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O profeta Joel, afresco de Michelangelo na Capela Sistina
RAIO-X BÍBLICO · PROFETAS MENORES · ESTUDO COMPLETO

Joel

o profeta que viu o Dia do Senhor numa nuvem de gafanhotos

Da Bíblia sabemos pouquíssimo sobre o homem: três versos contam só o nome do pai dele. Mas o livro que ele deixou é um dos mais impressionantes da Escritura. Joel olha para uma praga de gafanhotos que devorou a terra inteira e enxerga ali algo muito maior — uma prévia do Dia do Senhor. Dele saiu o grito que abala qualquer igreja: "rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes". E dele saiu a promessa que explodiu no Pentecostes: "derramarei o meu Espírito sobre toda a carne". Este é o estudo completo de Joel: cada capítulo, o hebraico por trás das cenas, o coração de um povo de joelhos, e a misericórdia de um Deus que restitui o que a praga comeu.

⏱ Leitura longa e profunda · 4 obras de arte · 4 camadas de estudo · Joel 1 — 3
Cartão de visita
Nome
Joel (hebraico Yoel) — "o Senhor é Deus" (Yah + El)
Pai
"Joel, filho de Petuel" — só isso a Bíblia diz dele
Origem provável
Judá / Jerusalém — fala muito do Templo e de Sião
Época
Incerta; o livro não cita rei nem data — pode ser bem antigo ou pós-exílio
Escreveu
O livro de Joel — apenas 3 capítulos (poesia hebraica)
Tema central
O Dia do Senhor: juízo e, depois, restauração
Imagem marcante
A praga de gafanhotos como prévia do juízo de Deus
A grande promessa
O derramamento do Espírito sobre toda a carne — citado em Atos 2

Como ler este estudo — as 4 camadas

🔎 A Lente do Original — o que a palavra hebraica revela e o texto em português esconde.
💗 O Coração de Joel — o lado humano, emocional e espiritual de cada cena.
🌱 Semente de Sermão — um gancho que já nasce pregação pronta.
📜 Segundo a Tradição — o que vem da história e da tradição, não da Bíblia.
Parte I
O homem que quase não tem biografia

01 — QUEM FOI JOELUm profeta de quem sabemos quase nada

Vamos começar com honestidade: a Bíblia fala pouquíssimo sobre o homem Joel. O livro inteiro se apresenta numa só linha: "Palavra do Senhor que veio a Joel, filho de Petuel" Jl 1.1. Acabou. Nenhuma cidade, nenhum rei, nenhuma data, nenhuma família além do nome do pai. Não há um único versículo narrando a vida dele — só a mensagem que Deus lhe deu.

Por isso, o "Raio-X" de Joel é diferente do de um Pedro ou de um Davi. Não vamos seguir cenas da vida dele, porque a Escritura não as conta. Vamos seguir o que de fato temos: o livro — três capítulos curtos, intensos, escritos em poesia hebraica de tirar o fôlego. E é nesse livro que Joel se torna gigante. Tudo o que ele pregou pode ser dividido em duas palavras que ele repete o tempo todo: juízo e misericórdia.

🔎 A lente do original

O próprio nome já é um sermão. Yoel junta duas palavras: Yah (forma curta de Yahweh, o Senhor) e El (Deus). Ou seja, "Joel" significa "o Senhor é Deus" — exatamente a confissão que o livro inteiro quer arrancar do povo. Curiosamente, é o mesmo nome de Elias só que de trás para frente: Eli-yahu = "meu Deus é o Senhor". O homem virou a própria mensagem que carrega.

Sobre a época em que viveu, os estudiosos não chegam a acordo. O livro não menciona rei nenhum — o que é raro entre os profetas — então alguns o colocam bem cedo, e outros depois do exílio. Para o nosso estudo, isso pouco importa: a mensagem de Joel não depende de uma data, porque o "Dia do Senhor" de que ele fala atravessa todos os tempos.

💗 O coração de Joel

Há algo lindo num profeta quase anônimo. Joel não se promove, não conta a própria história, não pede holofote. Ele some atrás da mensagem. O homem desaparece para que a Palavra do Senhor apareça. Em uma era em que todo mundo quer aparecer, Joel prega calado sobre si mesmo e altíssimo sobre Deus — e é exatamente por isso que a voz dele atravessou três mil anos.

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Parte II
A praga: quando o céu escurece de gafanhotos

02 — A TERRA DEVORADAOs quatro gafanhotos

O livro abre com um choque. Joel manda os anciãos pararem tudo e prestarem atenção: "Aconteceu isto em vossos dias? Ou nos dias de vossos pais?". Algo nunca visto tinha acontecido. Uma nuvem de gafanhotos caiu sobre Judá e comeu absolutamente tudo — a plantação, a videira, a figueira, até a casca das árvores ficou branca, descascada Jl 1.2‑7. E ele descreve a devastação em camadas, como ondas de um exército:

"O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o migrador; e o que deixou o migrador, comeu-o o devorador; e o que deixou o devorador, comeu-o o destruidor." Joel 1.4
A praga de gafanhotos sobre a terra, gravura da Holman Bible
A Praga de Gafanhotos — gravura da Holman Bible (1890). A nuvem que escurece o céu e devora a terra. Domínio público.
🔎 A lente do original

O português usa quatro palavras (cortador, migrador, devorador, destruidor), mas no hebraico são quatro nomes diferentes de gafanhoto, cada um marcando um estágio ou uma forma de devorar: gazam ("o que rói/corta"), arbeh (o gafanhoto comum, "o que se multiplica" — é o nome usado também na praga do Egito), yeleq ("o que lambe", o gafanhoto jovem), e chasil ("o que consome/acaba"). Os estudiosos discutem se são quatro espécies, quatro fases de vida do inseto ou só um recurso poético. O efeito, porém, é claro: o que um deixa, o próximo come. É a imagem da destruição que não sobra nada — onda após onda, até o chão raspado.

E não para na lavoura. Sem colheita, não há oferta de cereais nem libação para a casa de Deus — o culto no Templo literalmente trava por falta de pão e vinho Jl 1.9. Os celeiros estão vazios, o gado geme sem pasto, os rios secam, e até o fogo terminou de queimar as pastagens Jl 1.17‑20. A praga atingiu a mesa, a economia e o altar de uma vez só.

💗 O coração de Joel

Repare que Joel não trata a tragédia como "azar" ou "fenômeno natural". Ele a lê como um recado de Deus — não para amaldiçoar o povo, mas para acordá-lo. Há uma sensibilidade dolorida no profeta: ele convoca os bêbados a chorar pelo vinho que acabou Jl 1.5, os lavradores a se envergonhar, os sacerdotes a lamentar. Joel sente a dor de cada classe da sociedade. Ele não está acima do povo apontando o dedo; está no meio do escombro, chorando junto e chamando todo mundo a olhar para cima.

03 — UM EXÉRCITO QUE NÃO SE DETÉMO Dia do Senhor se aproxima

No capítulo 2, a coisa fica ainda mais assustadora. Joel manda tocar a trombeta em Sião e dar o alarme, porque o Dia do Senhor está chegando — "dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e densas trevas" Jl 2.1‑2. E descreve os gafanhotos como um exército invasor: corredores como cavalaria, barulho como o de carros de guerra saltando sobre os montes, fileiras que não quebram, que escalam muros, que entram pelas janelas como ladrões Jl 2.4‑9. Diante deles, a terra treme, o céu estremece, o sol e a lua escurecem Jl 2.10.

🔎 A lente do original

A expressão-chave do livro é Yom YHWH — o "Dia do Senhor". Não é necessariamente um único dia de 24 horas, e sim o momento em que Deus age de forma decisiva na história: vem para julgar e vem para salvar. Joel usa a praga real de gafanhotos como uma janela: aquilo que o povo viu com os próprios olhos é uma amostra, em escala pequena, do grande Dia em que Deus acertará as contas com o mundo inteiro. O profeta repete Yom YHWH como um sino que não para de tocar — para que ninguém durma.

🌱 Semente de sermão

Há um sermão poderoso aqui: Deus usa a crise para nos acordar. A praga não foi o fim da mensagem — foi a trombeta dela. Joel ensina a ler as tragédias não como castigo cego, mas como chamado. O barulho dos gafanhotos era o despertador de Deus. E a pergunta que fica é: o que será preciso para que a gente finalmente olhe para cima? "Tocai a trombeta em Sião" — alguém precisa soar o alarme antes que seja tarde.

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Parte III
O chamado: rasgai o coração

04 — A VIRADA"Convertei-vos a mim de todo o coração"

Bem no meio do livro, no auge do terror, a voz muda. Deus interrompe a descrição do juízo com uma palavra pequena e enorme: "Ainda assim". E então vem o coração de toda a mensagem de Joel:

"Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor, convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade." Joel 2.12‑13

Era costume, no luto e na dor, rasgar a roupa — um gesto público de tristeza. Mas Deus diz: não quero o pano rasgado, quero o coração rasgado. Não me interessa a aparência da dor; me interessa a verdade da dor. Não basta parecer arrependido — é preciso ser.

🔎 A lente do original

O verbo é forte: qara' significa "rasgar, dilacerar, romper em pedaços" — a mesma palavra usada para quem rasga as vestes em desespero. Deus pega esse gesto violento e o vira para dentro: rasgai o lebab (o coração, o centro da vontade e das decisões, não só do sentimento). É como se Ele dissesse: "use toda essa força que você gastaria rasgando tecido para arrombar o seu próprio íntimo diante de mim". O arrependimento que Deus quer não é decorativo — é cirúrgico.

💗 O coração de Joel

Veja a delicadeza: logo depois de pedir o coração rasgado, Joel dá o motivo — "porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade". O profeta não ameaça o povo a se converter por medo do castigo; ele os atrai pela bondade de Deus. A base do arrependimento, em Joel, não é "Deus vai te pegar", e sim "Deus quer te receber". É o amor que dá a coragem de abrir o peito. Quem entende quão bom é o Senhor não tem medo de se mostrar a Ele exatamente como é.

🌱 Semente de sermão

"Rasgai o coração, e não as vestes" é sermão inteiro, do título à conclusão. Quantos cristãos rasgam as vestes — a postura certa, as palavras certas, a cara de culpa no banco da igreja — e nunca rasgam o coração? Deus não está atrás de um show de arrependimento; está atrás de gente sincera. Pregue contra a religião de aparência: dá para chorar no culto e nunca mudar por dentro. Dá para levantar a mão e manter o coração fechado. O que Deus quer não é o seu pano — é você.

05 — JEJUM NACIONAL"Convocai uma assembleia solene"

O arrependimento que Joel prega não é só individual — é de nação inteira. Ele manda tocar a trombeta de novo, mas agora para convocar: "santificai um jejum, convocai uma assembleia solene, congregai o povo" Jl 2.15‑16. E faz questão de não deixar ninguém de fora: reúna os velhos, as crianças, até os bebês de peito; que o noivo saia do quarto e a noiva do seu aposento. Ninguém é pequeno demais nem importante demais para ficar de fora do clamor.

E dá o roteiro da oração dos sacerdotes, que deviam chorar entre o pórtico e o altar dizendo: "Poupa o teu povo, ó Senhor… por que diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?" Jl 2.17. Ou seja, o argumento mais forte da oração não é "nós merecemos" — é "Senhor, a tua honra está em jogo".

💗 O coração de Joel

Tem uma cena comovente escondida aqui: o noivo e a noiva chamados a deixar até a festa do casamento para se juntarem ao clamor. Joel entende que há horas em que a alegria pessoal precisa parar diante de uma necessidade maior. Não é tristeza por tristeza — é prioridade. Quando a casa de Deus chora, não é hora de cada um cuidar só da sua felicidade. O profeta sonha com um povo que sofre junto e busca a Deus junto.

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Parte IV
A restauração: Deus devolve o que a praga comeu

06 — A PROMESSA QUE CURA"Restituir-vos-ei os anos"

Aqui o livro respira. Quando o povo se volta de verdade, Deus se compadece. A Bíblia diz que o Senhor teve zelo da sua terra e se compadeceu do seu povo Jl 2.18. E vem a promessa que reergue qualquer coração quebrado:

"E restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto, a locusta, o pulgão e a lagarta… e comereis fartamente, e vos saciareis, e louvareis o nome do Senhor vosso Deus, que procedeu para convosco maravilhosamente; e o meu povo nunca será envergonhado." Joel 2.25‑26

Pare e sinta o peso disso. Deus não promete só recompor a próxima colheita. Ele promete restituir os ANOS — o tempo perdido, as safras que se foram, o que parecia irrecuperável. Os mesmos quatro gafanhotos que devoraram tudo no capítulo 1 reaparecem aqui — só que agora para dizer que tudo o que eles comeram será devolvido.

💗 O coração de Joel

"Restituir os anos" é talvez a frase mais terna do livro inteiro. Porque tempo perdido parece a coisa mais impossível de recuperar — o que se foi, se foi. Mas o Deus de Joel faz o impossível: Ele não apenas perdoa, Ele restaura. Para quem olha para trás e só vê desperdício — anos comidos pelo pecado, pela depressão, pela má escolha, pela praga que veio — essa promessa é oxigênio. Deus é especialista em recompor temporadas devoradas. O que a praga levou, a graça devolve com fartura.

🌱 Semente de sermão

Sermão para quem acha que perdeu tempo demais: "Os anos que o gafanhoto comeu." Há gente sentada no banco da igreja convencida de que estragou a própria vida e que agora é tarde. Joel grita o contrário. O mesmo Deus que mandou a trombeta do juízo manda a promessa da restituição. Não diga que é tarde demais para quem se rende ao Senhor — Ele restitui anos, não só dias.

07 — A GRANDE PROMESSA"Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne"

E então Joel chega ao ponto mais alto de todo o livro — uma promessa tão grande que ultrapassa de longe a praga, a colheita e até aquela geração. Deus anuncia algo que mudaria a história do mundo:

"E há de ser que, depois, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito." Joel 2.28‑29

Pense no que isso significava. No Antigo Testamento, o Espírito de Deus vinha sobre alguns — um profeta, um rei, um juiz. Aqui, Deus promete derramá-lo sobre toda a carne: homens e mulheres, velhos e jovens, e até sobre servos e servas — gente sem voz, sem direitos, sem lugar. Deus anuncia o dia em que ter o Espírito não seria privilégio de uma elite, mas dom para todos os que O buscarem.

🔎 A lente do original

O verbo "derramar" é shaphak — a mesma palavra usada para despejar um líquido, derramar sangue, esvaziar uma jarra de uma vez. Não é "pingar" nem "borrifar": é despejar com abundância. E o que é derramado é o ruach — "espírito", mas também "vento" e "fôlego/respiração". É a mesma ruach que pairava sobre as águas na criação e que Deus soprou em Adão. Joel promete que Deus vai despejar o seu próprio fôlego de vida sobre a humanidade inteira. E "toda a carne" (kol-basar) é a expressão mais ampla possível — ninguém fica de fora por categoria.

E Joel continua: nos céus haverá sinais — o sol em trevas, a lua em sangue — antes do grande e terrível Dia do Senhor. Mas no meio disso vem a porta da salvação: "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" Jl 2.30‑32.

🌱 Semente de sermão

Séculos depois, no dia de Pentecostes, o Espírito desce sobre os discípulos como Joel havia dito — e quando a multidão estranha o que está vendo, é Pedro quem se levanta e explica: "isto é o que foi dito pelo profeta Joel", e cita exatamente essa passagem At 2.16‑21. Ou seja: a promessa que Joel deu olhando para uma plantação destruída se cumpriu no nascimento da Igreja. Sermão pronto: o mesmo profeta que viu o céu escuro de gafanhotos viu também o céu aberto pelo Espírito. Depois do juízo, a chuva do Espírito. Depois da praga, o Pentecostes. Deus sempre tem um "depois" para quem se volta a Ele.

💗 O coração de Joel

É de cortar o coração imaginar Joel escrevendo "filhos e filhas profetizarão, servos e servas" numa sociedade onde mulher, jovem e escravo quase não tinham voz. Ele estava enxergando, séculos antes, um mundo em que a graça de Deus não respeita a hierarquia humana. O profeta quase anônimo do capítulo 1 termina anunciando a maior democratização espiritual da história: o Espírito de Deus para qualquer um que invocar o nome do Senhor.

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Parte V
O juízo das nações no vale da decisão

08 — O TRIBUNAL DO MUNDOO vale de Josafá

O capítulo 3 fecha o livro com a outra face do Dia do Senhor: não a salvação dos que invocam o nome do Senhor, mas o juízo das nações que oprimiram o povo de Deus. O Senhor anuncia que vai reunir todos os povos e descê-los a um lugar com nome de tribunal: o vale de Josafá Jl 3.2. Ali Ele entrará em juízo com eles por terem espalhado Israel, repartido a terra e vendido meninos e meninas como mercadoria Jl 3.3‑6.

🔎 A lente do original

O nome do vale não é por acaso: Yehoshaphat significa "o Senhor julga" (de Yah + shaphat, "julgar"). O lugar do encontro já anuncia o que vai acontecer ali. Por isso Joel também o chama de "vale da decisão" Jl 3.14 — não no sentido de "escolha humana", mas de veredicto, a sentença sendo proferida. Não é um vale geográfico que você acha no mapa; é o nome que Deus dá ao momento em que pronuncia a Sua sentença sobre a história.

E aqui Joel inverte uma imagem famosa. Outros profetas sonharam com o dia em que as espadas virariam arados e as lanças, foices Is 2.4. Joel, falando do juízo, vira ao contrário: "forjai espadas das vossas enxadas, e lanças das vossas podadeiras; diga o fraco: Eu sou forte" Jl 3.10. Convoca os povos para a batalha final, e ordena: "Lançai a foice, porque a seara está madura" Jl 3.13 — a colheita do juízo.

A Morte sobre o cavalo amarelo, gravura de Gustave Doré para o Apocalipse
A Morte sobre o Cavalo Amarelo — Gustave Doré (1865/66), para o Apocalipse. A imagem clássica do Dia do Senhor e do juízo que se aproxima. Domínio público.
💗 O coração de Joel

É fácil ler o juízo das nações como pura ira. Mas olhe o que move Deus aqui: Ele se levanta porque venderam crianças, porque traficaram gente, porque pisaram nos indefesos. O Deus de Joel não fecha os olhos para a injustiça contra os fracos. O mesmo Senhor que diz "diga o fraco: eu sou forte" é o que vai cobrar de quem explorou o fraco. Há um consolo profundo nisso para todo oprimido: Deus viu, Deus anotou, e Deus tem um dia marcado para fazer justiça.

09 — A ÚLTIMA PALAVRAA fonte que sai da casa do Senhor

O livro que começou com a terra descascada e os celeiros vazios termina com uma das imagens mais bonitas da Bíblia. Depois do juízo, Deus promete que os montes destilarão mosto, as colinas manarão leite, todos os ribeiros de Judá correrão com água — e, o ponto alto: "uma fonte sairá da casa do Senhor" Jl 3.18. Onde a praga tinha feito o culto parar por falta de pão e vinho, agora brota uma fonte do próprio Templo.

E a frase final coroa tudo: "o Senhor habita em Sião" Jl 3.21. Esse era o objetivo de toda a jornada — não só campos restaurados, mas Deus morando no meio do seu povo. Joel sai da praga para a presença. Do vazio para a fonte. Do juízo para a habitação de Deus.

🌱 Semente de sermão

A Bíblia inteira termina com um rio que sai do trono de Deus e cura as nações Ap 22.1. Joel já tinha visto a nascente daquele rio: "uma fonte sairá da casa do Senhor". Sermão pronto sobre o arco da história: de uma terra seca e devorada a uma fonte que jorra da presença de Deus. Essa é a direção para a qual toda a Escritura caminha — e para a qual a sua história também caminha, se você se voltar para Ele.

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Parte VI
Além da Bíblia: o que a tradição conta

10 — O QUE GUARDARAM SOBRE JOELMemória da igreja e da sinagoga

Como a Bíblia praticamente não fala da vida de Joel, qualquer detalhe sobre a pessoa dele vem de fora da Escritura — e é bom saber disso de antemão.

📜 Segundo a tradição

Tradições judaicas antigas tentaram preencher os espaços em branco: algumas listam Joel entre os profetas e o associam à tribo de Rúben; outras chegam a localizar o seu túmulo. Não há, porém, nenhuma confirmação histórica firme — são memórias transmitidas, não fatos documentados.

Os cristãos sempre leram Joel à luz do Pentecostes, por causa da citação de Pedro em Atos 2. Por isso Joel é lembrado, na liturgia de várias igrejas, como "o profeta do Espírito derramado". Já a tradição da quarta-feira de Cinzas, em igrejas litúrgicas, usa justamente o "rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes" como texto de abertura do tempo de penitência.

Os intérpretes também debatem há séculos a data do livro e se a praga de gafanhotos foi um evento literal, uma metáfora de um exército invasor, ou as duas coisas ao mesmo tempo. A Bíblia não resolve a discussão — e o estudo honesto reconhece que aqui há mais perguntas do que respostas.

⚠️ Tudo nesta seção vem da tradição, da liturgia e do debate dos estudiosos, não das Escrituras. A Bíblia confirma apenas que Joel era filho de Petuel, que recebeu a Palavra do Senhor e que escreveu o livro que leva o seu nome — nada mais sobre a sua vida pessoal.

A queda da grande cidade, gravura de Gustave Doré para o Apocalipse
A Queda da Grande Cidade — Gustave Doré (1866), para o Apocalipse. O juízo de Deus sobre as nações, eco do que Joel anunciou no vale de Josafá. Domínio público.

LINHA DO TEMPOO livro de Joel de relance

A apresentação
"Palavra do Senhor que veio a Joel, filho de Petuel." É tudo o que sabemos do homem.
A praga (cap. 1)
Os quatro gafanhotos devoram a terra; cessam o pão e o vinho do Templo. Joel chama todos ao luto.
A trombeta (cap. 2.1‑11)
"Tocai a trombeta em Sião": o Dia do Senhor se aproxima como exército que não para.
O chamado (cap. 2.12‑17)
"Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes." Jejum e assembleia solene da nação inteira.
A restauração (cap. 2.18‑27)
Deus se compadece: "restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto".
A grande promessa (cap. 2.28‑32)
"Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne." Citada por Pedro no Pentecostes (At 2).
O juízo (cap. 3)
As nações reunidas no vale de Josafá, o "vale da decisão". Justiça pelos oprimidos.
A última palavra
Uma fonte sai da casa do Senhor; "o Senhor habita em Sião".

VOCÊ SABIA?Curiosidades sobre Joel

📜

Quase um anônimo

A Bíblia não conta nada da vida de Joel além do nome do pai dele, Petuel. Conhecemos o profeta só pela mensagem.

🦗

Quatro gafanhotos

Joel 1.4 usa quatro nomes hebraicos diferentes de gafanhoto. O que um deixa, o próximo come — destruição total, onda após onda.

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O profeta do Pentecostes

Foi a profecia de Joel ("derramarei o meu Espírito") que Pedro citou para explicar o que acontecia no dia de Pentecostes.

💔

Coração, não roupa

"Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes" virou o texto clássico sobre arrependimento verdadeiro versus aparência.

⚖️

O vale que julga

"Josafá" significa "o Senhor julga". Por isso Joel também chama o local de "vale da decisão" — o veredicto de Deus.

🌧️

Espadas, ao contrário

Isaías sonhou com espadas viradas arados; Joel, falando do juízo, inverte: "forjai espadas das vossas enxadas".

PARA LEVAR NA BÍBLIAVersículos‑chave

Joel 1.4"O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o migrador…"
Joel 2.13"Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes."
Joel 2.25"Restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto."
Joel 2.28"Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne."
Joel 2.32"Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo."
Joel 3.14"Multidões no vale da decisão! Perto está o dia do Senhor."

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