" Mt 6.21.

Há hoje um debate longo sobre o que se costuma chamar de "teologia da prosperidade". Quem a critica vê nela o erro de Simão: tratar o dom como mercadoria. Quem a defende responde que ensina generosidade e que Deus abençoa quem dá, e aponta textos como Lc 6.38, Ml 3.10 e 2Co 9.6-8. Os dois lados têm Bíblia na mão — por isso a pergunta mais útil é a da mecânica, e não a do rótulo. E há um erro simétrico, que também precisa de honestidade: usar o rótulo para desprezar qualquer pregador que fale de dinheiro, ou para transformar toda oferta em suspeita. Esse cinismo também é uma forma de não ouvir Pedro, que condenou o erro específico de Simão, não o ofício. Da mesma forma, quem vende objetos ou orações como se carregassem, por si, um poder garantido está reproduzindo, em outra roupa, a lógica do mago: o poder está na coisa, e a coisa tem preço. A Bíblia chama isso de "negócio com palavras fingidas" 2Pe 2.3. Entre os dois erros fica o que Paulo mostrou: trabalhar com as próprias mãos At 20.34, reconhecer o direito de quem serve ao sustento, abrir mão dele quando isso ajuda o evangelho, e "proponha de graça o evangelho de Cristo" 1Co 9.18.

E atenção para a outra "moeda" de Simão, que não é dinheiro: o controle. João escreve sobre um líder, "Diótrefes, que procura ter entre eles o primado" 3Jo 9; Pedro orienta os presbíteros a não agirem "como tendo domínio sobre a herança de Deus" 1Pe 5.3. Simão queria o poder de impor as mãos. Há muitas maneiras de querer o poder sobre o sagrado que não passam por uma oferta de dinheiro.

💗 O coração do antagonista

Aqui o espelho gira. É tentador ler Simão como o vendedor. Mas Simão era comprador. A pergunta "quanto custa?" não vive só no bolso de quem vende unção; vive em quem acredita que existe uma oferta, um jejum, um esforço, uma troca que obriga Deus. Quando você pensa "se eu me comportar, Deus tem de me abençoar", já está estendendo, em silêncio, uma pequena oferta de troca. O estudo de Simão é uma advertência para todos os lados do balcão.

🌱 Semente de sermão

Quando alguém lhe disser "Deus vai fazer isto se você fizer aquilo", pergunte, com calma: isto é gratidão ou é pagamento? A diferença é a que Pedro enxergou. Quem dá com alegria entrega e espera nada em troca; quem compra entrega e espera retorno garantido. Os dois podem entregar o mesmo valor. Só um deles se parece com Barnabé.

17 — O SILÊNCIO E A LENDAO que contaram para preencher o fim

A natureza abomina o vazio — e a literatura cristã dos séculos II e III também. Lucas deixou Simão sem fim, e outros preencheram. Três textos antigos construíram o "Simão de lenda". Vale conhecê-los, com a etiqueta certa: nenhum deles é Escritura.

📜 Segundo a tradição

Justino Mártir (Apologia I, 26, por volta de 150-160 d.C.), escrevendo em defesa dos cristãos diante do imperador, conta que havia um samaritano, Simão, "natural da aldeia chamada Gitto", que no reinado de Cláudio fez "grandes atos de magia" em Roma e foi tratado como deus. Justino diz que lhe ergueram uma estátua no Tibre, entre as duas pontes, com a inscrição em latim "Simoni Deo Sancto", "a Simão, o santo Deus". E acrescenta que uma tal Helena, "que o acompanhava naquele tempo, e fora antes prostituta", seria a "primeira ideia" gerada por ele.

Só que a estátua parece ter sido uma confusão. Em 1574 foi achada na ilha do Tibre uma base de pedra com inscrição dedicada a Semo Sancus Dius Fidius, um antigo deus sabino dos juramentos — "Semoni Sanco Deo". É muito provável que Justino tenha lido mal a dedicatória, achando que era "Simão". Há quem ainda defenda que ele viu mesmo uma estátua a Simão, mas a maioria dos estudiosos considera que ele provavelmente se enganou.

⚠️ Isto é tradição patrística, não Escritura. Lucas nunca diz que Simão foi a Roma, nem que teve estátua, nem fala de Helena. A leitura de que Justino se enganou é a mais aceita, mas não é unânime.

📜 Segundo a tradição

Ireneu de Lyon (Contra as Heresias, I, 23, por volta de 180 d.C.) retoma Atos 8 e vai além: diz que Simão ensinava ser o Filho entre os judeus, o Pai em Samaria e o Espírito Santo entre os demais povos; que Helena era sua "Ennoia" (o "Pensamento", a primeira concepção da mente dele); que anjos criaram o mundo; e que a salvação vinha pela graça dele, "e não por obras justas" — conclusão que Ireneu acusa de levar os seguidores a viver como quisessem. Para Ireneu, Simão é a fonte de onde todas as heresias derivam — o título de "pai das heresias" é a forma como a tradição consagrou essa ideia.

Dois cuidados. Primeiro, Ireneu escreve contra o grupo: o que sabemos dos "simonianos" vem de seus adversários. Segundo, os estudiosos discutem quanto desse sistema remonta ao Simão de Atos 8 e quanto foi construído depois por seguidores, num ambiente gnóstico do século II.

⚠️ Isto é tradição e polêmica antiga, não Escritura. O Novo Testamento não diz que Simão fundou uma seita, nem que ensinava que era Deus, nem fala de Helena.

A queda de Simão, o Mago, ferido no ar enquanto Pedro ora, pintura de Paul Troger
A queda de Simão, o Mago — Paul Troger (séc. XVIII), Österreichische Galerie Belvedere, Viena. Pedro, com as chaves, aponta o céu; Simão cai, envolto em figuras escuras. A cena ilustra a lenda dos Atos de Pedro, não o texto de Atos 8. Domínio público.
📜 Segundo a tradição

Os Atos de Pedro, um texto apócrifo do fim do século II, contam o duelo final: em Roma, Simão promete voar diante do povo. Sobe, e a multidão o aclama. Pedro ora a Deus para que o poder dele falhe. Simão cai e quebra a perna em três lugares (na versão mais antiga). A multidão se volta contra ele; levado por amigos para fora de Roma, é operado e morre. Em versões posteriores a cena ganha o imperador Nero como espectador. Foi dessa lenda que saíram as pinturas que ilustram este estudo (Gozzoli, Troger, Bramer).

⚠️ Os Atos de Pedro são texto apócrifo, de data posterior aos apóstolos, e a história do voo é lenda. Nada nela está no Novo Testamento. Os detalhes (lugar da queda, ferimentos, onde morreu) variam entre as versões; trate o relato como literatura piedosa, não como biografia.

A queda de Simão, o Mago, em cenário de ruínas romanas, pintura de Leonaert Bramer
A queda de Simão, o Mago — Leonaert Bramer (séc. XVII). O mago despenca do alto, entre ruínas romanas, diante da multidão. De novo a lenda, não Atos 8. Domínio público.
📜 Segundo a tradição

Há ainda um "Simão" em Flávio Josefo: ao contar como o governador romano Félix conquistou Drusila, irmã de Agripa II, Josefo menciona um mago de Chipre chamado Simão (em alguns manuscritos, "Átomo"). Alguns estudiosos já propuseram que seria o Simão de Atos 8, mas a maioria rejeita a identificação: Simão era nome comum, e o relato de Josefo não menciona Samaria, Pedro ou Filipe.

⚠️ A identificação desse mago de Josefo com o Simão de Atos 8 é hipótese minoritária, sem confirmação. Fica aqui só como curiosidade histórica.

🌱 Semente de sermão

A lenda deu a Simão um fim espetacular: um voo, uma queda, uma plateia. O texto bíblico deu a ele algo muito mais perturbador: uma porta aberta e um silêncio. A lenda pune; a Escritura convida. Quando preenchemos o silêncio da Bíblia com o nosso desejo de justiça, quase sempre trocamos um convite por um espetáculo.

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Parte V
Juntando tudo

18 — O QUE SIMÃO REVELA SOBRE DEUSA resposta de Deus ao homem que quis comprá-lo

Um estudo de antagonista sempre acaba numa pergunta: o que este homem mostra sobre Deus? Simão não derrubou nenhum reino nem matou nenhum profeta. A única coisa que ele fez foi perguntar quanto custava o Espírito Santo. E a resposta de Deus, por intermédio de Pedro, revela quatro coisas.

Deus dá — não vende. Nas quatro vezes em que Atos usa dōreá, "dom", é do Espírito Santo. A graça é presente. Não existe mercado onde Deus se coloca à venda, nem balcão onde alguém possa pagar para ser seu distribuidor.

Deus não é controlado. A imposição de mãos de Pedro e João não era uma alavanca. Eles oravam; Deus dava. Jesus compara quem nasce do Espírito ao vento, que "assopra onde quer" Jo 3.8. O que Simão queria — um poder que se dispensa à vontade — é o contrário do que Deus é.

Deus vê o coração. "Teu coração não é reto diante de Deus." O texto fala do que ninguém via. Mais tarde, Pedro dirá que Deus "conhece os corações" At 15.8. Quem constrói uma vida em cima de aparência tem um problema que as palavras certas não resolvem.

Deus deixa a porta aberta. Mesmo diante de uma frase como "o teu dinheiro seja contigo para perdição", a segunda metade da resposta é "Arrepende-te... e ora a Deus". Deus não responde à tentativa de comprá-lo com a destruição imediata do comprador, mas com um convite, "porventura". E enquanto isso, em volta de Simão, a cidade que ele dominou segue com "grande alegria" e os apóstolos seguem pelas aldeias anunciando o evangelho. O reino não esperou por ele; mas o reino também não o expulsou.

💗 O coração do antagonista

Lendo Simão até o fim, o mais desconfortável é quanta coisa nele era comum: o desejo de ser alguém, o assombro diante de um poder maior, o instinto de negociar, o medo das consequências, o pedido de oração. Não há um vilão ali. Há uma escada de degraus pequenos — a mesma que qualquer um de nós já desceu em alguma área da vida. A pergunta que a Bíblia deixa não é "como Simão pôde?", e sim: onde, nesta escada, eu estou? E a boa notícia que Pedro escondeu dentro de uma bronca é que enquanto alguém pergunta "e se porventura...?", a porta ainda não bateu.

🌱 Semente de sermão

A cena termina com duas mãos: a mão de Simão estendida com dinheiro e as mãos dos apóstolos impostas em oração. Deus prefere mãos vazias que recebem a mãos cheias que compram. A pergunta do Evangelho nunca é "quanto você tem?", é "você aceita receber?". Quem aprende a receber de graça aprende a dar de graça — e a ordem é essa.

LINHA DO TEMPOSimão e o que veio em volta

Samaria, antes de Filipe
Simão pratica magia na cidade "desde muito tempo", dizendo ser "alguém grande"; todos o ouvem e dizem: "Este é a grande virtude de Deus" (At 8.9-11).
Depois da morte de Estêvão
Perseguição em Jerusalém; os discípulos se espalham; Filipe, um dos sete, desce a Samaria e prega a Cristo (At 8.1-5).
A cidade muda de atenção
Sinais, curas, "grande alegria"; homens e mulheres se batizam (At 8.6-8,12).
"E creu até o próprio Simão"
Simão crê, é batizado, fica de contínuo com Filipe e se assombra com os sinais (At 8.13).
Pedro e João descem
Os apóstolos oram, impõem as mãos, e os samaritanos recebem o Espírito Santo (At 8.14-17).
A oferta e a resposta
Simão oferece dinheiro pelo poder de dar o Espírito; Pedro responde: "O teu dinheiro seja contigo para perdição... arrepende-te" (At 8.18-23).
"Orai vós por mim"
Última fala de Simão. Os apóstolos voltam a Jerusalém, pregando nas aldeias samaritanas. Lucas não conta o fim dele (At 8.24-25).
Os ecos em Atos
Elimas, mago de Pafos, resiste a Paulo e fica cego "por algum tempo" (At 13.6-12). Em Éfeso, magos queimam os livros avaliados em cinquenta mil peças de prata (At 19.18-19).
Tradição, séc. II
Justino (c. 150-160) fala da estátua em Roma; Ireneu (c. 180) faz de Simão o "pai das heresias"; os Atos de Pedro (fim do séc. II) inventam o voo e a queda. Tudo isso é tradição.
Séculos depois
O nome de Simão vira "simonia", o pecado de comprar e vender coisas espirituais, condenado em concílios, reformas, poesia e polêmicas — em todas as tradições cristãs.

VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre Simão, o Mago

🔤

O mesmo verbo nas duas pontas

O verbo grego existēmi ("assombrar") aparece em At 8.9 e 8.11, quando Simão deixa o povo de queixo caído, e em At 8.13, quando é Simão quem está de queixo caído. Em apenas cinco versículos, o assombrador vira assombrado.

🎁

Quatro vezes, sempre o Espírito

A palavra dōreá ("dom, dádiva") aparece quatro vezes em Atos: 2.38, 8.20, 10.45 e 11.17. Em todas, é o Espírito Santo. A única vez em que ela vem acompanhada de "dinheiro" é a de Simão.

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Três ofertas diante dos apóstolos

Barnabé traz o preço de um campo (At 4.37); Ananias e Safira trazem uma parte, fingindo que é tudo (At 5.2); Simão traz dinheiro para comprar um poder (At 8.18). Três cenas de dinheiro diante dos apóstolos, três corações.

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O João que queria fogo

Em Lc 9.54, João pergunta se deve mandar descer fogo sobre uma aldeia samaritana. Em At 8.14-25, é ele quem desce a Samaria para orar e, no caminho de volta, evangeliza "muitas aldeias dos samaritanos".

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A estátua que talvez nunca existiu

Justino afirmou que Roma ergueu uma estátua a "Simão, o santo Deus". Em 1574 achou-se na ilha do Tibre uma inscrição a Semo Sancus, um deus sabino. A explicação mais aceita é que Justino leu mal.

😶

Um final que nunca vem

Lucas conta a morte de Estêvão, a de Tiago e a de Herodes Agripa, mas não conta a de Simão. A última coisa que a Bíblia diz que ele disse é um pedido: "Orai vós por mim ao Senhor".

PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos‑chave

Atos 8.10"Este é a grande virtude de Deus."
Atos 8.13"E creu até o próprio Simão; e, sendo batizado, ficou de contínuo com Filipe."
Atos 8.19"Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo."
Atos 8.20"O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro."
Atos 8.22"Arrepende-te, pois, dessa tua iniqüidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração."
Atos 8.23"Pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniqüidade."
Atos 8.24"Orai vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim."
Mateus 10.8"De graça recebestes, de graça dai."

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