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São Mateus Apóstolo, por El Greco
Raio-X Bíblico · Os Apóstolos · Estudo Completo

Mateus

o cobrador que virou evangelista

Ele era o tipo de pessoa que ninguém queria sentar do lado. Cobrava impostos para Roma, traía o próprio povo e enriquecia às custas dos pobres. Quando Jesus passou pela sua mesa e disse "Segue-me", Mateus fez a coisa mais improvável do mundo: largou tudo na hora. Este é o estudo completo de Mateus (Levi), filho de Alfeu: cada passagem bíblica, o grego por trás das palavras, o coração de um homem que foi da mesa do pecado para a mesa do apóstolo.

⏱ Leitura longa e profunda · 4 obras de arte · 4 camadas de estudo
Cartão de visita
Nome completo
Mateus (grego) · Levi (hebraico), filho de Alfeu
Significado do nome
Mateus: "dom de Deus" · Levi: "ligado, aderido"
Profissão
Publicano (cobrador de impostos) a serviço de Roma
Origem
Cafarnaum, na Galileia — à beira do Mar de Tiberíades
Escreveu
Evangelho de Mateus — o mais judaico dos quatro Evangelhos
Traço marcante
Único apóstolo que se autoidentifica como "o publicano" na lista dos Doze
Símbolo litúrgico
O homem / anjo — porque seu Evangelho começa com a genealogia humana de Jesus
Morte (tradição)
Mártir — Etiópia ou Pérsia, segundo fontes antigas

Como ler este estudo — as 4 camadas

🔎 A Lente do Grego — o que a palavra original revela e o texto em português esconde.
💗 O Coração de Mateus — o lado humano, emocional e psicológico de cada cena.
🌱 Semente de Sermão — um gancho que já nasce pregação pronta.
📜 Segundo a Tradição — o que vem da história da igreja, não da Bíblia.
Parte I
O homem antes do apóstolo

01 — DE ONDE ELE VEMUm publicano em Cafarnaum

Antes de qualquer chamado, Mateus era um homem do dinheiro sujo. Sentado na sua mesa de coletoria em Cafarnaum, à beira do Mar da Galileia, ele cobrava tributos para o Império Romano. Era um publicano — e no mundo do primeiro século, essa palavra soava como xingamento.

Cafarnaum era uma cidade de movimento intenso: ficava numa rota comercial entre a Síria e o Egito, e os publicanos naquele ponto estratégico cobravam pedágio e impostos sobre mercadorias. Mateus não era um funcionário humilde — tinha uma banca, um posto fixo, autoridade para taxar. E muito provavelmente ficava com uma parte boa para si mesmo, prática corriqueira da época e um dos motivos do ódio popular contra essa classe.

🔎 A lente do grego

A palavra traduzida como "publicano" é telōnēs (τελώνης), derivada de telos (imposto, tributo) + ōneomai (comprar). Literalmente: "quem comprou o direito de cobrar impostos". No sistema romano, os direitos de arrecadação eram leiloados — e quem os comprava tinha total incentivo de cobrar além do estipulado para ter lucro. Por isso os publicanos eram tão odiados: eram vistos como exploradores legalizados, em conluio com o ocupante estrangeiro.

Para um judeu piedoso da Galileia do século I, um publicano era as três piores coisas ao mesmo tempo: traidor da nação (servia a Roma), ladrão legalizado (cobrava a mais) e impuro religiosamente (o contato constante com gentios o tornava cerimonialmente contaminado). Os fariseus agrupavam publicanos e pecadores numa mesma categoria — como se fosse quase um gênero, um tipo de ser humano menos digno. É esse o homem que Jesus vai chamar.

💗 O coração de Mateus

Pense no dia a dia de Mateus: acordar sabendo que é odiado. Nenhum vizinho o cumprimentava com respeito — era respeito do medo, não do afeto. Provavelmente não era bem-vindo nas sinagogas. Seus melhores amigos eram outros publicanos e pessoas de reputação igual à dele. Ele pode ter tido dinheiro, mas vivia num isolamento social e espiritual profundo. Quando Jesus passou pela sua mesa — não para cobrar, não para reclamar, mas para chamar —, aquele "Segue-me" chegou num coração que talvez esperasse exatamente isso sem saber.

02 — LEVI E MATEUSO mesmo homem, dois nomes

Aqui mora uma dúvida que muita gente tem: a Bíblia fala de um chamado de "Mateus" em Mt 9.9, mas Mc 2.14 e Lc 5.27 falam de um chamado de "Levi, filho de Alfeu". São a mesma pessoa? Sim — a evidência é esmagadora. Os três Evangelhos descrevem exatamente a mesma cena: um cobrador de impostos sentado na coletoria de Cafarnaum, chamado por Jesus com um "Segue-me", que largou tudo e o seguiu, e logo depois fez uma grande festa em sua casa com publicanos e pecadores.

Não há dois chamados diferentes, dois banquetes diferentes, duas coletorias em Cafarnaum. É o mesmo evento narrado por três perspectivas. A diferença é que Marcos e Lucas usam o nome hebraico de nascimento — Levi — enquanto Mateus, ao escrever o seu próprio Evangelho, usa o nome pelo qual era conhecido no grupo apostólico — Mateus.

🔎 A lente do grego

O nome Maththaios (Ματθαῖος) é uma forma grega do nome hebraico/aramaico Mattai ou Mattiyahu, que significa "dom de Deus" (de mattān, presente/dom, + Yah, abreviação de Yahweh). Já Levi (Λευΐ) é o mesmo nome da tribo sacerdotal de Israel — "ligado", "unido". É possível que Jesus ou a comunidade apostólica tenha passado a chamá-lo de Mateus (o que significa receber um novo nome, como fez com Simão/Pedro), embora o texto não explicite isso. O que o texto mostra claramente é que, na lista dos Doze que o próprio Mateus escreve em seu Evangelho, ele se identifica como "Mateus" — nunca Levi.

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Parte II
O chamado que mudou tudo

03 — "SEGUE-ME"O chamado mais curto da Bíblia

Mateus 9.9 guarda uma das cenas mais econômicas e poderosas de todo o Novo Testamento: "Passando Jesus adiante, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. E ele se levantou e o seguiu." Mt 9.9

"Viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. E ele se levantou e o seguiu." Mateus 9.9

Lucas acrescenta um detalhe precioso: "ele, deixando tudo, se levantou e o seguiu" Lc 5.28. O verbo usado em Lucas é katalipōn — "deixando de lado", "abandonando completamente". Não foi uma pausa no trabalho. Foi uma ruptura definitiva.

💗 O coração de Mateus

Pedro, André, Tiago e João também tinham largado tudo — mas eles eram pescadores. Se arrependessem do chamado, podiam simplesmente voltar para os barcos (e Pedro de fato tentou isso depois da crucificação). Mateus era diferente: ao largar a mesa da coletoria, ele estava queimando a barca literalmente. Não havia como voltar — a vaga seria ocupada por outro publicano em horas. Ele abriu mão da segurança financeira, do poder, do cargo, sem uma palavra de negociação, sem perguntar o salário. Um "Segue-me" foi suficiente. Isso fala de um coração que já estava, de alguma forma, pronto para essa ruptura.

🌱 Semente de sermão

O chamado de Mateus não tem qualificações prévias, não tem estágio probatório, não tem "vamos conversar primeiro". Jesus não consultou o currículo dele — viu o homem. O chamado de Deus frequentemente chega sem negociação e sem rota de retorno. Quem precisa de uma saída garantida antes de obedecer ainda não aprendeu a confiar.

A Vocação de São Mateus, por Caravaggio
A Vocação de São Mateus — Caravaggio (c. 1599–1600), Igreja de San Luigi dei Francesi, Roma. Domínio público.

04 — O BANQUETE DOS REJEITADOSA festa que escandalizou os fariseus

O primeiro gesto de Mateus como seguidor de Jesus é surpreendente: ele oferece um grande banquete em sua própria casa Lc 5.29. E a lista de convidados revela tudo sobre quem ele era e sobre quem Jesus estava disposto a sentar à mesa: "muitos publicanos e pecadores se sentaram também à mesa com Jesus e seus discípulos" Mt 9.10.

Pense no que esse banquete significava. Mateus só conhecia publicanos e pessoas de reputação similar. Seus amigos eram, por definição, as pessoas que os religiosos chamavam de "pecadores". E a primeira coisa que ele faz ao ser chamado por Jesus é convidar toda essa rede para conhecê-Lo. Não há nenhum sermão sobre arrependimento narrado ali — há um banquete, comida, encontro, presença.

Os fariseus viram aquilo com horror. A pergunta deles aos discípulos é carregada de desdém: "Por que o vosso Mestre come com os publicanos e pecadores?" Mt 9.11. Para um fariseu, comer juntos era um ato de comunhão, de aprovação, quase de endosso. Jesus estava, na visão deles, se contaminando.

A resposta de Jesus é lapidar — e dupla. Primeiro, uma imagem médica: "Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes". Depois, uma citação direta de Oséias 6.6 que serve de navalha nos fariseus: "Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício". E encerra com a declaração de propósito mais clara de toda a cena: "pois não vim chamar justos, e sim pecadores" Mt 9.12-13.

🔎 A lente do grego

A frase "os sãos" usa o grego hoi ischyontes — literalmente "os que têm força/saúde". Já "os doentes" é hoi kakōs echontes — "os que estão passando mal". O contraste é vívido: Jesus fala de dois estados de ser. Mas o ponto teológico é mais sutil: os "sãos" da cena são os fariseus — que se achavam saudáveis, sem necessidade de médico. A ironia é que a autossuficiência espiritual é, ela mesma, uma doença grave que não se percebe. O paralítico sabe que precisa de cura; quem se acha justo, não.

🌱 Semente de sermão

A mesa de Mateus é o sermão antes do sermão. Antes de pregar, ele apresentou. Antes de explicar Jesus, ele trouxe Jesus para a sala dos seus. O evangelismo mais eficaz da história da igreja não começou com panfleto ou culto — começou com um anfitrião que abriu a casa para os seus amigos encontrarem o Mestre. Quem você vai convidar para a mesa?

💗 O coração de Mateus

Existe uma ternura enorme nesse banquete. Mateus sabia que seus amigos também precisavam do que ele acabou de encontrar. Não esperou anos de maturidade espiritual — na mesma semana em que foi chamado, já estava levando outros ao encontro de Jesus. Há algo de urgência no amor novo: quem conhece o médico não aguenta saber que os amigos estão doentes e não apresentá-Lo.

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Parte III
Entre os Doze

05 — NA LISTA DOS DOZEO detalhe da humildade

Quando Jesus escolhe os doze apóstolos, Mateus está lá. As listas aparecem em Mt 10.2-4, Mc 3.16-19, Lc 6.14-16 e At 1.13. Em todas elas, Mateus ocupa uma posição no segundo grupo dos Doze — nunca no trio de liderança (Pedro, Tiago, João), nunca o último. Um apóstolo sem holofote, mas presente.

Mas há um detalhe que só aparece na lista do próprio Evangelho de Mateus: ao se incluir, ele escreve "Mateus, o publicano" Mt 10.3. As outras listas, escritas por outros evangelistas, simplesmente dizem "Mateus". Só ele mesmo acrescenta o rótulo vergonhoso. Marcos, ao contar o chamado, usa "Levi" — um nome mais neutro. Mateus, ao contar a mesma história em seu Evangelho, usa "Mateus" e adiciona "o publicano".

💗 O coração de Mateus

Isso é humildade de cicatriz, não de discurso. Mateus poderia ter suavizado a própria história — ou silenciado. Em vez disso, escreveu o próprio apelido de vergonha num livro que seria lido pelo mundo inteiro. Como quem diz: "Não esqueçam de onde Ele me tirou." A graça se conta melhor por quem a recebeu no lugar mais fundo. Nenhum editor do séc. I aprovaria isso. Mateus aprovou porque era verdade — e porque a verdade da graça é mais poderosa que a vergonha do passado.

🌱 Semente de sermão

Você não precisa apagar seu passado para servir a Deus. Mateus carregou o título de "publicano" não como condenação, mas como testemunho. O que te envergonha pode ser exatamente o que convence alguém de que a graça é real. A cicatriz que você esconde pode ser o sinal que alguém precisa ver.

06 — INIMIGOS NA MESMA MESAMateus e Simão, o Zelote

Observe os dois nomes que aparecem juntos no final da lista dos Doze em Mateus 10.3-4: "Mateus, o publicano, e Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes." Mt 10.3-4. Mateus e Simão Zelote: dois homens que, fora do grupo apostólico, provavelmente se odiariam.

Os zelotes eram um movimento de resistência violenta contra Roma. Acreditavam que colaborar com Roma — de qualquer forma — era traição à nação de Israel e a Deus. Já os publicanos eram exatamente essa colaboração personificada: homens que lucravam ao servir ao ocupante romano. Para Simão Zelote, Mateus era o inimigo doméstico. Para Mateus, Simão era um extremista perigoso.

Jesus os colocou no mesmo grupo. Comeram juntos, viajaram juntos, serviram juntos por três anos.

🌱 Semente de sermão

O maior milagre do grupo apostólico pode não ter sido a multiplicação dos pães. Pode ter sido Mateus e Simão Zelote sentados à mesma mesa sem se matar. Jesus não escolheu doze homens iguais — escolheu doze homens impossíveis de se reunir, e fez deles um corpo. A unidade cristã não é ausência de diferença; é a prova sobrenatural de que algo maior que a política, a ideologia e o rancor entrou no grupo. Se Deus juntou o colaborador de Roma e o resistente de Israel, Ele pode juntar qualquer dois.

💗 O coração de Mateus

Imagine o primeiro jantar. O primeiro silêncio constrangido. A primeira vez que Mateus teve que pedir a Simão para passar o pão. Há um processo humano, difícil e real de aprendizado de convivência que o texto não narra, mas que a vida exige. Jesus não usou magia para apagar as diferenças — colocou os dois no mesmo projeto e os deixou descobrir que o Mestre era maior que as diferenças entre eles.

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Parte IV
O evangelho que ele escreveu

07 — O EVANGELHO MAIS JUDAICOEscrito para mostrar o Messias

O Evangelho que leva o nome de Mateus é, dos quatro, o mais enraizado na tradição judaica. Isso não é acidente — é intenção. O livro está cheio de citações do Antigo Testamento, muitas delas introduzidas com a fórmula "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta". Mateus menciona o cumprimento de profecias do AT mais de quarenta vezes ao longo do livro.

O Evangelho de Mateus abre com uma genealogia — algo que apenas ele e Lucas fazem — mas a genealogia de Mateus é estruturada de forma especificamente judaica: três grupos de catorze gerações, ligando Jesus a Abraão e Davi Mt 1.1-17. A mensagem implícita a um leitor judeu do primeiro século era imediata: Jesus é filho de Abraão (o pai da nação) e filho de Davi (o rei prometido). Ele é o Messias que os profetas anunciaram.

É por isso que o símbolo de Mateus entre os quatro viventes do Apocalipse e de Ezequiel é o homem / anjo: porque seu Evangelho começa com a humanidade de Jesus, com sua árvore genealógica, com seu enraizamento na história humana Ez 1.10, Ap 4.7. Marcos começa com o batismo (o boi, o servo). Lucas começa com sacerdotes e anunciações (o boi também). João começa "no princípio" (a águia, o divino). Mateus começa com um nome humano numa lista de nomes humanos.

🌱 Semente de sermão

Mateus, o homem que vivia dos números e das transações, escreveu o livro mais preocupado em provar quem é Jesus. Talvez os homens de negócio saibam melhor que ninguém que você precisa mostrar a documentação. Mateus construiu o caso histórico para Jesus ser o Messias prometido — e fez isso com a mesma metodicidade que usava para cobrar impostos. Deus não descarta as habilidades do seu passado — as redireciona.

🔎 A lente do grego

A frase de abertura do Evangelho é Biblos geneseos Iēsou Christou — "livro da geração / genealogia de Jesus Cristo". O termo genesis ecoa deliberadamente o primeiro livro da Bíblia hebraica — o Gênesis. Mateus está sinalizando: com Jesus, começa uma nova criação, uma nova história, tão decisiva quanto a primeira. É a abertura de um evangelista judeu que sabe exatamente o que está fazendo com as palavras.

08 — O SERMÃO DA MONTANHAA grande coleção dos ensinamentos de Jesus

Uma das maiores contribuições literárias do Evangelho de Mateus é a forma como ele organiza os ensinamentos de Jesus em grandes blocos. O mais famoso deles é o Sermão da Montanha — Mateus capítulos 5 a 7 Mt 5–7 —, que não tem paralelo em nenhum outro Evangelho com tamanha extensão e organização. Lá estão as Bem-aventuranças, o Pai Nosso, o "sede perfeitos como o Pai celestial é perfeito" e centenas de outras frases que moldaram a ética cristã para dois mil anos.

Mateus organiza o Evangelho em cinco grandes discursos de Jesus (talvez um eco intencional dos cinco livros de Moisés), cada um terminando com uma fórmula parecida: "quando Jesus acabou de dizer essas palavras". É a arquitetura de um homem acostumado a organizar, categorizar, registrar. O ex-contador que se tornou o maior compilador dos ensinamentos do Mestre.

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Parte V
Além da Bíblia: o que a tradição conta

09 — O DESTINO DE MATEUSO que veio depois dos Evangelhos

A Bíblia não narra nada sobre a vida de Mateus após a ascensão de Jesus. As últimas menções bíblicas são a lista dos Doze em At 1.13 e a narrativa do Pentecostes, na qual se pressupõe que todos os Doze estavam presentes. O que vem a seguir vem da tradição da Igreja antiga — e deve ser lido como tal.

📜 Segundo a tradição

As tradições sobre Mateus variam consideravelmente entre fontes antigas, o que já indica que o conhecimento histórico sobre ele era limitado mesmo no século II. O que a maioria das fontes antigas afirma é que ele pregou primeiramente entre os judeus da Palestina, e que foi nesse contexto que teria composto seu Evangelho — possivelmente numa versão aramaica antes da versão grega que chegou até nós (Papias de Hierápolis, citado por Eusébio de Cesareia, afirma que "Mateus compilou os oráculos em língua hebraica/aramaica").

Sobre seu destino após a Palestina, as tradições se dividem: algumas fontes antigas — como Rufino de Aquileia e Sócrates Escolástico — o colocam pregando na Etiópia (não a Etiópia moderna, mas a região que os gregos chamavam de Etiópia, que pode incluir a Núbia ou o reino de Axum). Outras tradições o enviam à Pérsia. Clemente de Alexandria cita Mateus como tendo morrido de morte natural — o que seria incomum entre os apóstolos. Mas Ambrósio de Milão e outras fontes ocidentais antigas o descrevem como mártir, morto por defender a fé.

A história mais elaborada sobre seu martírio aparece em textos apócrifos como os Atos de André e Mateus — textos que, do ponto de vista histórico, são considerados ficção devocional, não história confiável.

O símbolo do machado em algumas iconografias medievais é associado a Mateus como instrumento de seu possível martírio — mas isso varia conforme a tradição regional.

⚠️ Tudo nesta seção vem de fontes extrabíblicas — tradição eclesiástica, hagiografias, escritos apócrifos e historiadores cristãos antigos. A Bíblia não narra a morte de Mateus nem descreve sua missão após o Pentecostes. Apresentamos essas tradições para informação, não como Escritura.

São Mateus e o Anjo, por Caravaggio
São Mateus e o Anjo (A Inspiração de São Mateus) — Caravaggio (1602), Igreja de San Luigi dei Francesi, Roma. Domínio público.

10 — O SÍMBOLO DO HOMEMEntre os quatro viventes

Desde os primeiros séculos da Igreja, os quatro Evangelhos foram associados às quatro criaturas vivas de Ezequiel 1.10 e Apocalipse 4.7: leão, boi, homem e águia. A associação mais consolidada (seguida por Jerônimo e adotada pelo Ocidente cristão) é: Mateus = homem / anjo, Marcos = leão, Lucas = boi, João = águia.

A razão para Mateus receber o símbolo do homem é precisa: seu Evangelho começa com a genealogia humana de Jesus — a lista de nomes, geração por geração, que enraíza o Filho de Deus na carne e na história. É o Evangelho que mais insiste na humanidade histórica e judaica do Messias. O símbolo visível do anjo ou homem alado remete também ao anjo que guia Mateus ao escrever — representado magnificamente por Caravaggio.

📜 Segundo a tradição

A associação dos quatro Evangelhos com as criaturas de Ezequiel e Apocalipse é antiga — Ireneu de Lyon (séc. II) já a fazia, embora com distribuição diferente da que Jerônimo (séc. IV) consolidou. A versão "Mateus = homem" de Jerônimo é a que prevaleceu no Ocidente e é a mais comum até hoje na iconografia católica e luterana. Em obras de arte, Mateus é tipicamente pintado com um livro (o Evangelho) e um anjo ao lado, ou em alguns contextos um machado.

⚠️ A associação dos quatro viventes com os Evangelistas é tradição interpretativa da Igreja, não uma afirmação explícita da Bíblia.

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Parte VI
A vida de relance

LINHA DO TEMPOA vida de Mateus de relance

O começo
Publicano em Cafarnaum. Sentado na coletoria, cobrando impostos para Roma. Nome hebraico: Levi, filho de Alfeu.
O chamado
Jesus passa pela mesa e diz "Segue-me". Mateus larga tudo e segue — sem negociação, sem retorno.
O banquete
Promove uma grande festa em casa para seus amigos publicanos e pecadores encontrarem Jesus. Fariseus escandalizados. Jesus: "não vim chamar justos".
Entre os Doze
Escolhido como um dos doze apóstolos. Ao se listar, acrescenta "o publicano" — detalhe de humildade que só ele escreve.
Companheiro de Simão Zelote
O cobrador de impostos e o resistente antiromano: inimigos políticos no mesmo grupo apostólico por três anos.
Morte, Ressurreição e Pentecostes
Testemunha da Paixão, da Ressurreição e da descida do Espírito. Presente no Cenáculo (At 1.13).
O Evangelho
Escreve o Evangelho mais judaico do NT — repleto de citações proféticas, genealogia de Abraão a Jesus, cinco grandes discursos.
? (tradição)
Missão entre judeus da Palestina, possivelmente Etiópia ou Pérsia. Mártir ou morte natural — fontes divergem.

VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre Mateus

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Único a se chamar "publicano"

Nos outros Evangelhos ele é só "Mateus". Apenas no Evangelho que ele mesmo escreveu aparece "Mateus, o publicano" — um ato de humildade voluntária para sempre.

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Inspiração de Caravaggio

As três pinturas de Mateus em San Luigi dei Francesi, Roma, são consideradas obras-primas do barroco. Caravaggio usou luz e sombra para contar o chamado, a inspiração e o martírio em três telas na mesma capela.

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O evangelho mais citado

Por séculos, Mateus foi o Evangelho mais lido na liturgia cristã. Sua organização sistemática e suas citações do AT o tornaram o preferido para o ensino eclesial.

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O homem alado

O símbolo de Mateus é o homem ou anjo — porque seu Evangelho começa com a genealogia humana de Jesus. Nas pinturas de Caravaggio, é literalmente um anjo que guia a mão do evangelista.

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O zelote e o publicano

Mateus e Simão Zelote eram polos opostos do espectro político do primeiro século. O mesmo grupo apostólico que os reuniu é a maior demonstração de que o reino de Deus supera qualquer ideologia humana.

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Cinco livros, cinco discursos

O Evangelho de Mateus organiza os ensinamentos de Jesus em cinco grandes blocos discursivos — possivelmente uma referência intencional aos cinco livros de Moisés (a Torah), mostrando Jesus como o novo legislador.

PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos‑chave

Mateus 9.9"E ele se levantou e o seguiu."
Mateus 9.12–13"Não vim chamar justos, e sim pecadores."
Mateus 10.3"Mateus, o publicano" — o apóstolo que nunca esqueceu de onde veio.
Mateus 1.1"Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão."
Lucas 5.28"E ele, deixando tudo, se levantou e o seguiu."
Mateus 28.19–20"Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações." — A Grande Comissão, última palavra do livro de Mateus.
O Martírio de São Mateus, por Caravaggio
O Martírio de São Mateus — Caravaggio (c. 1599–1600), Igreja de San Luigi dei Francesi, Roma. Domínio público.

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